ZTCT2009: Côte d’Azur.

Posted on setembro 11, 2009

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Sim, eu sei... é de chorar de lindo.

Sim, eu sei... é de chorar de lindo.

Ahhhh, a Riviera…

Como a idéia pra chegar na Grécia é via ferry-boat pela Itália eu resolvi costear a França. Saí de Carcassonne e desci direto pela auto-estrada. Cheguei em Marseille e vi a segunda maior cidade francesa de dentro do carro, e continuei na estrada. Fui até Toulon pela auto-route ainda, e depois disso peguei a E5049, uma estrada menor e fiz o roteiro “Need for Speed II”. Ok, quem não é nerd e não tinha um PC com uma placa de vídeo Monster da Diamond nos idos dos anos 90 não vai saber muito do que eu estou falando, então eu explico: o NFS antigo tinha pistas que você corria nas costeiras de côte d’azur, as estradinhas menores, que são realmente na BEIRA do mar. Por beira eu quero dizer precipício, se errar a curva o carro cai lá embaixo e você vira comida de gaivota.

Apesar da besta aqui ter esquecido o ISO da câmera em 1600, a foto fala por si.

Apesar da besta aqui ter esquecido o ISO da câmera em 1600, a foto fala por si.

Eu resumo essa feliz escolha, que diminuiu meu ritmo de viagem mas aumentou meu prazer em dirigir exponencialmente, com um comentário que fiz em uma das curvas, que eu gravei e depois vou jogar no youtube também: fiz a curva e quando olhei a vista do mediterrâneo lá embaixo, as pedras, o mar quebrando nelas, tudo que eu consegui pensar foi “eu estou sonhando?”. Daí vocês imaginam o que é dirigir lá. Eu realmente me sentia dentro de um cenário de video-game.

Bem… fiz alguns vídeos sim deu dirigindo, o que foi loucura, mas foi demais: som no toco, eu entrando nas curvas de lado e testando os limites do carro! Ok, aceito as reprimendas, foi irresponsabilidade da minha parte, mas em 1998 eu estava jogando o NFS com um amigo do meu lado, com um controle de volante, e disse pra ele: “um dia ainda vou dirigir nesse lugar, de verdade”. Eu cumpri a promessa, e só pensava nele quando entrava nas curvas e tinha do meu lado rocha e do outro mar. Eu realmente estava sentindo um prazer IMENSO de dirigir ali, de pensar dos 11 anos que separavam a ficção da realidade, de estar realizando um dos sonhos da minha vida: dirigir nas costeiras de côte d’azur. Realizado o sonho, estou são e salvo, apesar das imprudências. Eu sei que a vida é mais que uma curva a quase 70 km/h (as malas mudaram de lugar no porta-mal dessa vez) com uma morte horrível do teu lado direito em forma de ribanceira-kabum!-morreuplayboy. Mas eu gosto de pensar (não sei se corretamente) que a vida te perdoa esses momentos, em que você supera os medos para viver os sonhos. Foi o que eu fiz.

Até que cair de carro aí não seria uma morte tão horrível assim, parece.

Até que cair de carro aí não seria uma morte tão horrível assim, parece.

O ponto alto da viagem, para mim, foi dirigir e dirigir. Sim, e até o que eu posso falar da Riviera que você não saiba, que não tenha visto em filme? Sim meu amigo e amiga, é gente chegando de Yatch de muitos milhões, atracando no porto, indo fazer compras na loja das havaianas de St. Tropez. É ferrari, porsche, hotéis, praças, jantares caros. Paguei 101 euros por uma noite num quarto de hotel horrível, no centro de St. Tropez sim, mas com um ventilador que parecia a introdução de música do pink floyd, uma quase-hélice de helicóptero, que não ventilava nada. Sinceramente, não achei nada demais em St. Tropez, vai ver porque eu tava de Renault e não de Ferrari.

Fiquei feliz de deixar St. Tropez, porque ia dirigir de novo!! E não só isso, ia começar a tomar banho de praia do mediterrâneo. Outro ponto alto da viagem: encostar o carro em “vilarejos” no meio do caminho e me jogar no mar. Levei um dia inteiro pra andar 32 km de St. Tropez até Nice. A culpa maior disso foi Cannes, que realmente me impressionou. Cidade lindíssima, glamurosa, cheia de gente bonita e rica na rua. Eu fiquei uma data na frente do restaurante do Carlton com VERGONHA de entrar e pensando em bancar o tipo “rico simples”. Devia ter entrado na cara dura, mas pensei que ia servir só de comentário de blog “comi no Carlton galere”, e aí desisti, e o almoço que tinha feito de compra de supermercado de st. tropez (sim, nem arrisquei comer lá) segurou a fome até a chegada em Nice.

Típica foto de "porta do lugar bacana que eu não pude entrar".

Típica foto de "porta do lugar bacana que eu não pude entrar".

De Cannes cheguei em Nice já de noite. Achei um hotel ótimo no centro, o cara da recepção deu desconto bacana, mas eu fiquei mesmo por causa da conversa com ele. Era um rapaz negro, da minha idade acho, que falava 5 idiomas fluentemente, inclusive árabe. Disse-me que fez faculdade de turismo ou hotelaria, algo assim, e eu fiquei pensando nos mesmos cursos aí no Brasil, em particular, que o sujeito sai e vai trabalhar em guichê de agência aérea, com o mesmo português ruim que entrou. Nessas horas eu lembro o tanto de coisa que tem que mudar no Brasil, e sou puxado de novo pra realidade, saindo do mundo-fantasia de viagem de carro pela zooropa.

Nice é nice (eu tinha que fazer essa piada, claro). Gostei mesmo da cidade, muito tranqüila e movimentada ao mesmo tempo. De lá eu pegava o carro e ia até Juan Le Pin, cidadezinha perto, e pegava um sol num bar de brasileiros que conheci na noite de lá. Fiz amizades, acabei ficando uns 5 ou 6 dias, o que foi bom pra descansar do ritmo dorme-acorda-check out-estrada. Além do que, esses momentos servem preu conhecer pessoas, entrar em contato com outras culturas, e aprender mais ainda. Vale dizer que foi numa dessa lá em Nice que conheci um brasileiro que estava na Legião Estrangeira, que foi outro momento memorável desse meu perído na Riviera.

"Nice é nice" é o novo hit de Salvador.

"Nice é nice" é o novo hit de Salvador.

Eu sempre tive aquela imagem “Desenho do Pica-Pau” da LE, e conversar com esse cara me fez abrir os olhos de um tanto. Sujeito dos seus vinte e poucos anos, tinha uma tatuagem do Anúbis no braço, que segundo ele, foi apelido que colocaram nele. Esse Anúbis segurava uma corda, cada nó era uma pessoa que ele tinha matado em combate: “eu parei de contar no 27, mas foi pra lá de 60”. Ele era atirador de elite (snipper) e me contou de missões no Afeganistão, de ficar 3 dias urinando em tubo esperando um líder talibã colocar a cabeça pra fora da toca. Contou do tiro que levou no peito e a sensação de ser atingido, mesmo de colete. Falou como funciona a LE e as outras milícias, como eles agem. Enfim, fiquei uma tarde toda escutando ele me dar uma aula de real politik. Lembrava dos meus estudos de violência, de política internacional, de conflito, ao mesmo tempo que ouvia ele me dizer como fazia pra lidar com o tédio entre-missões: “a gente saía pra comprar briga com os árabes”. Contou-me da dificuldade que tinha para se relacionar socialmente depois que voltou do Afeganistão, de se sentar sempre no canto de restaurantes, e se ouvia uma colher cair no chão se espantava, e também as dificuldades para reconciliar o sono. Falou do treinamento que recebeu em Israel, de ser trancado no porta-mala de um carro e solto no meio do deserto: “agora acha a base”. Enfim, se eu não tivesse visto a carteira dele da LE (que foi o que começou o papo, porque brinquei perguntando se o pai dele era militar), eu não teria acreditado. Mas a simplicidade dos relatos e a expressão dele me informavam da verdade do que estava sendo dito. Ficou para mim mais uma lição memorável de como esse tal de ser humano é realmente muito diferente um do outro.

Aux armes citoyens / Formez vos bataillons / Marchons, marchons / Qu'un sang impur / Abreuve nos sillons...

Aux armes citoyens / Formez vos bataillons / Marchons, marchons / Qu'un sang impur / Abreuve nos sillons...

Dirigir pelas escarpas e precipícios, luxo, suntuosidade, conversas surreais na beira de praias paradisíacas: esse é o meu resumo de Côte d’Azur. Cada parada que eu dou nesta viagem, algo acontece que me ajuda a jogar um óleo naquelas engrenagens velhas e acomodadas da minha personalidade. Tem quem foque no aspecto prazeroso de se poder viajar assim. Sim, é bom, mas antes de eu começar isto tudo, pedi apenas uma coisa: “que isso tudo sirva para o meu crescimento”. A vida me atendeu, e cada lugar que paro deixo um pensamento velho e saio com um novo dentro da mala.

Meditar + sol = bronze veraum zenzual

Meditar + sol = bronze veraum zenzual

De Côte d’Azur fui pra Mônaco, assunto do próximo post.

Até já.

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