ZTCT2009: Napoli

Publicado em outubro 17, 2009

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"A Primavera" (Museu Nacional Arqueológico de Nápoles).

"A Primavera" (Museu Nacional Arqueológico de Nápoles).

Chegando em Nápoles eu cumpri um dos side-quests da viagem: visitar as três cidades-portos de onde o capitalismo pela primeira vez hasteou vela. Tinha visto Veneza em 2007, vi Genova quando entrei na Itália, e agora entrava na última delas. E minha exploração da cidade consistiu parte nisso: de andar pela beira do mar e ficar vendo caravela ou tireme fantasma chegando e partindo. De observar como nessas três cidades, manifesto na estética das ruas à arquitetura, a cidade inteira parece querer se lançar ao mar, num desses ímpetos saudosos de amante de marinheiro. Cada pedacinho de terra abraça, e não só toca, o mar. Cada espaço na areia ou na pedra é um porto.

Castelo Nuovo.

Castelo Nuovo.

Minha estada na cidade foi mais também para descanso. Sim, eu estava com estafa mental dos mais de 10 dias em Roma enfiado em cada buraco que me falasse de algo que tinha acontecido miletantosanosatrás. Eu gastei um dia inteiro no Coleseum, lendo tudo da exposição do Vespasiano. Fiquei enfiado outro dia nos Museus do Capitólio, lendo cada inscrição em pedra. Outro no Fórum, de cabeça torta pra entender o mármore no chão, e por aí vai. Tudo isso com audio-guide no ouvido, guia na mão, leitura da internet, etc. E aí, no final, senti que não estava mais conseguindo absorver muita coisa, e resolvi descansar.

Museu Arqueológico.

Museu Arqueológico.

Entretanto, em Nápoles está um dos Museus Arqueológicos mais importantes do mundo. Por isso, fiquei um dois dias andando na beira da praia, pedindo à Júpiter-Capitolino aquela força que antecede triunfo. Dormi até tarde, enchi a barriga de espagueti e frutos do mar e no terceiro dia ressucitei a cabeça e fui lá, ainda meio cético se o que ia ver ia me impressionar tanto assim….

O famoso "Hércules" que Napoleão deixou pra trás no saque que fez quando da conquista da Itália. Segundo contam, o pequeno-notável teria manifestado mais de uma vez o pesar por ter cometido esse "erro".

O famoso "Hércules" que Napoleão deixou pra trás no saque que fez quando da conquista da Itália. Segundo contam, o pequeno-notável teria manifestado mais de uma vez o pesar por ter cometido esse "erro". (Museu Arqueológico)

Impressionou. O Museu Arqueológico Nacional de Nápoles é onde está a coleção dos mosaicos romanos encontrados em Pompéia. Além disso, no “Gabinete Secreto” está a mostra de arte erótica romana, que geralmente adornava bordéis, mas que também se encontrava na casa da gente comum, porque pra quem não sabe, Venerius era um deus, que se pedia proteção e sucesso, antes de cada orgia. Era uma espécie de Baco, um deus das “festas”, mas você faz o favor de ler “festa” com um sorriso no canto da boca. Doença “Venérea” vem daí.

O "Gabinete Secreto". M.A

O "Gabinete Secreto". (M.A).

De qualquer maneira, tempos atrás eu comprei aquele documentário da BBC sobre Alexandre o Grande, que o repórter fez os passos dele pela Ásia. E quando ele foi falar da batalha dele contra o Dário III, mostrou um mosaico criado por um artista romano retratando justamente o momento da batalha, quando Dário percebeu que o jovem macedônio ex-tutelado de Aristóteles era encrenca demais pra ele. No mosaico, os olhos abertos em gesto de terror e incredulidade de Dário de um lado, do outro, a face da serenidade e confiança do herói do helenismo, que precisou de 2 anos apenas para unir ocidente com oriente. Os cavalos macedônicos e gregos atropelando soldados persas no chão, estatelados.

O Mosaico da Batalha de Issus. Encontrado na "Casa do Fauno" em Pompéia. Autor, até onde eu sei, desconhecido.

O Mosaico da Batalha de Issus. Encontrado na "Casa do Fauno" em Pompéia. Autor, até onde eu sei, desconhecido. (M.A.).

Eu lembro de assistir o documentário e ficar impressionado pela vividez dessa obra-de-arte, coisa que o pessoal da BBC ressaltou na narração. E, bem, eu estava lá andando pelo museu, faço uma curva ali, outra aqui, e no canto do meu olho vi algo enorme na parede, na parte dos mosaicos. Eu me viro e vejo: era o mosaico do documentário. Esse mosaico foi encontrado na famosa “Casa do Fauno” em Pompéia, que eu visitei e que falo no próximo post. Não tem autoria certa, mas retrata a Batalha de Isso, entre Alexandre o Grande e  Darius III e marca a vitória decisiva do general macedônico sobre os persas.

As memórias sobre Alexandre são diferentes, se nos deslocamos para o oriente. No Irã, ele até hoje é lembrado pela alcunha de "demônio" em vez de "o Grande". Vencedor e derrotado geralmente não vêem as coisas do mesmo jeito. (Pintura encontrada em Pompéia, de Baco - M.A.)

As memórias sobre Alexandre são diferentes, se nos deslocamos para o oriente. No Irã, ele até hoje é lembrado pela alcunha de "demônio" em vez de "o Grande". Vencedor e derrotado geralmente não vêem as coisas do mesmo jeito. (Pintura encontrada em Pompéia, de Baco - M.A.)

O painel é impressionante, arrebatador, como toda obra-única. Tem por volta de 3 para 4 metros de altura, por 6 ou 7 de comprimento. Levou 6 anos para ficar pronto, e o artista utilizou mais de um milhão de pedrinhas coloridas. Tudo isso para te colocar de volta no campo de batalha num dos momentos mais importantes para a história mundial: depois dessa batalha, Alexandre consolida o poder ocidental sobre a ásia. O mundo a partir de agora se tornava uma ágora, e o conhecimento grego se espalha e se mistura, enriquecendo e sendo enriquecido.

Os famosos mosaicos de Dióscorides de Samos, artista romano que trabalhou para as famílias ricas de Pompéia.

Os famosos mosaicos de Dióscorides de Samos, artista romano que trabalhou para as famílias ricas de Pompéia. (M.A.).

Eu podia ficar mileumanoites falando de Alexandre aqui, Sherazade que sou do mundo helênico no geral. Pouparei-os de meu tietismo, mas fica mais um registro disso que foi uma das grandes lições que esta viagem me trouxe: o potencial de ensinamento que uma obra de arte pode te trazer. Olhando pro painel eu pude ressucitar em mim coisas que muito tempo não refletia. Alexandre o Grande (Ἀλέξανδρος ὁ Μέγας ou Μέγας Ἀλέξανδρος, em grego), filho de Felipe II da Macedônia. Aos 20, com o assassinato do seu pai se torna rei. Pouco antes ouviu dele a profecia que o fez ir até os confins da Mongólia: “Meu filho, conquite para você outro reino, porque este que lhe deixo é muito pequeno para ti”. Tal fez. Aos 22 se tornava senhor supremo da Ásia-Menor, com a derrota de Darius III. Aos 32, morre no Egito. Em menos doze anos, um jovem que nem era homem ainda mudou a história mundial e uniu o globo. Os gregos aprendem mais matemática e conhecimentos de navegação com os orientais. O oriente agora lia a escola socrática. O grego se torna a língua-comum do mundo antigo. O grosso disso consolidado em quatro anos, quatros míseros anos. Quatros anos eu levei sentado na UnB para receber o grão-título-da-ordem-dos-Bacharéis. E, pasmem, isso não colocou meu nome nos anais da história mundial, e serviu apenas para criar algumas pontes entre a minha ignorância e o lado de lá do que eu devia aprender.

Todo relacionamento envolve conflito. (Outro mosaico encontrado em Pompéia).

Todo relacionamento humano envolve conflito. (Outro mosaico encontrado em Pompéia - M.A.)

Quatro anos, algumas tropas, cavalos. Imaginem quanto tempo levava pra viajar tal distância no lombo de um animal (um dia de marcha com tropas, dependendo do volume dela, você cobre uns 30, 40 kms). E nesse curto espaço de tempo, contando todas as vicissitudes possíveis, esse MOLEQUE me une o mundo. Isso 2400 anos atrás, quando a internet ainda era movida a pergaminho amarrado na bota de neguinho, que corria mais que ladrão pra chegar a tempo da notícia não ter sido dada por uma pomba do inimigo dizendo “Perdeu Playboy!”.

M.A.

"- Perdeu bodinho!" (M.A.).

À emoção que eu tinha experimentado em Florença com o talho de Michelângelo & Cia, e à força orgulhosa do mármore que o tempo derrubou em Roma, agora se juntavam ao monte de pedrinha que me davam, mais uma vez, aquele tapa de luva de prego da história na minha cara. Pelo tempo que eu estive dentro do Museu Arqueológico de Nápoles, eu tive que tomar cuidado para não tropeçar nos corpos dos persas no chão, esquivar das flechas e lanças e procurar um canto sereno no canto de batalha para ficar apenas olhando a face do menino da Macedônia, temido e respeitado, que com uma espada abriu o crânio do mundo e o deixou ali exposto, preparado para receber os ventos que, com ele, agora vinham de todas as direções.

Oriente e Ocidente começam a caminhar juntos numa mesma direção. (M.A.)

Oriente e Ocidente começam a caminhar juntos numa mesma direção. (M.A.)

Saí do museu e novamente me localizei no tempo e no espaço. Fui descendo a Via Toledo, passei pela Piazza Dante e fui caminhando até o restaurante e fiquei olhando o mar, enquanto esperava os frutos dele para acalmar a fome que me deu depois dessa viagem de dois mil e muitos anos que fiz em algumas horas. Olhava o mar, enquanto agradecia a Júpiter pela força especial do dia e pela vitória que concedeu às forças da história. Estava assim, pensando no que o filho tinha feito, quando na minha frente vi a figura do pai. Parado ao meu lado eu vi Felipe II da Macedônia, vestido ainda com os trajes que o levaram até Bizâncio, me olhando firme nos olhos. Senti aquele arrepio de quando se vê gente morta na rua, mas a sua face orgulhosa e agradecida pelo meu carinho me acalmaram. Ele caminhou até mim, pôs a mão no ombro, e falando uma língua morta disse aquilo que eu já imaginava que ia ouvir. Falou as palavras que nunca vou conseguir traduzir, a não ser que o coração viesse a boca, e em vez de sangue, salivasse sabedoria.  Todavia, a conversa durou o tempo desse toque. A sua mão levantada o tempo todo me mostrava o sudeste, porto da minha alma.

M.A.

Mármore, a pedra de esculpir fantasma. (M.A.).

Chegou a comida e ele se foi. Enquanto flutuava no ar, eu pensei no meu caminho. Logo-logo estaria na Grécia. E para se certificar disso, Zeus fez questão de mandar um dos seus filhos diletos lembrar-me que todo o reino vale a pena, quando a alma não é pequena.

Mas, antes disso, eu tinha alguns espíritos e demais fantasmas para visitar e conversar. Próxima parada: Pompéia.

O campo de batalha. (M.A.)

O campo de batalha. (M.A.)

Até já.

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