ZTCT2009: Firenze.

Posted on setembro 22, 2009

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Il Duomo (Cattedrale de Santa Maria del Fiore): Battistero, Duomo, Cupola.

Il Duomo (Cattedrale de Santa Maria del Fiore): Battistero, Duomo, Cupola.

Florença foi uma das pérolas da viagem. Pérola pela beleza da cidade, pela boa comida (eu não comi comida ruim na itália, tirando um troço esquisito que pedi que nem lembro o nome, mas ok), todavia o motivo principal que para mim coloca ela no itinerário OBRIGATÓRIO de qualquer cristão ou mouro que por aqui vem, é a riqueza cultural e histórica, que cada muro ou rua estreita tem para te contar.

Il duomo: Battistero (vista de cima do duomo)

Il duomo: Battistero (vista de cima do duomo)

Para entender Florença você deve se fazer algumas perguntas: “Por que os mestres do Renascentismo, inclusive o maior deles, nasceu em Florença?”. “Por que um dos maiores nomes da literatura mundial era de lá?”. “Por que um dos maiores nomes da teoria política moderna é de lá?”. “Por que? Por que Leonardo nasceu em da Vinci mas foi buscar imortalidade lá?”.  Das quatro perguntas surgem quatro nomes: Michelângelo, Dante, Maquiável, Leonardo. Coloquem esses quatro senhores um do lado do outro e escreva em letras garrafais em cima “Cultura Ocidental, tal como a gente se orgulha dela” e não estará comentendo nenhum exagero, pelo contrário, apenas atestando bom-senso.

Duomo: interno.

Duomo: interno.

E aí, eu com isso na cabeça começo a andar. Só a fachada exterior do Duomo de Florença, já me deixou… mesmerizado. Eu olhava cada detalhe daquele, e imaginava a mão de um gigante retirando beleza da pedra fria. De um Arnolfo di Cambio sentado em sua prancheta, numa espécie de transe julioverniano, antevendo cada arco e abóbada que ele riscava, que ao final se transformaram em testemunhos e um presente para humanidade. E quando entrava em cada templo desse, e topava com os afrescos ou pinturas desses mesmos mestres, artistas completos, senhores de um período onde a obra de arte era total (começava na planta arquitetônica, passava pela escultura e terminava no colorido da parede), eu sentia orgulho de ser da mesma espécie que eles.

Santa Croce: interior.

Basílica de Santa Croce: interior.

O Renascimento, para mim, é um momento de muita coragem, não só estética, mas filosófica. Quem viu o painel do “Dia do Julgamento” na Capela Sistina, em Roma, entende porque Michelângelo foi quem foi. Homem de muita cultura, de um conhecimento de teologia que dobrou um Julius II, soube usar a simbologia para deixar uma mensagem onde o homem, até então figura sempre submissa – fosse ao cetro, cajado ou espada – saía do umbral da história e ganhava centralidade. O Renascimento legou à filosofia os moldes para o encaixe posterior do racionalismo-humanista: Kant, sem nunca ter saído de sua cidade, existiu antes nas paredes das igrejas de Florença e Roma.

Eis a Pintura.

Eis a Pintura.

Quando Michelângelo pinta o “Ecce Homo” na abóboda central da Catedral de Florença, mais do que estar cumprindo exigências ideológicas, está na verdade deixando em parede um manifesto antropológico: a frase vem sobre Jesus, que deixa de ser figura divinizada e distante para se tornar o exemplo de homem. Para os Renascentistas, o Cristo, apesar de surgir como um ideal a ser seguido, é introduzido à humanidade como seu congênere: “Eis o Homem”.

Davi, do mestre. Galleria dell'Accademia. (foto minha. como eu consegui tirar a foto? se eu fosse contar o tanto de esculhambação que estou tomando nesta viagem por fazer foto/vídeo proibido. sinceramente acho o cúmulo isso, e registro sim)

Davi, do mestre. Galleria dell'Accademia. (foto minha. como eu consegui tirar a foto? se eu fosse contar o tanto de esculhambação que estou tomando nesta viagem por fazer foto/vídeo proibido. sinceramente acho o cúmulo isso, e registro sim)

Todavia, a contribuição não pára por aí, e vai além da polemização teológica: a humanização de Jesus acaba por dar à religião um caráter histórico. A história existe como nossa história, e a partir do momento que Jesus deixa de ser o “filho de Deus” para se tornar homem, ele automaticamente entra na linha do tempo. Por isso no teto da Capela Sistina Michelângelo pinta os antepassados de Jesus, tal qual discreve Mateus em seu Evangelho. Sutilmente o grande mestre florentino lembra-nos que todo homem provém do homem, Jesus incluso.

"A Vitória", também do mestre. Essa obra é fantástica pela sugestão iconográfica e simbólica. Afinal, todo vitorioso pressupõe um derrotado, que vira prisioneiro do triunfo. Ambos humanos, a vitória porém é mais jovem e desnuda. O resto da crítica fica óbvio.

"A Vitória", também do mestre. Essa obra é fantástica pela sugestão iconográfica e simbólica. Todo vitorioso pressupõe um derrotado, que vira prisioneiro do triunfo. Ambos humanos, a vitória porém é mais jovem, debochada e desnuda. O resto da crítica fica óbvio.

Os Renascentistas conseguiram elaborar em cima dos altares da igrejas um conceito estético-simbolista-filosófico da religião que justamente tirava ela de cima do altar e era apresentada para a humanidade como parte de sua própria história. Fazem isso começando pela figura central: o Cristo que desce da cruz e é apresentado à humanidade por um dos seus algozes como parte dela. Mais do que ironia, ou exagero em colocar na frase de Pilatos o manifesto que humaniza a religião, aconselha-se a não se ver em toda essa simbologia mero acaso: tudo que Michelângelo produziu ou mandou produzir (por meio de seus alunos ou colaboradores) era meticulosamente planejado e embasado no grande conhecimento (tanto teológico como filosófico) que ele possuía.

O túmulo de outro ilustre da cidade: ninguém menos que Galileu Galilei. Eu particularmente gosto mais do Giordano Bruno, por ter ido até o fim com que acreditava. De qualquer maneira, há de se respeitar a contribuição do insígne astrônomo florentino.

O túmulo de outro ilustre da cidade: ninguém menos que Galileu Galilei. Eu particularmente gosto mais do Giordano Bruno, por ter ido até o fim com que acreditava. De qualquer maneira, há de se respeitar a contribuição do insígne astrônomo florentino.

Por ser romano, de uma outra tradição, e homem instruído, Pilatos talvez fosse o único em meio a toda aquela multidão que enxergou o Homem que ali estava. Tanto que manifesta não saber porque pediam com tanta veemência a crucificação. Ao fim, ele termina por também ser humano, romano: “Ecce Homo” acaba sendo imortalizado como gesto da conveniência política do império, de “respeitar” para melhor dominar. Pilatos foi estritamente coerente com isso ao entregar Jesus. Todavia, fez isso em gesto também de ironia, de desafio ao farisaísmo: “Ecce Homo”, apenas um homem, quando despido de toda irracionalidade e radicalismo ideológico. Como uma moeda, o gesto de Pilatos carrega em si essa dupla face interpretativa, que os Renascentistas souberam usar muito bem para confrontar e lançar as bases de uma nova hermenêutica.

Um dos "Quatro Prisioneiros" de Michelângelo, exposto no corredor que leva ao "Davi", na Galleria dell'Accademia. O homem está preso à pedra, ao material, enlaçado, parte ele, parte rocha, inacabado, misturado, grosseiro.

Um dos "Quatro Prisioneiros" de Michelângelo, exposto no corredor que leva ao "Davi", na Galleria dell'Accademia. O homem está preso à pedra, ao material, enlaçado, parte ele, parte rocha, inacabado, misturado, grosseiro.

Bem, com esses comentários espero demonstrar como Florença calou fundo dentro de mim. Entrei lá com uma cabeça, saí com outra. Isso tudo que eu escrevi aprendi lá, olhando para parede de pedra antiga, de entrar na Santa-Croce, no Duomo, na casa do Dante. Com isso eu espero te provar, e também te incentivar, a quando fazer essas viagens buscar crescer junto com ela. Saí dessa magnífica cidade como se meu cérebro tivesse sido tocado por um desses senhores. Partilhar a experiência de viver alguns dias e olhar de frente para você o testemunho da genialidade desses mestres é uma experiência que eu nunca vou conseguir te informar. Eu só te peço para me imaginar ali, em pé, com o audio-guide colado no ouvido, câmera pendurada no peito, de boca aberta, mil pensamentos na cabeça, olho marejado, e tudo que eu conseguia pensar era “Obrigado…”

Túmulo de Michelângelo. O túmulo dele, do Galileu e do Maquiável (que não pude fotografar por estar em restauro) estão todos em Santa Croce.

Túmulo de Michelângelo. O túmulo dele, do Galileu e do Maquiável (que não pude fotografar por estar em restauro) estão todos Santa Croce. Detalhe para as três estátuas: da esquerda pra direita, arquitetura, escultura e pintura representadas nas figuras das três mulheres tristes pela morte de seu maior mestre. Trabalho dos gênios Vasari (tumba), Battista Lorenzi (busto e estátua simbolizando a pintura), Giovanni dell'Opera (arquitetura), Valerio Cioli (escultura) e G. B. Naldini (afrescos).

Por que? Porque entre tanta desgraça e tristeza no mundo, eles te lembram do que eu e você somos capazes. Um pincel, um cinzel, uma curva numa capela foram as ferramentas e testemunhos que eles deixaram. E nessa singeleza de pedra riscada eles acabaram com a “idade das trevas” e foram responsáveis pelo renascimento de novas, velhas,  humanas ideologias.

E a gente hoje, com toda essa parafernália instrumental que temos, com um mundo que cada vez ficar menor em nossas mãos… estamos fazendo o que?

Casa di Dante. As primeiras edições da Divina Comédia.

Casa di Dante. As primeiras edições da Divina Comédia.

Fica a pergunta.

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