O Liberté, Égalité, Fraternité do Rolét: ou o que a esquerda ainda não entendeu sobre os “rolezinhos”.

Posted on janeiro 16, 2014

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Vamos tentar neste ensaio uma análise da postura da esquerda frente aos rolezinhos, passando por uma anatomia rápida dos eventos e dos elementos culturais/sociais/econômicos em jogo.  Da direita se espera que faça direitisses: que fale besteira, que desinforme, que coloque o Olavo pra xingar geral no youtube, etc. Todavia da esquerda se espera uma análise crítica que ao mesmo tempo respeite e saiba trabalhar com as dinâmicas pra lidar com os conflitos sociais que os próprios jovens de periferia elegeram para si mesmos… mas infelizmente isso tem sido o contrário do que andamos lendo. As próprias análises da esquerda têm sido vítimas de um elitismo disfarçado de denuncismo, postura essa que pretendemos aqui atacar, enquanto expomos os motivos (históricos) que enxergamos na postura dos membros do lado vermelho do espectro das ideologias políticas.


Rolezinho: a fidalguia do pancadão. 

Todo mundo até este momento já deve estar informado dos chamados “rolezinhos”: jovens de periferia, utilizando das redes sociais, marcam mega-encontros em shoppings e outros lugares “públicos” com a intenção de se congregarem, ouvirem música, darem em cima das meninas/meninos e por aí vai. É uma dinâmica que não é de agora e que vem na onda dos bailes funks e demais práticas lúdicas desses mesmos setores e classes sociais, que naturalmente têm sua cultura própria e o seu jeito de se divertir.

Até aí nada novo: grupos sociais buscam se diferenciar uns dos outros na luta por delimitarem as fronteiras da sua identidade social. Entretanto os jovens de periferia sempre estiveram sob os mais variados estigmas, ainda-vítimas da ainda-mania das classes mais abastadas de se acharem donas de um discurso homogeneizante e de pretensões explicativas que nada mais passa de puro preconceito, preconceito esse eivado de muito elitismo e racismo. Não seria diferente quanto à questão dos rolezinhos, tanto que, rapidamente, o que era algo que surgiu com uma intenção de curtição foi interpretado pelo resto da sociedade como uma afronta e, até mesmo, crime. Jovens começaram a ser expulsos, houve enfrentamentos com seguranças, e a PM foi chamada pra largar bala de borracha e gás lacrimogênio no agito de maluco-moreno. A desculpa inicial veio rápida: os jovens estavam na verdade causando tumulto, assaltando, pertubando a paz e a ordem. Todavia, passada a nuvem de gás, a verdade começou a aparecer, e apesar de terem sido reportados crimes, notou-se que eles aconteceram APÓS os enfrentamentos, expulsões, polícia, bala de borracha, etc… e aí ficou a pergunta na cabeça de neguinho: por que deabos então essa confusão toda com um molecada que tava só ouvindo música e se-azarando-se uns aos outros?

A resposta não é complicada de entender e muita gente já desenhou ou mesmo intuiu ela: preto-pardo-pobre-escutador-de-funk incomoda. Incomoda? Sim, incomoda: maluco-doido é o retrato que anda de toda uma classe social que é antítese do ~milagre pós-1988, que os governos de direita ou quase-direita têm vendido. É a gente que ainda sobrevive, e não vive, que teve seus ganhos um pouco aumentados por políticas-sociais-tampa-buraco que foram importantes sim, mas que estão MUITO longe de proporcionarem a eles uma vida melhor, contrariando a ~riqueza das linhas desenhadas pelo IBGE, onde todo mundo virou Classe-A da noite pro dia, num capricho de uma tabela do excel.

Entretanto, apesar disso, nos últimos treze anos a vida deles melhorou. O carro, a passagem de avião mais barata, uma oportunidade de emprego empoderou essas classes, e agora eles não precisam beber escondidos na favela, podem pegar o carro e dar um rolê pelo centro e beber junto com a rapaziada branca. Podem entrar no site da Gol e marcar uma passagem pra ver a família, contar como estão os corres enquanto toma um vinho e come um panettone. Em suma: apesar dos pesares, o pouco de política social que foi direcionada para eles permitiu a eles sair da situação de quase-invisibilidade que eles se encontravam. Experimentam essas classes uma vida um pouco melhor, diferente da que tinham antes. Naturalmente surgiram novas dinâmicas (culturais/sociais/econômica) que espelham essa nova realidade, e dentre elas a estratégia eleita pelos jovens para lidar com esse novo momento:  a “ostentação”.

E o que é a ostentação? Definir não dá, então a gente arrisca um sociologismo: é a busca de visibilidade social via consumo, ancorado no velho costume ibérico da “parecença”, a dizer, se eu não posso ser, pelo menos posso parecer com a classe social que eu almejo ser. É um costume que vem da época da “fidalguia” lusitana, especialmente. Fidalgo é a corruptela do “Filho D’Algo” ou filho de alguém: você existe enquanto membro de uma linhagem (nobre). A cultura da fidalguia é um dos elementos mais marcantes da nossa cultura, e estados da União como é o caso do Maranhão nota-se muito isso: lá quando se fala de alguém, não se fala do nome, mas do nome e do SOBRENOME, e esse sobrenome é dito com mais entonação quanto mais rica (ou “importante”) seja a pessoa.

Então, em miúdos: ostentação é a fidalguia transportada pro duro chão de quem tá na atividade, defendendo o seu. É o jeito que esses jovens tem encontrado para aparecerem pro mundo que não quer que eles apareçam. Usam da velha ferramenta do consumo pra isso, e nisso o capitalismo deixa a eles seu muito obrigado. Até aí não teria problema algum: quanto mais gente comprando, melhor pro sistema, não importa tua cor. Entretanto o problema não foi o fato deles quererem comprar, mas sim o ONDE eles querem fazer isso.

Shopping Iguatemi ~dos Palmares. 

Fotógrafo da Folha capta o momento em que mais uma vez os funkeiros promovem o vandalismo, invadindo importante Quilombo do Itaim Bibi, atrapalhando o comércio e promovendo saques.

Fotógrafo da Folha capta o momento em que mais uma vez os funkeiros promovem o vandalismo, invadindo importante Quilombo do Itaim Bibi, atrapalhando o comércio e promovendo saques.

Os shoppings , bem sabemos, são um dos lugares por excelência do capital, contendo em si sua simbologia como local da reprodução de práticas econômicas que, querendo ou não, ajuda a construir a identidade daqueles que aceitam e querem participar da ordem das coisas.  Comprar no shopping é um recado pro resto da sociedade, mais do que um gesto econômico, porque diferente da loja de esquina lá a “ostentação” é maior, ostentação essa que todas as classes buscam como forma de se diferenciar uma das outras.

Por isso, o shopping sempre foi o lugar da antiga classe-média, mais mesmo do que da rica. A classe efetivamente rica, na busca por se manter na vanguarda, já se moveu pra fora dos shoppings tem tempo, deixando um espaço ocupado pela classe imediatamente abaixo dela, que chamamos aqui de “antiga” classe média, antiga por ser anterior ao IBGE e suas ~linhas modestamente generosas que diferenciam as categorias sócio-econômicas. Enfim, essa antiga classe-média tinha no shopping o seu último reduto, sua última fortaleza contra as invasões bárbaras dos funkeiros, funkeiras e gente-marrom de toda sorte, que tomaram os bares da centro e as praias do nordeste. Centro comerciais de luxo, como é o caso do Iguatemi, no romantismo classe-medista, funcionam como verdadeiras versões  modernas dos quilombos de outrora, onde a sociedade branca tenta funcionar em paz, sem ter que estar aos braços com as classes que odeiam e as que se sentem ~oprimidas.  São lugares par excellence do rolê da gente rosa de camiseta pólo poder ostentar a gata que descolou no último fim de semana… em suma:  são nesses shoppings que eles colocam em prática a sua fidalguia. E aí eu te pergunto: vocês acham que eles ficaram felizes de ver esses espaços tomados por aqueles que eles vem fugindo esse tempo todo? Essa gente pobre que funciona como um espelho da hipocrisia, do descaso, do olavismo/constatinismo/veja-ismo deles de cada dia?

Esse o motivo principal do rolezinho incomodar tanto. A ostentação da periferia, que é mais alegre, mais volumosa, mais numerosa inclusive, está obnubilando o bagulho de neguinho-branco. Playboy chega em casa reclamando, pai escuta, absurdo!, liga pra Folha, pra Globonews, comenta com o síndico do prédio, que por sua vez diz que ouviu dizer que roubaram o filho daquela moradora nova do 316… e aí, no outro dia, a manchete do Estadão é que ancoraram um Navio Negreiro em plena Paulista e galera d’ La Amistad tá lá desassossegando o bagulho de geral.

E o que a esquerda precisa saber sobre os rolezinhos?

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Aqui estou mais um dia / Sob o olhar sanguinário do elitista.

Duas coisas apenas: 1) Eles não são o proletariado que tanto queremos para fazer a revolução; 2) Eles merecem ser respeitados dentro da suas estratégias, seja de ostentação, seja do que for. O que temos visto desde que esse assunto veio à tona é um discurso dos setores à la gauche tentando fazer uma cooptação-pero-no-mucho do movimento via denuncismo. Criticam acertadamente o racismo, o preconceito, etc., mas em alguns momentos nota-se um elitismo misturado com orelha de livro da capa vermelha: criticam as expulsões/repressão, mas ressentem-se desses jovens quererem apenas, em sua maioria, construir seu lugar ao sol via consumo. Essa postura de busca por visibilidade social das classes que essa esquerda sempre teve como seu xodó e seu laboratório de teorias a deixa louca e perdida, pois é como se o rato-branco (preto na verdade) saísse da gaiola de tênis mizzuno e tomasse o tubo de ensaio da mão do cientista de boina e mandasse ele calar a boca e fosse pra night com o resto da rapaziada. Essa postura, que notamos permear boa parte das análises que lemos sobre o tema, está bem ilustrada em uma citação do Érico Bonfim, que andou rondando a internet:

A esquerda deve sempre se solidarizar com as massas, especialmente num caso flagrante, como esse, de criminalização da pobreza. No entanto, isso não deve nos impedir de ser críticos em relação ao quão avançados politicamente são esses rolezinhos. Eles me parecem ter a ver com uma vontade consumista da juventude pobre, que talvez guarde alguma relação com o funk ostentação, por exemplo. Nesse sentido, a prática do rolezinho é passível de olhar crítico da esquerda. Não é porque ele é praticado por pessoas pobres que é avançado politicamente. Dizer o contrário é demagogia barata e muita falta de leninismo. Usar marcas é uma maneira de o pobre tentar escapar à marginalização e tentar ser visto como gente. No entanto, a roupa cara, a roupa de marca tem tudo a ver com ostentar para se destacar do “resto”. Ora, só se ostenta o que nem todo mundo tem, portanto não há ostentação sem exclusão e, logo, não há quem se diga de esquerda que possa fazer vista grossa à vontade de ostentar (uma vez que ser de esquerda significa necessariamente denunciar e combater politicamente a exclusão social), seja de onde ela parta. Devem-se, sim, exterminar os abismos sociais e tornar a ostentação, desse modo, completamente desprovida de sentido.”

Ou seja: ver sentido político na prática que os PRÓPRIOS jovens de periferia encontram pra lidar com as contradições do modo de produção capitalista é demagogia. Não, não é: dizer o que ele disse que na verdade é elitismo com verniz acadêmico. O grande problema das ~soluções da esquerda pra sociedade é sempre esse: como todos os intelectuais, eles adoram o som da própria voz, e se incomodam quando o ruído das ruas é mais alto que o som que sai da boca deles. É a velha mania da “hieraquização”: tua luta só vale à pena se estiver dentro do modelinho certo/errado que eu criei pra ti.

Então, seria interessante largar essa postura de eterna viúva e construir a luta de classes com o que temos. Os alemães todos que lemos e que nos são tão caros têm suas limitações, e infelizmente o tal “proletariado” não vai vir: vivemos em uma sociedade globalizada, extremamente plural, informatizada que está no meio a uma revolução tecnológica e comunicativa absurda. Ninguém sabe direito que caldo vai dar isso tudo. Arriscamos uma ou outra teorização, mas o tempo das ~grandes teorias, engoblantes e totais já passou tem tempo. Fazer ciência é trabalhar com o caos… então, trazendo isso pra esquerda, devemos aplaudir os rolezinhos pelo que eles representam pras classes DIRETAMENTE envolvidas neles: uma forma SUA de resistência, de ocupação de espaços que lhes eram anteriormente negados, etc., e tudo isso está sendo construído via ~bagunça (ou “pobreza política” nas palavras do Érico Bonfim), via ~ funk/ostentação, via o que seja!

No mais, ficamos na torcida de eventos como esses estourarem cada vez mais, porque com eles sempre surgem a acentuação de contradições que forçam governos/classes a tomarem uma postura. A solução sempre está na mistura: por um brasil de funkeiros fãs de rock e sertanejo universitário ou de ensino-técnico, cambada de neguinho erudito ou não dando um rolet de boa, tudo junto ostentando consciência e tolerância com as diferenças.

É isso aí. A rua é nóis!

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