As Idéias enquanto Sistema: Cetro, Cajado e Competição

Posted on maio 12, 2010

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Na foto, três intelectuais da velha guarda atenienses (da esquerda pra direita): Raymond Aron, Olavo de Carvalho e Chicó.

Fazer sociologia do conhecimento é, em primeira mão, apontar para os elementos sociais na construção do saber. É lembrar que além de toda biografia, do gênio, reside o meio social com suas demandas, na figura de uma época e/ou lugar. Todavia, em verdade, o campo mais nebuloso das ciências sociais, como um todo, é o que trata das estruturas do ato cognitivo. Basta lembrar que o próprio nascimento da sociologia se deu não apenas como a busca dos pais e mães da disciplina em colocá-la como forma válida de entender o real (a sociologia enquanto ciência): sua vinda ao mundo se deu em um momento que havia um questionamento maior do conhecimento em si, sua dinâmica, seus atores, e até mesmo sua legitimidade. Esperava-se, como se espera, que as ciências sociais contribuíssem, ao setorizar as dinâmicas socias do conhecimento, para uma maior qualidade na resposta à crítica romântica ao ideais do saber científico.

Há quem diga que “as idéias sempre têm sua própria trajetória”, como que se por trás da história do acúmulo de saber existisse uma espécie de mão invisível smithiana, a guiar os rumos, os cérebros, as escolhas. Não duvido da força de um gênio criador: uma das lições do pós-modernismo é lembrar para o caráter “relativamente” autônomo de algumas idéias, que ao virem ao mundo, se tornam entidades únicas, até mesmo subversivas em relação ao seu criador ou criadores. Todavia, há de se lembrar para o perigo do radicalismo do relativismo-redutor, que busca emancipar sem explicar devidamente outros mecanismo que possuem também, por sua vez, poder de voz na criação e irradiação da idéia.

- relativize-me, ou te devoro, tesudinho!

Antonio Cândido é famoso pela sua tese, na qual coloca a literatura enquanto sistema: autor, obra, público e meio estão todos juntos e todos tem algo a dizer. Acho que a afirmação é válida também se ampliarmos para a produção das idéias como um todo: conhecer enquanto sistema.

A idéia aqui seria mostrar um pouco da construção histórica da percepção social da importância do conhecimento. Nem sempre “saber” foi visto como fonte de poder, pois para isso a própria idéia de “poder” teve de ser trabalhada, alicerçada e ampliada para que incluísse aqueles que dedicavam uma parcela maior do seu tempo em uma investigação da realidade. Por trás do conhecimento existe o todo um “campo”, como mostrou Bourdieu, com seu habitus próprio e seus atores, que historicamente vêm se movimentando, em estratégias de consolidar e mesmo aumentar o escopo do seu lugar social.

O Pensamento Social nos Impérios Agrários e a Democracia Grega: cetro, cajado e competição.

Detalhe da famosa obra de Rafael Sanzio "A Escola de Atenas": Platão (esq) aponta o céu, como que a dizer os rumos que a filosofia da política econômica do país devem tomar. Aristóteles (dir), aponta a terra, como que a pedir calma e benção a satanás, seu paizinho.

Inicialmente, o conhecimento em si mesmo não era considerado algo que tivesse valor. Os rudimentos do que hoje conhecemos por astronomia, engenharia, matemática, etc, estavam intimamente ligados a atividades práticas ou religiosas, que ditavam as aplicações e rumos do desenvolvimento desse conhecimento. A dicotomia “serve / não serve” era predominante, assim como a do “puro/impuro”, na lógica do tabu, direcionava e restringia até onde o saber poderia ir.

Para que um conhecimento social se desenvolva e vá além dos limites do saber tradicional transmitido, duas coisas precisam acontecer. Primeiro, as sociedades precisam crescer em racionalização (ou desencantar-se, como diria Weber). O aspecto savoir-faire do conhecimento tradicional precisa ser mais enfatizado: modos de fazer antigos e comprovademente eficazes são assimilados aos códices sagrados. A religião, desde os seus primórdios, surge não apenas como elemento regulador da relação sagrado/profano, mas também como fonte do conjunto de saberes de um determinado povo. Com o tempo, e com a concerrência de outros conhecimentos, a religião pôde se “especializar” melhor em seu campo de atuação, todavia, essa relação entre saber prático (ecônomico) e religião não perdeu sua força: para isso basta lembrar, com Weber, da importância do protestantismo para o capitalismo, e do capitalismo para o protestantismo. Ambos só vingaram porque puderam se apoiar um no outro.

- "t-t-t-t-t-t-time is moooooney!". Palavra do Senhor.

Todavia, pode-se repetir uma prática sem se ter noção, ou mesmo sem se importar com os princípios que regem essa prática (a fábrica moderna é exemplo disso, ensinou Marx). Por isso, uma segunda condição para o desenvolvimento do conhecimento é a emergência de um grupo de especialistas intelectuais com capacidade e permissão para criar sua própria comunidade, com fins a buscar o conhecimento em si mesmo. Tiveram seu surgimento durante os Impérios Agrários, pois somente neles o clero pôde se descolar do resto da sociedade e se organizar como grupo autônomo – organizador dos ritos e tidos como os únicos capazes de interpretar e produzir símbolos. A antiga figura do xamã seria a partir de então dividida entre outros membros, também eles agora com poder de fala sobre o sagrado, formando assim uma classe de especialistas.

Com a formação desse grupo (clero), a etapa seguinte é criar uma pedagogia da aceitação, que possibilitasse a legitimação do status quo. Política, religião e educação tiveram que ser articuladas de forma a possibilitar a criação e a manutenção dessa comunidade de intelectuais, que descolados das atividades práticas, podiam gozar de um ócio aristotélico e direcionar suas atividades para alguma investigação. Naturalmente esse conhecimento vinha desde o início a serviço da ideologia: o saber como afirmação, nunca como negação. Negar era o primeiro e o maior dos atos de heresia, arma revolucionária por excelência. Mas colocando-se à parte esses momentos de exceção histórica, visto que essas comunidades de especialistas eram patrocinadas pelo Estado, o ato de conhecer era antes de tudo um ato de subserviência ao cetro, ou ao cajado: pesquisava-se o que era conveniente.

- AHAHAHAHHAHAHA, ENTÃO... ALGUÉM SABE A DIFERENÇA ENTRE O MICHAEL JACKSON E UM PADRE CATÓLICO? AHAHAHAHAHAH

Entretanto, mudanças no campo político permitiriam algum avanço no conhecimento social. O modelo de democracia grega foi importante ao mexer nas estruturas e na forma que o conhecimento se relacionava com o poder, que por sua vez acabaram por contribuir para transformações nos métodos de acúmulo social do conhecimento.

A Grécia é tida como o modelo maior da nossa civilização ocidental, e claro, da democracia. Louvamos a filosofia grega, mas pouco é questionado sobre quais elementos da sociedade grega que permitiram a emergência, e mesmo a revolução filosófica que acontecia em suas ágoras e mercados. Normalmente se acentua o gênio dos pré e pós socráticos, e do homem que marcou foi o marco para essa transformação profunda no saber ocidental.

Todavia, mais do que fruto da vontade humana, os novos rumos nasceram do conjunto, da reunião daquilo que chamamos de “modo de ser” de um determinado povo, ou seja, a cultura. A configuração grega das cidades-estado criou uma autonomia e liberdade para que os cidadãos vivessem suas particularidades culturais, mas,  principalmente, tirava dos gregos a força moldadora que um regime de centralidade política poderia criar. Cada cidade se governava quando em paz, e quando em guerra, as alianças surgiam. A figura do tirano podia ser eleita ou convocada em tempos de crise social, mas nos tempos de calmaria, as cidades-estado eram uma arena de disputa entre os partidos políticos. O regime democrático permitia aos “cidadãos-iguais” lutarem por cargos, e a principal ferramenta nessa disputa era a oratória: ganhava quem também sabia falar bem.

Uma moderna aula de retórica grega, ou o "velho e bom método de fixar uma idéia na cabeça de neguinho".

É esse o motivo da crítica que vemos na obra de Sócrates / Platão aos sofistas: eram eles os responsáveis por treinar os jovens e velhos políticos para a arena política. Mas esse descontentamento do grupo dos filósofos contra os sofistas, também tem um aspecto político: mais do que um certo idealismo e uma visão purista do que venha a ser conhecimento, essa crítica  podia ser também um certo ciúme de grupo visto como marginal: Sócrates tomou a cicuta, Platão exilou-se.

O certo é que essa competição entre os partidos criou um ambiente de incentivo à criatividade e a configuração do panorama político permitia a esses indivíduos uma certa autonomia, já que os senhores do momento vinham e iam. Independente do lado, a disputa era generalizada: filósofos versus filósofos versus sofistas versus outros sofistas, todos buscando preponderância. A democracia, ao incentivar a competição, forneceu a arena para que os saberes fossem disputados. Em vez de um grupo de especialistas defendendo um determinado saber que respondia à manutenção de um determinado saber tradicional, no caso grego (claro, com suas ressalvas) emerge o “pluralismo de verdades” dos grupos politicamente conflitantes: cada cabeça, uma sentença.

- Fui!

É nesse momento que nasce a ciência social grega, que em verdade surge como uma ciência da história: antigos generais gregos escrevem tratados de “história séria”, onde os feitos da nação são lembrados. Se Homero foi responsável, nos dizeres de Adorno, por unir as narrativas e os mitos gregos, Tucídides e Heródoto uniram o povo grego em uma só história. Isso só foi possível porque a busca pela retórica demagógica acabou por incentivar um maior cuidado com a investigação dos valores gregos, que por seguinte, levaram a uma investigação das bases históricas desses mesmos valores.

Com a ciência histórica, os gregos iniciam o importante movimento de documentar a atividade humana. Logicamente isso criou as bases para que as investigações feitas ganhassem em capacidade discursiva. O conhecimento social se alicerçava em um solo mais firme, já que paulatinamente ia se percebendo e construindo novos aspectos das identidades coletivas, que por sua vez demandavam saberes mais específicos, respeitando os ditames das culturas das quais emergiam.

NOTA: As opiniões desta tirinha não refletem o pensamento dos dirigentes da "Democracia INC LTDA PELOSINTERESSESECONÔMICOS & CIA", e são de responsabilidade dos seus criadores.

(Continua: “O Sistema das Idéias no medievo e renascença”)

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