Dois Causos: Maxixe & Direito na Velha República.

Posted on janeiro 19, 2011

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“Corta-jaca”, ou o “Maxixe de Milady”.

Em sua casa de campo, a grande autora (influência dos grandes musicos decadentistas modernos, como “É o Tchan” e “Aviões do Forró”) recebeu a equipe de nosso blog, onde posou para fotos nas vestes que foram copiadas pela grande atriz americana, estrela de “O Pecado Mora ao Lado”.

A menos de vinte dias de terminar o governo, aconteceu um fato pitoresco no Palácio do Catete. Ouvindo Catulo da Paixão Cearense reclamar junto ao presidente de que a música popular nunca fora tocada no palácio, a primeira-dama, Nair de Teffé resolveu inovar. A conselho de seu professor Emílio Pereira, incluiu um número nacional no pequeno recital que apresentou aos seus confidados da noite de 26 de setembro. Depois de dedilhar a “Rapsódia” de Liszt ao piano, e cantar “Le chant du gondolier” acompanhada pelo maestro Ernani Figueiredo, ela tocou ao violão o tanguinho “Gaúcho”, da veneranda compositora Chiquinha Gonzaga (então com 75 anos), sendo muito aplaudida.

Acontece que “Gaúcho”, além de o título sugerir uma homenagem a Pinheiro Machado, nada mais era do que a versão instrumental do supostamente lascivo “Corta-jaca”, lançado vinte anos antes pela estrelíssima Pepa Ruiz na Revista Zizinha Maxixe, e posteriormente gravada pela banda do Corpo de Bombeiros. A rigor, podia ser considerado um maxixe, ritmo então insistentemente atacado como indecente pela Igreja Católica. Dirigido por Viriato Correia, A Rua, novo verspertino saído de uma dissidência de A Noite, botou o assunto em manchete.

Já no dia seguinte, Rui Barbosa fazia um discurso no Senado, condenando que,

diante da mais fina sociedade do Rio de Janeiro, aqueles que deviam dar ao país o exemplo das maneiras mais distintas e dos costumes mais reservados elevaram o corta-jaca à altura de uma instituição social. Mas o corta-jaca de que eu ouvira falar há muito tempo, que vem a ser ele, sr. presidente? A mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba. Mas nas recepções presidenciais o corta-jaca é executado com todas as honras da música de Wagner, e não se quer que a consciência deste país se revolte, que as nossas faces não enrubesçam, que a mocidade se ria.

Assim foi-se Hermes da Fonseca, perna fina e bunda seca, tido como burro e azarento, rei da urububaca, tantas vezes ironizado em charges e revistas do ano. Seu quadriêncio, lembremos, começou com um Tannhäuser interrompida pelos canhões de João Cândido e terminou assim, em ritmo de chanchada, condenado por um dos seus únicos atos de simpatia. Não deixou saudades, mas um grande anedotário.

Os Autores de Direito e o Direito das Bengalas.


Procurado por nossa redação para prestar esclarecimentos do envolvimento de seu irmão em tamanha balbúrdia, fomos informados, por sua assessoria, que Arthur Bernardes estaria ausente do país, a realizar “uma grande viagem”.

Estes eventos se passam em 1916, durante uma polêmica aberta com a criação da SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais), que tinha como seu presidente João do Rio. Tal sociedade foi criada logo foi aprovada a Lei de Direitos Autorais (3.701/16) que finalmente deu aos autores alguns subsídios para sua luta contra a ação dos empresários/produtores, que se apropriavam das peças, e muitas vezes as alteravam ao seu bel prazer, na busca pelo lucro fácil.

Na soirée de 17 de abril, assim que entrou em cena, o ator (Froés, cupincha do partido dos empresários que vinha difamando João do Rio e a SBAT) recebeu em plena cara uma gargalhada sarcástica de Oduvaldo Vianna, que ocupava um camarote, ao lado de Abadie Farias Rosa, Bezerra de Feitas, outros membro da SBAT e jornalistas. Percebendo do que se tratava, Froés começou um discurso contra João do Rio e Viriato, interrompido com vaias que a claque não conseguiu sufocar, seguidas por saraivada de ovos, tomates e verduras podres. A um gesto do empresário, os empregados da companhia tentaram expulsar os baderneiros, mas tudo degringolou em grossa pancadaria, com a adesão de parte da platéia. Cadeiras voavam. Leopoldo Froés deu uma banana para os espectadores, antes de desaparecer estrategicamente. Uma coadjuvante, aos gritos de “público filho da puta!”, quebrou a sombrinha na cabeça de Vianna. Na platéia estava presente o dr. Olegário, irmão de Arthur Bernardes, o presidente de Minas Gerais. Indignado, chamou a polícia, que invadiu o teatro, suspendendo a peça e prendendo os beligerantes. Levados para a 5ª delegacia, foram soltos pela estratégica interferência de João do Rio, que, avisado, ligou pessoalmente para o chefe de polícia, o jornalista e literato baiano Aurelino Leal. Detido em mangas de camisa quando jantava na Praça Tiradentes, Froés mandou devolver o dinheiro dos ingressos.

Não saberemos nunca o que as partes confabularam sob a mediação do delegado Albuquerque Mello, mas a verdade é que pararam as gracinhas nos anúncios (contra João do Rio e a SBAT), e, aos poucos, os empresários passaram a reconhecer os direitos autorais e a tabela da SBAT.

(Extraídos de: João Carlos Rodrigues – João do Rio).

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