ZTCT2009: Carcassonne, FR.

Posted on setembro 8, 2009

0


Lego versão medieval-francesa.

Lego versão medieval-francesa.

Minha viagem é cheia de “idéias de”.

Geralmente “a idéia é” eu fazer alguma coisa, e essa alguma coisa acaba mudando de figura absurdamente. Eu entendo que viagens devam ser planejadas, eu até tenho um nível de planejamento bom: carrego diário de viagem, contabilizo gastos, procuro manter um certo equilíbro no que posso, o que devo, e o que quero. Não é a toa que tudo está funcionando bem, nenhum problema até agora (e oxalá não terá nenhum). Todavia, e eu digo isso pra você que gosta de viajar, o gostoso mesmo é quando os planos saem dos trilhos para dar em lugar de agradáveis surpresas.

A cité e a cidade.

A cité e a cidade.

De qualquer maneira, a idéia da vez era apenas passar em Carcassonne. Cidade que guardava uma forte tradição medieval, foi o que ouvi falar. Pensei que era o velho esquema de ver castelinho, tirar foto, postal, camiseta. Quando lá cheguei, da auto-estrada, e antes de sequer entrar na cidade, vi uma placa apontando algo como “vista da cité” e eu pensei “?????” e encostei o carro, e subi morrinho. Bem… o que vi coloco na foto abaixo, e vocês vão começar a entender que tinha arrumado uma encrenca boa.

- Fortificação à vista, senhor.

- Fortificação à vista, senhor.

Segui as plaquinhas e fui direto pra cité de Carcassonne. O que fiz foi, literalmente, estacionar o carro, atravessar um fosso sobre uma ponte de madeira, entrar por um portão com aqueles portões enormes de ferro elevadiços e tudo mais. Quando dei por mim, estava dentro de uma fortificação medieval. Ruínas? Não, uma CIDADE dentro dos muros do castelo, como na Idade-Média: lojas, pessoas nas ruas, ferreiros, açougueiros, tudo moderno claro, ou misturado, mas tudo vivo, presente e funcionando. A sensação é que alguém enfiou o dedo na ampulheta e o tempo parou. Eu fiquei andando, tentando fazer o circuito por cima dos muros da cidade, e não consegui, pelo tamanho. Acabei atravessando o portão oeste da cidade e voltando pras ruas, olhando as casas, lojas, os cafés. Pessoas nas ruas, fosso para tirar água, enfim. E aí, quando vi um hotel que era dentro da cité, todo decorado, como um “hotel medieval, eu pedi a fatura e resovli que Carcassonne merecia uma dormida.

Pra ser mais medieval, faltou só o fedor, rato, cadáver e carrinho de mão. Mas como turista ia reclamar e torcer o nariz gritando "sacre le coeur", esses detalhes ficaram faltando.

Pra ser mais medieval, faltou só o fedor, rato, cadáver e carrinho de mão. Mas como turista ia reclamar e torcer o nariz gritando "sacre le coeur", esses detalhes ficaram faltando.

Fui ao Chatêau dos antigos governantes da cidade, que por sinal, foi fortaleza dos CÁTAROS. Eu sequer sabia disso, estudei o catarismo por alto, porque afinal não é porque eu estudo religião que vou conseguir saber tudo sobre. Enfim, a sensação de estar lá dentro, em cima de um baluastre, ou muro, mirando o vale lá embaixo, imaginando catapultas paradas e soldados gritando, foi pra lá de surreal. Eu andei pelos muros, passando a mão por eles, procurando cicatrizes, marcas de invasões, cercos. Achei lascaduras de flechas, sessões novas colocadas no lugar de outras que caíram ao peso de trebuchets, e tive lá minhas experiências místicas. Estava no chatêau, andando por cima dos muros, quando olhei pra cima, e num momento Lobo Antunes (eu só penso nele nesta viagem) eu vi as flechas voando, incendiárias. O vento com cheiro de óleo queimado, os gritos roucos, as ordens. Vi pedras e uma delas me acertou no peito com todo o peso da história. Morri ali para nascer em outro lugar miletantosanos atrás.

...

...

Nunca fui fã da cultura medieval, porque sempre lembro do mundo árabe, de Bagdá, Córdoba, Averroes, Avicena, e penso no contraponto ocidental disso: carrinho de mão como invenção para carregar gente morta pela peste negra. Mas de qualquer maneira, foi muito bom poder abraçar o tempo velho e aprender com ele. Apesar de aindar continuar com meu turbante, desenhando zero na areia, comprei livrinho sobre a história dos catáros, e me prometi ler, tão logo Allah me conceda tempo para isso.

rlx, di boa crja

rlx, di boa crja

Bisous.

Anúncios