O João, o Paulo e o Mário do Rio: a invenção do nosso-moderno.

Posted on janeiro 12, 2011

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O caricaturista do Rio e do Brasil.

Li recentemente um artigo sobre o namoro não assumido entre a Etnologia e a Ficção, e lembrando dos trabalhos do João do Rio, fiquei a pensar que na verdade, toda a ciência, e mesmo a vida, não escapa de algum invencionismo: ninguém menos que Weber disse que “o exagero é a minha profissão”, e na vida é normal ao contador de conto aumentar um ponto. João do Rio foi nosso primeiro etnólogo, e como primeiro tinha o direito de dar o rumo das coisas. Fez isso ao juntar relato com ficção, observação com omissão, investigação com necessidade de ganhar seu pão. Com isso, talvez, foi o mais humano de nossos cientistas sociais. Ele mesmo era uma invenção, um psedônimo (nasceu Paulo Barreto), uma mentira bem contada, com várias caras, travesti: gay, homem, jornalista, literato, ninguém sabe ao certo. Assim nasceu nossa etnologia: no relato de alguém versado na arte da dissimulação. Assim também nasceria o Brasil-Moderno.

João do Rio foi singular, não só pela figura que era, pelos ódios e amores que despertou, mas principalmente pela denúncia e mesmo o (auto)retrato que pintou da sociedade brasileira aos tempos do surgimento dessas correntes, entre elas, o Modernismo. Um Rio de Janeiro que queria ser a Paris usando Lisboa como referência: O Rio do “bota-abaixo” de Rodrigo Alves, da sua primeira Avenida, do Teatro Municipal que Arthur Azevedo lutou por 10 anos para ver em pé, do nacionalismo estético exacerbado de Coelho Neto. Esse Rio era um Rio inventado, criado, circunscrito, delimitado em espaço reduzido, porque só assim ele podia existir. Era o “Rio do Centro”, que funcionava como pequena vitrine da ansiedade de uma elite desinformada, para não dizer burra, que queria fazer das ruas um teatro de aparências daquilo que não eram, e nunca iam ser: europeus.

O Rio de Janeiro, ou Paris, ou Lisboa, ou.

Esse era o Rio-ficção. O Rio-mais além, bem sabemos, assim com hoje, era uma cidade com contornos muito mais amplos. Era um Rio pobre, miserável, trôpego. Era mulato, judeu e cheirava à fumaça de ópio: desde começos, a cidade conviveu com a exclusão e as drogas. Essa cidade “real”, ela mesma, apesar de se impor como presença, era por sua vez travestida para poder parecer suportável: o carnaval, mais que um espetáculo, surge como exorcismo catártico e coletivo, como se a cidade inteira se sentasse no divã, e a folia confirmasse o sorriso irônico de algum pai da psicanálise.

– Não sinhõ, o sinhõ tá nos confundinu. Nós samos a big-band do Sinatra, e estamos aqui fora por conta do calor que tá fazenu no Municipal.

A Exposição Nacional de 1908 foi para o Rio de Janeiro a primeira tentativa pedagógica de aproximar as elites ignorantes da cidade com a “experiência-Brasil”. Idealizada por Afonso Pena, consistia numa exposição à moda do que conhecemos hoje em dia como “Feira dos Estados”: uma verdadeira cidade foi erguida na Praia Vermelha (Urca), onde cada estado da federação teve direito a um pavilhão. Pela primeira vez aos cidadão da Capital Nacional foi oferecida a oportunidade de sair um pouquinho da champs-elysée imaginária de cada dia e colocar o pé no terreiro: apresentações folclóricas, comidas típicas, e até mesmo uma banda de índios bororós (ensaiados por um padre salesiano) teve vez. Apesar de ter sido recebida com desconfiança pelos ditos-ricos e pela gente da imprensa, contou com o entusiasmo de João do Rio, que usando da sua pena, fez sua exegese, não sem – claro!- perder a chance de mandar um recado para quem falava francês:

– Mas então, Minas não tem porto de mar?

– Infelizmente, minha senhora. Apesar do Brasil ter as costas largas, Minas é um dos quatro estados centrais, sem porto de mar.

– Quatro, só?

– Infelizmente, quatro só. Apesar do Brasil ter muitos estados, os outros não aderiram no movimento de horror ao oceano.

Exposição de 1908. Foto aérea tirada pelos Irmãos Wright.

Todavia, apesar da contribuição visível da Exposição para o alargamento dos horizontes daqueles que pensavam e daqueles que não pensavam em “Brasil” em pleno século XX, não devemos tomá-la apressadamente como causa, e sim como sintoma. O ambiente saturado dos modismos europeus, as mudanças na sociedade carioca, entre outros fatores, tornaram a atmosfera favorável para a busca do novo: o spleen burguês chegava ao Brasil, e com ele, chegava também o remédio que a Europa já vinha experimentando há algum tempo, a dizer, o “culto do exótico”. Artistas brasileiros, e americanos no geral, já faziam vida em Paris, se apresentando. Geraldo, seresteiro brasileiro, cantava e dançava no ponto chiq da cidade, o Abbaye d’Albert, o seu maxixe “Vem cá mulata”. Então, assim como Paris, O Rio de Janeiro, por meio da Exposição, vai aprender também a importar do Brasil novos divertimentos, e durante os três meses que funcionou a sua principal contribuição foi suar o pó de arroz dos rostos bem cuidados dos brancos de mentirinha, ao colocar toda a gente para sambar os novos ritmos.

A miscigenação, o tupi or not tupi, o verde-amerelo, tudo isso chega paulatinamente, e vem ao som da banda. O espetáculo dessa nova descoberta do Brasil é… um espetáculo! O Brasil vai se descobrindo na rua, vai se beijando nas esquinas no dia de folia, no decandentismo expontâneo que solapavam velhas práticas, no risinho abafado das novas casacas, nas volúpias de um liberalismo crescente, que por fim se transformaram em nossa distinção cultural: sem as hipocrisias do velho-mundo presas aos calcanhares -por ter ele caído de moda-, o brasileiro acabou se assumindo no discurso fácil do calor sensual dos trópicos e das curvas das morenas e morenos.

O encontro das etnias sob a supervisão do Estado brasileiro se repete até hoje em dia, ainda em fevereiro.

Essa é a herança que os modernos de 22 assumiram. São eles agora que tentam dar um tom estético e mesmo artístico a essa confusão de cores recém-descobertas. Entretanto, muitos deles faziam isso como tantos outros: como brincantes. Aquele que realmente viu nesse fenômeno a eclosão do Brasil foi Mário de Andrade: Ele, que se recusava viajar para Europa por dizer que muito tinha que conhecer de seu país; Ele, que lidou com a política enquanto cultura e a cultura enquanto política; Ele, que estudou e realmente divulgou em tons atuais esse Brasil, buscando não ordenar fatos, mas contar o caos que aparecia entre causos e rodas de violão. O resto deles, penso eu, surfaram a onda usando a educação refinada e o dandismo sofrido de casaca em verão, herdado de seus antecessores.

– en garde, Riô

Por isso, tenho para mim que o Modernismo de 22 é dissociado de seu ambiente histórico e mesmo físico (esquece-se o Rio, fala-se das escadarias de São Paulo) como forma de se apropriar de um discurso e colocar cabresto em cavalo doido. O modernismo, tal como foi vivido pelo país, foi o encontrado inusitado de rio com mar (literalmente!), da cidade com um país, não algo pensado por senhores bonitos e damas esguias que gostavam da sensação sans-coupé do conversível do Oswald. Tanto isso é verdade, que mesmo João do Rio, tão defensor da Exposição, disse mais cedo, ao falar da intelligentsia com a qual andava a braços, que

“Éramos talvez uns 10 traquinas com idéias de elegância, estudando a maneira fashion de andar, o tom up-to-date de cumprimentar, com o interesse que nos atirávamos às capaz amarelas das brochuras francesas. A nossa opinião sobre o Brasil fizera-se definitiva: tínhamos decretado que não existia (…). Nós éramos estrangeiros”.

O “desterro” sempre foi marca dos nossos escolados, que mesmo quando “antropofágicos”, o são numa tentativa de tentar acalmar as neuroses e tique-nervosos que atacam a mão que escreve, quando ao tratar com o que vem de fora.

– O Sra. pode por favor não me chamar de Joaquim na frente das crianças?

Por isso, o Modernismo marca o momento que o Brasil se vicia no Brasil, que começamos a usar e abusar de nossas próprias drogas, de nos contaminarmos de doenças da terra, e de passarmos uns pros outros, em formas de comichões sexuais e passeios demorados pelas cozinhas. Veio de encontros culturais que se posicionavam acima, e mesmo alheios às vontades dos cérebros. Mário de Andrade foi inteligente, mais que isso, foi malandro, e se tornou um catalogador, um mero escrivão do que assistia, e não um teimoso criador de manifestos que tentavam dar o tom da próxima nota.

Aos eternos profetas do atraso, fica claro que o Brasil só realmente começa a aparecer enquanto experiência moderna. Para os fãs dos inteligentes, fica a frustração disso ter acontecido entre o tambor e o rebolar da tua parenta, em dia de feriado. Feliz, ou infelizmente, pensar demais parece não ser coisa que combina com o verão.

Antes do photoshop, existiu o mulato.

Agora licença, que o calor é muito e preciso fazer minha toilette.

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