ZTCT2009: The Trip Back.

Posted on janeiro 6, 2010

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Iannes, Eu, Nathan e o dono do "God's Temple", o restaurante que comíamos todos os dias em Atenas. Iannes foi nosso guia turístico, conselheiro e embebedador oficial. Entre várias de suas pérolas, disse para Nathan que Cricket era um "lesbian's sport", e que duas coisas não se comiam com garfo e faca: "seafood and women". Esteve no Brasil, trabalhando em um navio de cruzeiro turístico, e sentia saudades das damas da noite de Fortaleza. Atrás de nós está o Museu Arqueológico de Atenas.

Hoje, dia 6 de Janeiro, há exato um ano atrás eu chegava em Londres vindo de Garulhos, São Paulo, depois de mais de 14 hrs cruzando o oceano, trazendo na bagagem um monte de planos e vontades, além da imensa curiosidade. E por ser essa data tão significativa que eu escolhi ela para fazer o encerramento dos relatos da viagem. Comecei ela em Londres, terminei em Lisboa, e no meio existem miletantos outros lugares que fui, visitei, passei. Aqui no blog eu relatei o que vi e vivi nesse período. Um ano… eu me peguei pensando quanto coisa aconteceu. Eu ainda me considero em viagem, porque desde que cheguei mal deu um mês já tava na estrada de novo com meus pais, vindo pro Maranhão. Quando voltar pra Brasília vou com eles para São Paulo, e só devo aquietar em começo de fevereiro mesmo. Ainda sinto que estou em trânsito, só que em terras ao oeste de Tordesilhas.

Hoje eu quero deixar o depoimento, contar como foi voltar, e encerrar. Depois farei um post com conclusões, com o vídeo do depoimento que prometi fazer ao fim da viagem, além de algumas fotos e comentários finais. Após isso encerro a ZTCT2009 e este blog volta à sua função original, de exercício sociológico.

Bem, como já é de conhecimento geral, a Zooropa Tour: The Car Trip 2009 acabou oficialmente em 14 de Novembro de 2009, quando às 10:30 da manhã eu embarquei no vôo 3571 da TAP direto para Brasília, Distrito Federal, Brasil-Terra-de-Deus. Às 16:30 (hora de Brasília) eu aterrisava, trazendo na bagagem aquilo que Belchior cantou, Caetano musicou e Chico poetou: saudades, muitas.

Contarei agora como foi essa volta, como foi sair lá de Tessalônica no norte da Grécia e vir parar em Lisboa. Foi um período um tanto frenético e rápido, onde muita coisa aconteceu em pouco tempo. Mudanças de planos absurdas, descobertas e eventos que quando eu repasso mentalmente trazendo eles de volta à vida dos arquivos da memória, fico com aquela sensação de estranhamento, como se tivesse visto tudo em um filme que o ator principal era eu mesmo.

Eu fiquei exatos 27 dias em Atenas e só fui embora porque tive que. Estava tão triste de deixar a capital da Hélade, centro de tudo para mim, que fui embora numa manhã de inopino: simplesmente fiz as malas, dei check-out e me mandei. Sim, se fosse me despedir do Iannes e do pessoal do God’s Temple, o restaurante que comi todos os dias praticamente, se fosse dar uma última subida pela acrópolis para deixar uma oferenda à Deusa, eu teria ficado. Foi doloroso mesmo lembrar que ia acordar e não mais ver o Parthenon encarando-me com aquele jeito de coisa ancestral em cima da pedra. Que não ia mais tomar uma boa Mythos nem ouvir o som dos cantantes dos bares atenienses, com seus narizes aduncos e sorrisos calorosos. Foi uma experiência de quase-morte abandonar toda a alegria que a Grécia me devolveu. Foi de longe o melhor lugar que visitei na vida, mais lindo, com o povo mais amistoso, com a comida mais gostosa, com a cerveja boa, com o vinho melhor ainda, com o azeite divinal, com a gente na rua rindo e me saudando quando descobriam que eu era brasileiro, amante de futebol como eles.

Entrei no carro e fui. Peguei a auto-estrada rumo a Tessaloniki, a segunda maior cidade grega, espécie de capital da fronteira com o mundo de cima, do norte.

Tessalônica é uma cidade bizantina, meio-mundo entre ocidente e oriente, e fascinante por isso. Lá eu pude entender como é isso de estar bem ali com os Turcos na porta. O norte da Grécia é o máximo daquilo que se convencionou entender por “experiência grega”: é um lugar de indefinição. A atendente do meu hotel falou-me do problema com os macedônios porque eles não se consideram gregos, e os gregos acham que Alexandre o Grande talvez fosse do norte da Grécia, já que Felipe II, seu pai, está lá enterrado. A cultura turca e média-oriental é forte, na música, na comida, nos jeitos. Enfim, o norte é um resumo atualizado da mania grega de se misturar. E fizeram isso com tanta eficiência que o mundo é ocidental hoje em dia porque um outro dia foi grego.

Bem, eu fiquei alguns dias em Tessalônica, gostei do que vi, mas na verdade a cidade era meio caminho pro que viria a ser uma outra etapa da viagem: a volta. A idéia seria eu voltar pelo leste europeu, subindo pela Macedônia, cortando a Sérvia e indo até a Hungria. De lá para a Austria, depois República Tcheca. E aí eu ia subir para a Alemanha, depois descia pelo caminho usual França, Espanha, e Portugal.

Essa era a idéia, mas como eu fiz essa viagem toda sem grandes planos, apenas pegava o carro, mirava e ia, eu não estranhei quando as coisas mudaram de rumo.

A confusão começou na fronteira da Grécia: o cara olhou para a placa do meu carro, que tinha o mês e o ano que foi comprado, e achou que minha licença estava vencida. Não estava, e isso me fez voltar até Tessalônica e ir até o aeroporto e procurar o pessoal da locadora do carro, além de ligações para Portugal. Voltei pra cidade, dormi lá e no outro dia fui de novo pra fronteira. Acabei resolvendo as coisas como se resolvem no Brasil: um outro guarda me atendeu, não prestou atenção em nada e me liberou.

Já no lado Macedônico começou o estranhamento: que deabos um BRASILEIRO está fazendo aqui DE CARRO e querendo cruzar nosso país? Perguntas, passaporte retido, mais perguntas em inglês ruim. No final, lidei como se lida com as coisas no Brasil: sorri, falei de futebol, sorri mais ainda, fiz cara de tonto e turista feliz, passei.

Cruzei a Macedônia toda, que deve dar uns 260 kms, se não me engano. Vi pobreza, gente simples, agricultores. Nada que lembrasse o que a gente achava existir nos tempos idos de Alexandre. Um povo sofrido em uma terra sofrida. Placas em russo, muitas delas sem tradução. Como tenho russo “funcional”, consegui ler e ter uma idéia de onde estava indo, se estava no caminho. Segui a autoestrada entre montanhas e vales verdes, claro, sentindo aquela sensação de estar pisando um solo cheio de história.

Cheguei na fronteira com a Sérvia, novamente mais perguntas, passaporte que ia e voltava, guardas nada educados que rasgaram a caixa com meus vasos gregos. No final, passei. Cheguei no lado sérvio, encontrei mais inglês ruim, e um estranhamento ainda maior. Para vocês sentirem o cúmulo, o guarda quando viu meu passaporte, ficou tão abismado que chamou TODO MUNDO da alfândega, repito, TODO MUNDO para ver “OLHA, UM PASSAPORTE BRASILEIRO” e depois me falou “eu nunca tinha visto um na minha vida”. Eu me senti estrela, falaram de Roberto Carlos, Ronaldinho, etc. Eu continuava rindo e sorrindo, achando que estava tudo bem…

Mas não estava! O cara quando abriu meu passaporte viu que não tinha um visto para entrar no país. E eu pensei “que deabos de visto? pra que?”. Essa foi minha burrice. Eu que gosto tanto de geopolítica esqueci que a Sérvia sequer faz parte da União Européia. Poisé, não é! A Macedônia é, mas a Sérvia não, por conta das guerras e tudo mais. Para entrar lá só com visto. Eu fiz cara de “puta que pariu seu guarda, eu tô indo pra Hungria, mimdeixa, só são 600 kms” mas nada. Conversei com ele e ele me mandou pra Skopjia, capital da Macedônia, e ir atrás da Embaixada da Sérvia lá e pedir um visto. Perguntei o endereço, mas ele mandou o velho e bom “se vira cumpadi”.

Dei meia-volta, entrei na Macedônia de novo. Os guardas que tinham acabado de me receber ficaram me olhando… mas carimbaram e eu entrei de novo. Acelerei o carro e fui no rumo Skopjia, que tinha que sair da autoestrada rumo ao oeste. E aí, fui chegando na cidade, feia por sinal, cinza, esquisita, e comecei a sentir uma sensação estranha em mim. Aliado a isso eu fiquei pensando “cara, como vou achar o deabo dessa embaixada num lugar que fala russo, que só tem placa em russo, céus!”. E aí, foi remoendo isso que entrei em Skopjia. Andei nem alguns kms dentro da cidade, olhando placa em russo quando dei meia volta num viaduto que achei e peguei a autoestrada de novo: naquele momento eu decidi voltar pelo caminho que fiz na vinda. Senti que era o mais certo a fazer, respondendo tanto à razão quanto à sensibilidade. Lembrei do quanto a burocracia russa é horrível, da dificuldade que seria achar essa embaixada, alguém pra conversar em inglês decente comigo, alguém disposto a me dar o visto, pegar o visto, conseguir entrar, etc. Fora isso, eu senti uma sensação estranha só de estar lá perto. Acho que meio que senti os miasmas das guerras e genocídios todos que andaram ocorrendo por lá e isso me deixou um tanto indisposto.

Enfim, sei que quando dei por mim, tava com o carro já cruzando a Macedônia toda. Parei na beira de um rio para fazer um lanche e fiquei naquele momento apreciando o que me restava da terra de Alexandre. Imaginei ele parando com as tropas ali, dando água pros cavalos, coisa que fez provavelmente, por ser um rio grande. Terminei meu lanche, fui rumo à fronteira.

Um sinal que tinha tomado a decisão certa foi que nada mais empatou minha viagem: entrei numa boa de volta na Grécia, e ao final do dia tinha chegado à Iougumenitsa, exatamente 2 horas antes de sair o próximo ferry rumo à Ancona, na Itália. O única parada que tive foi quando descobri que perdi meu cartão de crédito em algum lugar da Macedônia, sendo esse o ÚNICO evento negativo da viagem toda, que foi logo resolvido, porque era um cartão de um banco bom que mandou um novo para mim no meu hotel, já em Nice, na França. Fora isso, fui parado por guardas gregos por estar a mais de 170 km/h numa descida. E aí você pensa “perdeu, playboy” eu te digo que o guarda quando viu meu passaporte e eu disse que estava correndo porque queria ligar pro pessoal do cartão pra cancelar, etc, olhou-me com um sorriso na cara e me lembrou, em inglês razoável, que o bem mais precioso que temos é a nossa vida, e por isso que não corresse por conta de um cartão de crédito. Sim meu amigo e amiga, bem-vindo à Grécia, lar da civilização e onde até os guardas de trânsito tem algo filosoficamente precioso para te dizer, e sem te multar por conta disso.

Pois bem, peguei o ferry, desci em Ancona e tomei a estrada rumo a Venezzia! Sim, segunda vez que ia lá e foi muito bom andar de novo na sempre-romântica, com suas calçadas margeando suas ruas de água. Dormi num hotel muito bom, e descansei porque estava sentindo-me querendo gripar. Esse foi o momento tenso da viagem, porque eu não podia me dar o LUXO de ficar doente viajando sozinho de carro. Comprei uma vitamina C na Grécia, falei pro pessoal do ferry que achava que tava com gripe suína e nego me deixou quieto e só numa cabine. Em Veneza eu aproveitei para descansar mas também fiz alguns passeios no outro dia, e fui logo embora. Tinha passado mais de 4 dias lá da vez passada, conhecia tudo já, fui só ao Rialto, tirei fotos, fiz vídeos e peguei o carro e fui-me rumo à Nice.

Sim, voltei à Nice para rever uma amiga daqui que está morando lá. Já tinha passado na cidade, no começo da viagem, tendo ficado alguns dias e onde tive experiências muito boas e pude curtir o verão na Riviera Francesa. Na volta tudo que eu fiz foi dormir e sair de noite. Eu começava a sentir a EXAUSTÃO dos mais de 2 meses viajando, e queria sossego, e sossego tive. Revi essa amiga querida, saímos bastante lá, tomei minha cerveja, e dormi, dormi e DORMI! Consegui combater o princípio da gripe e fiquei bom, e depois de oito dias lá, despedi-me dela e peguei a estrada de novo. Desta vez, rumo a Barcelona!

Também já conhecia Barcelona da vez passada, e fui pra ver outra amiga, esta que fiz em Lisboa. Fui lá mais porque queria comprar presentes pros meus amigos fanáticos em futebol como eu e também para curtir um tanto a cidade, que é famosa pela noite excelente. Para não dizer que fui em algum lugar histórico, fui de novo no Templo da Sagrada Família, só que à noite e bêbado, ficar olhando pro Gaudi e dizendo “esse cara é realmente sem noção”. O resto foi ir no Camp Nou, fazer algumas fotos, sair e conhecer pessoas novas, discutir “Identidade Espanhola x Identidade Catalã” no bar com os bêbados locais, experiência essa que enriqueceu ainda mais meu projeto de ter uma visão mais próxima do velho mundo.

Depois de quatro dias em Barcelona, acordei tarde e resolvi aprontar as malas e ir embora. Eram mais de 1200 kms até  Lisboa e eu resolvi que ia fazer tudo de uma vez, e fiz. Peguei o carro, mirei na autoestrada e fui. Paradas só para ir no banheiro e colocar gasolina. O resto fui comendo e bebendo no carro mesmo, e depois de 11 hrs de estrada, chegava em Lisboa-a-Velha. Quando cruzei a fronteira da Espanha com Portugal eu senti um calor de “casa mia” no peito. Depois dessa viagem, eu pude descobrir que esse tempo todo morando em Lisboa fez-me um tanto mais português, o que se tornou algo hoje em dia inegável em mim. Aprendi a amar o país-nariz de Cabral. E por isso, quando cruzei a ponte 25 de Abril eu era só sorrisos e alegria. O carro foi quase que automaticamente até à Baixa, onde escolhi um hotel, pois depois dessas mais de 11 hrs viajando tudo que eu queria era dormir e dormir e DORMIR.

Cheguei no dia 6 de Novembro em Lisboa. Comecei a arrumar as malas, empacotar muamba, e no dia 14 embarcava de volta. Fiquei essa semana indo ao Bairro-Alto, despedindo-me de amigos queridos que fiz, do samba, das morenas, brasileiras ou não. Tomei minhas Imperiais, comi meu último bacalhau e o meu polvo a lagareiro. Comprei castanhas nas ruas do outono que abria as portas pro inverno. Usei meu último casaco, deslizei pelos paralelepípedos da Rua Garret em cima dos trilhos do bonde e dei meu adeus ao Fernando, pessoa boníssima. Foi triste ir, foi sim, e só de lembrar aqui dessa última semana lá meu peito meio que se arma em Fado e meu coração chora saudade. Mas quando entrei no avião senti em mim um sentimento de dever cumprido.

As conclusões da viagem deixo para um outro post. Basta dizer agora que pela segunda vez (que aconteceu na primeira também) eu acordei no exato momento que o avião passava por cima de Fortaleza. Vi o mar quebrar na praia do jeitinho que Caymmi disse: bonito. O peito era só alegria. Desci do avião, esquivei da alfândega. Do lado de fora? Minha família amada e uma sobrinha com mais de um ano de idade, que vi nascer e deixei com 2 meses de idade ainda, que acenou pra mim e pulou pro meu colo e me beijou, causando espanto a todos. Em suma: eu tinha voltado. Coloquei as malas no carro, e enquanto meu pai contornava o balão do aeroporto eu via Brasília do chão. Descobri que realmente amo não só meu país, mas a cidade que me educou e me deu a chance de ser quem eu sou. E foi com essa gratidão no peito que fomos todos no carro rindo e conversando até a churrascaria, onde eu ia matar a saudade de me empanturrar da nossa boa comida e comemorar meu aniversário: sim, minha volta foi planejada estrategicamente para ser no dia que completava 31 anos de muita vida.

O post foi longo e imenso, mas assim foi tudo que eu vivi e ainda vou viver, porque essas experiências vão se extender no tempo. Sou grato a tudo que passei, mas sou mais grato ainda por voltar, e muito mais grato ainda de ter encontrado todos vocês aqui na volta, com seus rostos e sorrisos, piadas e brindes para celebrar meu retorno. Foi isso tudo que me fez um atual D. Pedro I, e de todos os meus dias, um Dia do Fico.

Mas essas sentimentalidades e demais constatações-de-coração ficam para o próximo post.

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