As Manifestações em Brasília & A Plataforma dos Novos Movimentos Sociais Brasileiros.

Posted on junho 18, 2013

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Prazer, os novos políticos brasileiros.

Antes de mais nada uma breve introdução: aqui, Paulo Fernandes, sociólogo, mestre em sociologia e aluno de direito. Até alguns dias atrás mais um ~vândalo, mas depois do recuo da mídia e dos governos, voltei a ser chamado, junto com nossos colegas, de   “manifestante”  mesmo.

Escrevo este post para relatar os protestos em Brasília. Estamos acompanhando eles desde sábado, quando do jogo do Brasil x Japão, e os de hoje, segunda dia 17 de junho e recebi alguns apelos para escrever algo por ser alguém que está vivendo de dentro a efervescência que tomou conta do país quando a juventude – os atores políticos por excelência da história da humanidade – resolveu tomar o país de volta das mãos daqueles que estão secularmente instalados em seus altos postos, depredando e vandalizando nossas mais caras instituições políticas.

Farei isso resumindo sábado, e depois focando no que houve hoje, que com certeza foi um dos dias mais importantes da nossa história: a invasão do congresso, os hinos, as bandeiras, a postura de todos os manifestantes, foi de uma beleza de arrepiar a nuca do reacionário mais empedernido, se ele tivesse um coração. Hoje também foi uma lição para todos aqueles que criticam o movimento por “não ter propostas” e chamam de “desorganizadas” as ações.

“Puta que pariu: a fifa agora é que manda no brasil”: Brasil contra a Copa. (Sábado, dia 15/06).

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Prazer, os até então ~vândalos.

Sábado foi tudo muito bem, e teria terminado assim não fosse a tentativa do comandante da PM responsável pela operação não ter estourado o conflito, com a intenção de buscar ganhos políticos pra si. Como assim ganhos políticos? Ele quer ser comandante geral da PM do DF, até onde tudo indica, e quis ter seus 15 minutos de fama na TV como o “arauto da democracia”, defensor do Estado Democrático de Direito (dos que pagam o soldo dele). Só que o tiro (de borracha ao menos) saiu pela culatra, e nessa esse nosso comandante levou junto o Gov. Agnelo, (o “Agnulo”, como chamamos ele aqui), que foi eleito pelo voto dessa mesma juventude que apanhou da polícia dele. O comandante e a PM iniciaram o tumulto e usaram de força excessiva, mas isso não é surpresa alguma. Depois disso ainda nos fizeram ficar horas e horas em delegacia tentando soltar quem tinha sido injustamente preso, com acusações forjadas, no velho esquema de sempre. Só que desta vez, essa tática foi furada, e custou ao Agnulo, acredito eu, qualquer chance de ter qualquer vida política depois deste mandato.

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A polícia cumprindo o seu papel e protegendo a jóia da coroa dos corruptos da cidade e a classe-média/alta lá dentro que compra ingresso e patrocina a robalheira.

De toda maneira, a manifestação foi totalmente pacífica, como é a tônica das manifestações nacionais, e quando estourou o conflito os manifestantes inclusive já estavam se dispersando, em grupos isolados, indo cada um pro seu rumo… quando derrepente estoura a primeira a bomba, e o resto vocês viram pela TV. O que vocês não viram foram os feridos nas delegacias, detidos enquanto ainda sangrando. Tivemos que ficar na 5a DP até quase 2am até conseguir que o último preso (foram mais de 21, sem contar os 10 menores que foram para o DCA) fosse liberado. Os manifestantes ficaram na porta fazendo sua parte, e o batalhão de choque ficou vigiando a todos, e a delegacia fechou seus portões. Advogados apareceram pra ajudar e até mesmo a OAB/DF compareceu, assim como a Dep. Erika Kokai. Fora isso, foi aí pela primeira vez que vimos que muitos policiais estão do nosso lado: alguns deles nos segredaram palavras de incentivo e um deles se propôs a conversar com os manifestantes. Digo isso porque, ao vez de ter raiva deles, lembrar que não podemos incorrer em generalizações: no país de exceção e de corrupção que vivemos, TODOS são vítimas, inclusive eles.

“Ocupar e resistir”: a invasão do Congresso Nacional (Segunda, 17/06)

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Qualquer problema, dúvida ou sugestão, favor culpar a si mesmo por nunca ter votado bem.

Quando estourou a onda de protestos em SP, eu cheguei a colocar no FB que duvidava que algo assim acontecesse em BSB, porque todo mundo aqui anda de carro, e quem ia se importar com a classe que anda de ônibus? Sábado eu mordi a língua, mas hoje foi o dia que arrancou dela esse pedaço infeliz que fez essa declaração. E nunca fiquei tão FELIZ na minha vida de estar errado.

Chegamos no Museu da República e estavam todos muito espalhados. Minha primeira impressão foi que não tinha o número de manifestantes que tínhamos no sábado. Ficamos lá e aí ganhamos a rua. Eu comecei a andar, e quando olhei pra trás…. abri um sorriso que ficou comigo o resto do dia e está até agora: eu não conseguia ver o fim daquela MULTIDÃO de pessoas, andando na pista. Foi um choque, que quando concentramos que deu pra ter idéia de quem éramos, de quantos éramos naquele momento. Quando ganhamos o eixo monumental e descemos pra esplanada, meu peito era só alegria: era MUITA gente, não dava pra contar.

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Nosso nome é legião e somos mais de 10.000, isso no cálculo oficial da PM.

Fomos descendo sem incidentes, com muitas palavras de ordem e tudo mais. Já deu pra notar que o Choque não tinha vindo, só o batalhão de trânsito da PM que nos acompanhava. Agnulo tentava agora consertar o que não dava mais pra ser consertado, de qualquer maneira, eles só nos acompanharam, até que chegamos na Esplanada….

Nossos 0.20 centavos.

Nossos 0.20 centavos.

E foi aí que tudo mudou. A idéia que tínhamos era de ir até a Praça dos 3 Poderes, mas como todo mundo sabe, não tem liderança, então o pessoal decide tudo na hora, e foi o que aconteceu: quando vi, estávamos todos no gramado, aquela multidão de gente. Não demorou pro pessoal tomar o laguinho. Alguns conflitos estouraram com a polícia, estouraram um gás lacrimogênio, mas nada grave, e os manifestantes reagiram jogando água nos PM’s, e ficou nisso mesmo.

Um cordão de isolamento de policiais nos separava de subir a rampa e ganhar o Congresso, que era algo que todo mundo queria. Ficamos um bom tempo parados no gramado do congresso quando começaram gritos pra ganhar a rua novamente, e foi quando pensei “Vamos pros 3 Poderes”. O pessoal começou a subir o gramado pra pista, mas de repente, um grupo vira e começa a correr pra ganhar a lateral do congresso e subir pela marquise (onde ficam as “conchas”), em vez da rampa. Começamos a correr pra juntar com eles e ganhamos acesso. Tinha um batalhão de Choque lá em cima, e eu pensei “se der problema, gente despenca daqui e morre” e terminei de pensar nisso, deu problema, e o pessoal voltou correndo. Tentamos conter o pessoal pra não terminar em tragédia, mas o Choque recuou e voltamos pra marquise, e foi quando a invasão realmente aconteceu.

Aha-Uhu, o congresso é NOSSO!

Aha-Uhu, o congresso é NOSSO!

Chegamos lá em cima, todos juntos, nos abraçando, felizes de uma felicidade que só quem esteve lá entende. Eu estudei em escola de padres, e cantar o hino pra mim sempre foi obrigação, aquela coisa chata ou que a gente faz em estádio bêbado vendo jogo… mas o Hino que cantamos debaixo das conchas, abraçados, foi de um simbologia ímpar, como se naquele momento eu tivesse acabado de ganhar efetivamente minha cidadania das mãos daqueles que estavam ali, junto comigo. Hoje, pela primeira vez, eu me senti realmente brasileiro, filho desse brasil que eu sempre sonhei.

Ficamos lá, e aí a PM recuou e o pessoal conseguiu furar o bloqueio em baixo e ganharam a rampa. Até esse momento éramos dois grupos: os de cima, da marquise, e os de baixo, no gramado ainda. Ficamos assim um bom tempo, trocando gritos de incentivo, até que liberaram o acesso de todos. O pessoal de baixo ganhou a rampa e se uniram a nós. Foi quando rolou a primeira Assembléia pra decidir rumos da manifestação e do movimento. Ficou marcado para esta quinta uma nova manifestação para se decidir mais coisas.

Momento que os manifestantes fizeram a Assembléia Popular em cima do Congresso, pra marcar reunião do movimento para decidir as próximas ações.

Momento que os manifestantes fizeram a Assembléia Popular em cima do Congresso, pra marcar reunião do movimento para decidir as próximas ações.

Bem, quando o pessoal ganhou a rampa eu fui andando até chegar nela, que eu TINHA que chegar na rampa. Por que? Explico: minha primeira memória política que eu tenho é de quando eu tinha 5 anos de idade, na frente da TV da minha casa, assistindo ao vivo o pessoal ganhando a rampa do congresso com a bandeira do brasil enorme, na campanha das “Diretas Já”. Eu não lembro de quase nada da minha infância, mas lembro disso, lembro de pedir pra minha mãe explicar o que eram “Diretas Já” e ela me explicando. Eu lembro da imagem de um jovem chorando de emoção de estar ali. Essa imagem sempre me perseguiu, eu sempre lembro dela… e vocês imaginam o que foi pra mim estar ali, junto com aquele povo todo, repetindo 1984: desta vez eu era o jovem chorando, junto com outros jovens chorando e se abraçando, gente que acredita que um outro país é possível.

A manifestação seguiu até tarde da noite, com o pessoal gritando palavras de ordem. Estouraram mais umas 2 bombas de gás contra o pessoal que tentava entrar por baixo no congresso (pra invadir de fato, acredito eu) mas no geral seguiram todos tranquilos, cantando, gritando palavras de ordem e reescrevendo a história do país.

Somos todos brasileiros, e, mais do que nunca, temos MUITO orgulho disso.

Somos todos brasileiros, e, mais do que nunca, temos MUITO orgulho disso.

A Falácia do “O problema é que eles não tem plataforma, estão desorganizados”.

Pra concluir quero só deixar uma análise breve do que tenho presenciado até então dos movimentos como um todo. Há um discurso que até os próprios manifestantes estão comprando da “falta de organização” do movimento, da “confusão das demandas”. Isso não é verdade, e temos que tomar cuidado que isso inclusive serve muito bem àqueles que estamos tentando tirar do poder.

Existe uma plataforma de mudança sim, só que ela é ampla e abarca toda a nossa cultura política. Que não é mais sobre 0.20 centavos todo mundo já percebeu, mas estamos falando aqui é cultural: o que temos é uma ordem nova querendo se impor sobre a antiga. Sendo curto e barbudo: revolução. Não acredito que seja possível uma outra leitura, estamos falando de derrubar o que tem aí (seja como for) e colocar algo novo e realmente democrático no lugar. Os gritos contra as bandeiras de partidos políticos é o maior exemplo disso: todos os partidos estão, de alguma forma, vinculados à “velha” ordem, e nenhum deles está pronto para absorver a dinâmica desses novos movimentos sociais. E já que estamos falando em movimentos sociais, os próprios teóricos dos tema colocam que uma das marcas dos movimentos atuais é a presença de “demandas genéricas” tratando geralmente de direitos difusos, como é a questão dos direitos LGBT, meio-ambiente, etc. Então, os jovens que estão nas ruas estão JUSTAMENTE confirmando as teorias e estabelecendo um novo jeito de demandar.

A falta de liderança é para que todos decidam de maneira coletiva. Então não é uma “falta” per se, mas uma estratégia racionalmente adotada, e que tem funcionado muito bem, basta ver o sucesso das manifestações em todo o país. O que acontece é que os atores ainda presos a uma velha forma de fazer política estão tentando, DE TODAS AS MANEIRAS, cooptar, ou mesmo só entender, o movimento. Vão conseguir? Não mesmo, podem ter a mais pura certeza disso. Se se formar um grupo de “líderes” e eles saírem da linha um pouco que seja, são logo desconstituídos, porque ninguém goza de uma legitimidade a toda prova. O medo e o recuo que estamos vendo na velha mídia e na sociedade política é porque eles estão intuindo e sentindo essa nova forma de fazer política chegando, e sabem que seus dias estão contados. Essa mudança, em grande escala, não tem outro nome: É REVOLUÇÃO. Basta ligar a TV, ver o tanto de gente, ver o tanto de DESCONTENTAMENTO junto que dá pra sentir que não é algo, mas TUDO que está MUITO errado.

Esses movimentos vão seguir até que mudanças concretas apareçam. Não quero fazer profecia, mas o que vi e senti na rua é que chegaram todos para ficar. Se o governo não acompanhar as mudanças, os confrontos vão se endurecer e vamos ter governos sendo derrubados. A juventude quer isso, os movimentos querem isso, e mais, o POVO INTEIRO quer isso: quer ver o fim da corrupção, dos políticos e seus salários absurdos. Querem educação de qualidade, professores bem remunerados. Querem saúde, com médicos valorizados. Querem transporte público acessível, senão gratuito, para todos. Querem infra-estruturas. Tudo isso eles querem… e no lugar disso, receberam o que? Estádios, que não são pra eles, mas para as empreiteiras e os deputados e políticos corruptos desviarem dinheiro.

E aí, dito isso, dito o que esse povo que está nas ruas quer, eu te pergunto: temos ou não uma plataforma, estamos ou não organizados, lutando por um país melhor? Só não enxerga isso quem não quer.

Pra finalizar, quero fazer um agradecimento pessoal: a todos QUE FORAM LÁ, que esteve lá contribuindo para a atmosfera maravilhosa de desejo de mudança e muito amor. Eu me orgulho e MUITO de todos vocês, VOCÊS devolveram pra mim a crença que um outro país é possível, e espero retribuir um dia a todos pela chance sensacional que me proporcionaram e pelos sentimentos que experimentei.

Beijos a todos e todas. Nos vemos na próxima!!!

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