ZTCT2009: ΗΕΛΛΑΣ

Posted on novembro 13, 2009

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Templo de Atena, Delfos.

A Grécia é uma dessas senhoras respeitosas que se encontra à caminho da ágora, e que com um desses sorrisos que desculpam tua meninez, dizem-te “kalimera meu filho”. Uma dessas senhoras que sempre têm tempo para os mais novos, e que sempre querem saber como vais na escola, e quando tu timidamente respondes que vai bem tirando a maldita matemática, ela sorri e tira um desses Pitágoras de bolso que toda mãe da civilização ocidental carrega consigo e te entrega para que vás ao rio pescar fórmulas de Báscara.

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Uma ex-sacedortisa grega, e ao fundo, o Templo de Apolo. Delfos.

A Grécia é tudo e não menos que isso. É uma mulher completa à moda dos antigos e novos. Não é amante de ninguém porque não se deita com meninos. É muito bem casada com o papiro, e engana-se que a acha consorte de algum deus, como suas amigas mais ao oeste. Ela é letra de fogo gravada na pedra, é o vento que sopra em Delos ao final da tarde quando tu sentas e olha os antigos caminhos que homens e demais pequenos caminharam tantas vezes à busca de sis mesmos. Em uma palavra: ela é mãe. Minha mãe, tua mãe, mãe dela e dele, e esta experiência que chamamos mundo é o seu jardim de infância. Somos todos filhos do papel e da palavra, amiga do conhecimento, Agia-mãe-Sophia de todos os pequeninos que ainda tropeçam na arrogância de se acharem caminhantes.

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Igreja Bizantina. O nome da cidade é impronunciável em português, por conta do "X" grego, mas é algo como "Ararhova".

Nadei uns três mares para poder ter com ela, e ela me buscou no porto ainda com o espírito ofegante e ansioso, e vendo isso  logo me presenteou com aquela calma de Odisseu que acorda na praia vestido em linho. Sua mão enorme de escrever verdades universais pegou na minha e me colocou no colo como que para contar a História, toda ela. Da praia eu naveguei pra dentro do seu seio, respondendo àquela vontade de útero que me carcomia desde os tempos que pela primeira vez soletrei t-i-r-e-m-e em algum outro lugar que chamava casa por não saber de onde tinha vindo. Deitei minha cabeça e tentei não dormir, mas foi impossível porque até mesmo no ar que sopra dentro dela tem essa melodia de acalmar menino, por mais afoito que seja.

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Templo de Zeus. Atenas.

Passei meus dias reaprendendo o que eu já tinha como certo, o Βετα, Αλφα, BÁ do que decorei em ócio criativo. Fui nos dias de minha folga à Acrópolis e pude novamente conversar com os meninos mais velhos da escola, que calçados ou descalços praticavam desportos de arremessar conhecimento para lá do oceano ou marcavam lutas contra os rapazes das escolas vizinhas. Ao fim do dia, ia até o aeropágo para assistir o pôr-do-sol sobre a ágora e o mercado, mas não me demorava muito por lá: sabia que se chegasse tarde em casa, iria dormir com a orelha quente e a barriga vazia.

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Parthenon, face oeste. O ângulo é famoso, mas ao contrário do que muita gente pensa, a entrada era pelo outro lado, a face leste, menos fotografada porque foi a mais severamente atingida pelos bombardeios venezianos no século XVIII.

Ser hóspede da Grécia fez-me bem para o corpo, mente e espírito. De todos os portos que atraquei, de todas as estradas que caminhei, eu descobri a velha verdade de que não há lugar como a tua casa. E a nossa casa é lá, por mais que tenhamos essas manias de sol nascente. Certo que o multi ou trans culturalismo nos ensina a alargar os horizontes. Mais certo ainda é que hoje perdemos o orgulho de sermos ocidentais. Estamos sempre presos a um criticismo doentio de nosso valores, sem parar para lembrar a imensa contribuição que demos para a experiência-mundo. Foi voltar à Grécia que eu redescobri isso tudo, foi lembrando o que a tanto tempo está lá que me fez de novo arder essa pira no peito. Somos todos filhos da Hélade, do remo e da lira. Temos algo do mármore e Fídias em nós. Somos perfeitos, proporções matemáticas de um universo mais perfeito ainda. O mundo é uma esfera achatadinha, que é para tudo ficar mais perto, e para que pudéssemos colocar em prática a primeira contribuição grega pro mundo: o abraço.

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Santorini.

Depois de conversar com a Deusa-Virgem, consultar o Oráculo de Delfos. Depois de ir até Tessalônica e ver o oriente do cais, passando pelo Olimpo, por Termópilas. Depois de ir às ilhas e ver que até a natureza veste toga e escreve em cirílico, em suma, depois de cruzar de cima a baixo toda a extensão do corpo da mãe do mundo ocidental, eu virei minha biga rumo ao porto. Quando entrei novamente no navio que ia cruzar o Adriático novamente, eu senti um alívio. Sim, alívio por ter conseguido ir embora, porque não queria ir. Tive que fazer valer a alma cigana e deixar mãezinha novamente: acordei um dia de manhã e sem aviso arrumei minhas coisas e fui-me rumo à boca do mar. No caminho pensava dos amigos que deixava, do pôr-do-sol sobre o Parthenon, dos dias a estudar e das noites a tomar vinho com a juventude ateniense nas ágoras modernas. Das conversas que tive, da beleza do que vi, do souvlaki de cordeiro que comia todos os dias. E mais do que tudo isso, eu pensava nela: na Grécia. Pensava na beleza dessa senhora e no carinho que ela me recebeu.

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Santorini. Só um adendo: Santorini é composta de 2 ilhotas e a ilha principal, com algumas vilas. Eu não lembro o nome de todas. Essa foto por exemplo, é de uma das vilas ao sul da ilha principal.

Fui novamente para o deck azul do navio, só que desta vez sem vídeo, sem nada. Só eu e o mar de Adriano, barbudo romano de alma grega. Fiquei ali, mas sentindo o vento como que vindo de Tróia. Era novamente Ulisses, que mesmo cruzando o mar de problemas ainda era assombrado pelo grito de Polifemo às portas de casa. Por algum tempo senti essa melancolia de quem deixa o lar para construir cavalos de madeira e semear infelicidade.

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Outra igreja de Santorini. Notem no canto inferior direito: Um quadriciclo de 250 cc. Eu preciso dizer o tanto que me diverti com esse brinquedinho, preciso?

Durou pouco essa sensação, porque logo senti o toque de deusa no ombro. Era a Virgem da Hélade, Nikki, vitoriosa com as asas abertas. Abraçou-me e em sonho levou-me para um vôo com as águias de Zeus. Vi o mundo pequeno lá embaixo com suas ilhas, grandes e pequenas. Vi a deusa do meu lado sorrindo e senti-me de novo a alegria de quem não precisa de oráculos: ao olhar para dentro de mim vi que meu coração era o Peloponeso e Delos, átrio direito e esquerdo da mesma recordação. Onde eu estivesse, Hellas estarias comigo, sempre.

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Santorini ainda. Diga-se de passagem, um dos lugares mais bonitos que vi na vida.

Acordei ao outro dia e me embrenhei no ocidente: a volta tinha começado. Olhei para trás e para o mar e lá do outro lado vi ela, a mãe. Acenou-me e gritou-me para não esquecer de fazer minhas lições todos os dias, e caso tivesse dificuldades, olhasse em meu bolso, pois tinha deixado um pequeno Pitágoras comigo.

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Platão (D) e Aristóteles (E). Fotógrafo: Rafael Sanzio.

Ethkaristó mãe querida, e até à volta.

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