ZTCT2009: Pompei

Posted on outubro 18, 2009

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Bem vindo à cidade-fantasma.

Bem vindo à cidade-fantasma.

Eu deixei Nápoles em um dia chuvoso: final de setembro, outono ali na porta já batendo para entrar. Peguei uma secundária cortando algumas cidadezinhas no caminho até Pompéia. Dia fechado, frio e eu buscando ser racional e pensando: “ok, nada de fotos, passeio rápido… não tem jeito”. Cheguei na entrada para o sítio arqueológico, descobri que tinha perdido meu guarda-chuva azul e tive que comprar um outro enorme, colorido com as cores da bandeira italiana, que quando uso me tornam localizável por satélite. Carreguei comigo só o iPhone (L) e pensei que ia ter um dia só para mim também. Sim, quem viaja fica preocupado com o registro, tirar fotos, mostrar para família, amigo, cachorro. Além disso, eu ainda me fiz o favor de comprar outra cam, e agora além das fotos, tenho que me preocupar com os vídeos para mostrar para a família, amigo, cachorro. Fiquei até aliviado com essa chuva, e larguei tudo no carro, e como o celular tava a tira-colo mesmo, tomei o rumo da entrada e desencanei.

A Basílica de Pompéia. A basílica era uma construção que tinha várias funções, mas funcionava como um lugar de reunião pública geralmente com fins sociais ou políticos. Julgamentos, inclusive, eram realizados dentro dela.

A Basílica de Pompéia. A basílica era uma construção que tinha várias funções, mas funcionava como um lugar de reunião pública geralmente com fins sociais ou políticos. Julgamentos, inclusive, eram realizados dentro dela.

Eu tinha uma idéia de Pompéia como uma enorme ruína. “- Sim, caramba, o que uma cidade que foi soterrada por uma ERUPÇÃO VULCÂNICA tinha para mostrar?” pensava eu. Isso me ajudou também a me sentir mais aliviado de não estar carregando a parafernália de registro comigo: “- Tem nada pra ver mesmo, vou passear, relaxar, e depois tomo o rumo da Costa de Amalfi” (próximo post).

Eu esperava encontrar SÓ isso...

Eu esperava encontrar SÓ isso...

Paguei a entrada, peguei o audio guide e cruzei a porta e aí, susto: não é só ruína, é uma cidade quase totalmente de pé. Sim, construções e construções e mais construções muito bem conservadas. Fiquei meio bobo, pensando “Hã?!?!?” e aí quando fui descendo mais para dentro da cidade, e que num dos muros de uma das casas eu vejo um GRAFITE romano no muro eu pensei “ô vulcãozinho de merda!”. Ok, nem pensei isso que eu nem sou louco, que ando tanto tempo aqui pelo mundo clássico que já estou acreditando em deuses de novo: pedi inclusive permissão para POSEIDON para tomar banho de mar em Santorini. De qualquer maneira, eu fiquei um tempo parado no meio da rua tentando me localizar e entender. Ouvindo a conversa do audio-guide eu descobri que Pompéia começou a ser escavada ainda no século XVIII, ou seja, é um trabalho antigo, e por isso, muito da cidade pode ser conservado. Minha postura mudou de blasé para eufórico-triste, porque senti que o tempo que tinha não ia ser suficiente: sim, precisava de uma três vidas lá dentro, revirando pedra e falando com caramujo. Mas eu me conformei, e disse pra mim mesmo que só ia embora arrastado pelos seguranças, alta noite, quando não conseguisse mais me esconder deles.

Pichação romana em uma casa de Pompéia. Na parede está escrito "É nóis!" (tradução-livre do autor do blog).

Pichação romana em uma casa de Pompéia. Na parede está escrito "Eh nóis nah fita truta!" (tradução-livre do autor do blog).

Bem, faço piada, mas o que eu senti está longe disso. Gradativamente, ao andar pelas ruas e entrar na casa dos antigos residentes e ver as pinturas nas paredes, tudo conservado como exatamente era ou ao adentrar no “coleseum” da cidade pela mesma entrada que os gladiadores usavam e me ver no meio da arena, eu consegui mergulhar naquele tempo de novo. E isso foi possível justamente por conta da chuva: a cidade estava praticamente vazia, com poucos turistas se aventurando a andar por lá. A chuva passou mas ficou o número reduzido de pessoas. Bem, museu quanto mais vazio melhor: por isso gostei tanto do Museu Arqueológico Nacional de Nápoles, porque não tinha quase ninguém e eu ficava pensando “-TODO MEU HAHAHAHAHA TODO MEU!!!!!”. Imaginem agora eu com UMA CIDADE toda pra mim? Não é exagero, eu sentia tanto prazer, mas tanto, que minhas ex-namoradas que me desculpem, mas chorei por vós! Se não fosse o profundo sentimento de respeito e admiração que me veio não sei de onde, eu não andaria pela cidade, eu quicaria pelas paredes, tipo noviça rebelde do mundo clássico.

Uma cidade arqueológica VAZIA! Zenzazional...

Uma cidade arqueológica VAZIA! Zenzazional...

Bem, passada a euforia dessas descobertas eu me concentrei. Logo depois de um tempo ouvi uma voz no meu ouvido, que dizia algo assim:

“- Ouvi os mortos.”

Eu não entendi de começo. Ouvir os mortos? Bem… eu me concentrei e a voz continuou dizendo isso e eu vi que tinha algo para acontecer COMIGO ali. Eu não tinho ido a Pompéia à toa, tinha um porque deu estar ali. Não era só passeio e masturbação cultural para nerd-feliz, tinha algo mais no ar da cidade, algo em cada pedra velha que eu pisava. Eu fui concentrando, concentrando, concentrando…. e aos poucos fui entendendo o que eu tinha para fazer na cidade fantasma. Quando em Roma, seja como os romanos certo? Em Pompéia, você tem que aprender a se portar como os habitantes de lá, e para isso, tem que ouvir os mortos.

O atrium de uma casa romana. Peculiaridade arquitetônica: as casas romanas não tinham janelas voltadas para o exterior, para preservar a privacidade dos moradores, que ficavam voltadas para o átrio.

O atrium de uma casa romana. Peculiaridade arquitetônica: as casas romanas não tinham janelas voltadas para o exterior, para preservar a privacidade dos moradores, que ficavam voltadas para o átrio.

Eu me sentia estranho, estranhamente feliz. Muito feliz, calmo, sereno… sim, sereno é a palavra. O vento frio da chuva que varria o pé da Montanha-vulcão tinha algo a mais nele, como um perfume de um tempo que eu tinha visto. Era mais que um dejá vu, porque eu me sentia ali de fato. Eu parava em esquinas da cidade, e não fazia nada mais que sentar na calçada e olhar para as casas. Eu fui até o extremo norte dela, já no fim do dia, na Via Vesuvio, e sentei. Fiquei ali só ouvindo o vento, só. Eu e ninguém, ou ninguém que a gente veja assim. Um vento frio, bom e o barulho dele no ouvido, aquele assovio que mais parecia um convite: ouvi os mortos.

Detalhe da decoração interna da casa da foto anterior.

Detalhe da decoração interna da casa da foto anterior.

Eu ouvia isso, mas não tinha conseguido ver nenhum: sim, há exposto em Pompéia pessoas que foram soterradas pelas cinzas do vulcão, e estão lá até hoje. O problema que eu não sabia onde era. A cidade é enorme, tinha pouco tempo, queria ver, mas não sabia. Estava na rua pensando nisso quando um grupo de BRASILEIROS passam e comentam que ouviram um inglês dizer que era no número 36 do mapa. Eu nem puxei conversa com eles, como faço normalmente, porque gosto de ouvir as impressões de brasileiros aqui pela Europa, e só me contentei a rir: para que não tivesse erro, eu ouvi em bom português onde estavam os mortos da cidade.

A cozinha de uma casa romana ficava literalmente na ENTRADA da casa. Eu fiz essa foto da calçada, na rua.

A cozinha de uma casa romana ficava literalmente na ENTRADA da casa. Eu fiz essa foto da calçada, na rua.

Fui andando, chego lá e vejo que área toda está interditada. E agora? Agora? Simples, invadir. Sim, eu não tinha andado mais de 5000 kms, tinha ouvido o que tinha ouvido para chegar lá e não ver eles. Passaram o dia me chamando, o dia me contando aquele fatídico dia de 79 d.C., e eu tinha ido longe demais para deixar de vê-los por conta de uma cancela vermelha. Pulei e fui andando até o endereço, e não me espantei de não ter um segurança sequer na área, ninguém de ninguém. Era o meu dia, o dia de ouvir, conversar e ver os mortos.

A arena ("coleseum") de Pompéia.

A arena ("coleseum") de Pompéia.

Cheguei ao número 36, que é uma elevação numa casa, protegido por um vidro. No chão, 3 corpos soterrados de cinzas. Um rapaz sozinho, e uma mulher abraçando o que me pareceu um jovem. Cobertos das cinzas, elas conservaram nos rostos a impressão da força do vulcão, aquela expressão de terror-resignado de quem sabe que encontrou a morte. Ninguém perto de mim, eu e eles. Fiquei um tempo ali, mas não fiquei satisfeito. Fiz algo que é condenável arqueologicamente, apesar do meu cuidado: eu pulei o murinho e fui até alguns passos deles. Fiquei longe, não toquei em nada, e me concentrei na área que vi as marcas das botas dos pesquisadores, mas não me orgulho do que fiz. Todavia, fiz o que fiz porque sentia uma força em mim que me compelia, algo que eu não sei explicar, como não sei explicar muito do que senti o dia todo. Digo isso, porque eu sou do tipo que não tira foto com flash, não toco nada, não avanço, enfim, respeito todas as regras. Mas esse dia, não sei o que tinha comigo e com o lugar, eu simplesmente sentia esse “TENHO que” dentro de mim.

A foto é de celular, não é boa... mas bem na esquerda está o rapaz sozinho deitado. Dá pra ver o formato da perna dele, e o calcanhar, pé. Abstraiam e façam força, dá pra ver o pedaço do esqueleto dele a mostra. Foi o que consegui fazer de foto.

A foto é de celular, não é boa... mas bem na esquerda está o rapaz sozinho deitado. Dá pra ver o formato da perna dele, e o calcanhar, pé. Abstraiam e façam força, dá pra ver o pedaço do esqueleto dele a mostra. Foi o que consegui fazer de foto.

Cheguei perto deles, e bem, a intenção era dar a volta pelo círculo e vê-los de todos os ângulos, porém… eu não consegui! Sim, quando eu pulei o muro eu senti uma “força” que enterrou meus dois pés no lugar. Olha, se eu não acreditasse em tudo que já acredito, saíria de lá acreditando, porque eu esbarrei numa espécie de “redoma” que ordenava a não avançar mais um centímetro do lugar que estava. Foi tão forte isso, mas tão forte, que eu senti dificuldades de virar as costas e ir embora. Eu fiquei lá olhando pra eles. Um deles, o rapaz sozinho, a cinza tinha caído do calcanhar e os ossos estavam expostos. Ele estava na minha frente, eu fiquei ali contemplando aquela família, os pés fixos no chão, dificuldade de me mover para tirar foto. Só fui embora depois de um tempo, quando me senti “autorizado” a ir. E aí, pulei o muro de volta e fui embora. Realizado, porém, receoso: senti que tinha ido longe demais, passado dos limites. Meu palpite estava certo: passei as duas noites seguintes experimentando sensações estranhas, que só passaram quando eu juntei as duas mãos e pedi desculpas a “eles”, ao mesmo tempo que expliquei o que senti. Funcionou, e a partir da terceira noite, a paz voltou, ficando só as impressões maravilhosas do passeio todo.

Uma imagem "inspiradora" na parede de um dos bordéis de Pompéia. Os bordéis geralmente eram para a plebe: os ricos recebiam os "serviços" em casa mesmo.

Uma imagem "inspiradora" na parede de um dos bordéis de Pompéia. Os bordéis geralmente eram para a plebe: os ricos recebiam os "serviços" em casa mesmo.

Ficou a lição de que esses lugares antigos estão recheados de energias, que lá foram colocadas por pessoas que pensavam e muitas vezes pensam diferente de nós. Isso é o que eu acredito claro, mas se você quer o meu conselho, eu te digo para no seu ceticismo manter o respeito: não toque, não invada, não faça piada, mantenha-se na postura de quem quer aprender, ver, se maravilhar. Além do dia fantástico, Pompéia me ensinou isso, ensinamento que eu comecei a aplicar e que aqui em Atenas me reservaram os melhores dias da viagem: caminho por entre ruínas e mortos agora e em todos esses lugares faço amigos nos dois planos, porque sempre peço permissão antes de avançar um passo sequer.

A "Casa do Fauno", de onde foi retirado o mosaico da "Batalha de Issus", que falei no post de Napoli.

A "Casa do Fauno", de onde foi retirado o mosaico da "Batalha de Issus", que falei no post de Napoli.

Vi o pôr-do-sol no fórum da cidade, ao lado de onde ficava o antigo local onde se trocava moedas estrangeiras por moedas da cidade. Na minha frente o Vesúvio, naquele jeito dele de dizer que sempre vai estar lá, e que nós não. Fiquei alguns minutos sentado ali ainda, fiz algumas fotos (do carro, minhas câmeras arrumaram um jeito de me assediar mentalmente, obsessoras que são) olhando pro velho vulcão. Pensei de novo em tudo que vi, nas casas, inclusive no Bórdel que entrei, com as pinturas na parede, e naquela cidade que parou no tempo. Fechei os olhos e vi a praça cheia de vendedores, de pregadores convocando alguma assembléia, do patrício que passava na sua liteira, da gente apressada que esbarrava em mim sem esbarrar, sem a mínima curiosidade comigo, afinal para eles eu sou o morto, cego, que não vê nada.  Deixei com eles o meu carinho, ajeitei a minha toga e quando estava para ir, olhei para o lado: era o meu amigo, a voz no meu ouvido, Ovídio ocasional de quem se aventura a ser Dante por ali. Ele me abraçou, e fui tomando o rumo da porta da cidade, enquanto sentia no peito a gratidão por esse dia nada convencional.

O mercado de moedas.

O mercado de moedas.

O que eu tinha ido fazer lá? Ouvir os mortos de novo. Tinha passado esse tempo todo longe deles, sentindo-me o mais injustiçado dos humanos. E aí eles me convidam para a cidade deles, cantam para minha aquela canção antiga e me lembram do enorme carinho que eles têm não só por mim, mas por todos nós.

Farewell. Ao fundo, o Vesúvio.

Farewell. Ao fundo, o Vesúvio.

Quando você for a Pompéia, peço que lembre-se de mim, e faça como eu: ouvi os mortos. Garanto que a estória que eles vão te contar, guia de carne e osso nenhum vai conseguir reproduzir.

Arena & um esgrimista do bigode de volta perdido.

Arena & um esgrimista do bigode de volta perdido.

Vejo vocês do outro lado.

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