ZTCT2009: Paris, France.

Posted on setembro 1, 2009

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Eron, Ricardo e Emília (Mais uma foto maravilinda da Maini)

Eron, Ricardo e Emília (Mais uma foto maravilinda da Maini)

Paris é uma cidade que te abraça. Não desses abraços de amante casual, carta marcada, atriz do teatro que quer comprar tua pena ao preço de afagos de quatro paredes. É um abraço de mulher madura, que te mira entre a fumaça do cigarro, sentada em um café do boulevard. É aquela dama de nariz adunco, que você distraído em sua roda de amigos, flanêur recém-chegado da província, sequer repara no seu primeiro passeio. Mas um arrepio na tua coluna te faz virar, e um sabe-se-lá-porque nela te cativa. Você fica ali, tentando entender, procurando nela uma feiúra que anule aquele charme: “afinal, ela não tem nada demais!”. E mesmo repetindo isso mentalmente, mesmo com tempo todo do mundo e toda arrogância da tua meninisse, a tua única reação é ficar ali mesmerizado. Ela sequer ri, ela sequer diz alguma coisa. Ela termina o cigarro e toma o café dela, e quando você se aproxima desesperado para tentar quebrar esse encanto sem-razão e sem-porque, ela não demonstra a mínima surpresa.

O que?????????????

O que????????????? (Maini)

Paris é essa mulher sentada no café, e nós todos somos seus amantes, homens, mulheres. Ela é imortal. daquela eternidade de quem usou a juventude tão bem que não teme a velhice. Paris se olha no espelho e vê suas rugas, mas as faz desaparecer com um comentário inteligente. Vê as outras cidades pelas ruas, mais novas, meninas, mais atraentes aos desavizados, mas lembra do tanto de livrarias, teatros e museus que carrega nas dobras do seu vestido simples de final de tarde. O mundo pulula dessas bobinhas, vazias, com casca medieval, gótica ou moderna, mas Paris já há muito adotou essa postura calma de quem tem uma leitura pessoal e segura da vida. Ela não passeia mais de mãos dadas pelas ruas, e não faz a mínima questão de se exibir. Não chega de carruagem cara, nem a braços com algum cavalheiro da moda. E mesmo tão discreta, foi a única mulher a convencer o próprio Tempo que ele não existe. Seja dia, tarde, ou noite. Faça sol, lua, ou chuva, Paris sempre veste a mesma roupa-luz, e sempre tem alguém que vai parar do outro lado da calçada para assistir Paris passar.

A Capa Alternativa do disco "Powerslave", de 1984, do Iron Maiden. Segundo críticos, é também a melhor foto de todos os tempos.

A Capa Alternativa do disco "Powerslave", de 1984, do Iron Maiden. Segundo críticos, é também a melhor foto de todos os tempos. (Maini)

Paris é mulher pra vida toda. Não tem como desfrutar dela uma semana, um mês, ou mesmo uma década, e ao sair, não ficar com aquela sensação de que esqueceu algo. Não se visita Paris, se mora nela. O Louvre merece um mês de visita, diárias. A Tour Eiffel é o teu endereço todo final de tarde, ver as luzes da torre acenderem, com uma garrafa de vinho e um bom livro. Champs-Elysée e o Arc du Trioumphe é onde tu vais comprar as roupas para impressionar a experiente-dama, na tarefa ingrata de tentar chamar sua atenção. A Bastille é o lugar para se tomar um café da manhã todos os dias com a democracia. De lembrar que não restou pedra de um dos maiores símbolos de repressão. Que gente sem-cullote com as mãos derrubou aquilo tudo, e lavou sua roupa no sangue da tirania. Montmartre, Notre-Dame e os cafés na beira do Seine. Sorbonne, a estátua de Montaigne, a universidade que faz o teu coração acadêmico perder o compasso, misto de admiração e vontade de estar-ali. O Quartier Latin, antigo reduto da boêmia pobre, que hospedou um Balzac, um Racine, um Molière. Pérre-Lachaise, e seus ossos, que numa tarde cinzenta de inverno te faz pensar na tua própria mortalidade. Vendo todos aqueles túmulos imponentes ou não, de gente famosa ou não, você acaba descobrindo que o morto é você, e cada pedra daquela guarda um imortal.

Finalmente uma foto minha. Bastilha, ou "au revoir ancién regime".

Finalmente uma foto minha. Ex-Bastilha, ou "au revoir ancién regime".

Isso para falar do óbvio da Senhora, das suas curvas que escapam nas dobras do seu vestido. Mas Paris tem os segredos ocultos aos olhos, as rodas de poesia, as leituras coletivas nas livrarias. Os pintores e artistas de rua, estrelas que brilham de dia e dormem longe de noite. Paris tem também um lugar só para ti. Tem aquela loja de mapas que só você conhece, aquele sebo que tem as obras completas do autor que só você leu. Um pintor que só você conhece do quadro que só você sabe a data exata que foi terminado. Esse é o charme das amantes experientes: por mais que tenham sido visitadas por tantos, fazem cada um que chega se sentir como se fosse o único, e o primeiro.

Emília, Eron, a paz voando e o Louvre atrás. Todo fotógrafo bom tem sorte. Essa foto é a prova disso. (Ah sim, o "fotógrafo bom" da foto, é a Maini, claro).

Emília, Eron, a paz voando e o Louvre atrás. Todo fotógrafo bom tem sorte. Essa foto é a prova disso. (Ah sim, o "fotógrafo bom" da foto, é a Maini, claro).

Paris terminou o seu café, e se apronta para ir embora. Depois desse tempo todo você continua ali, em pé, olhando pra ela. Por três vezes eu mesmo estive nesse lugar, e por três vezes a única coisa que consegui fazer foi prometer para ela que iria voltar.

Versailles. O que ele tá fazendo aqui? Bem, tá funcionando como negativo da foto da Ex-Bastilha.

Versailles. O que ele tá fazendo aqui? Bem, tá funcionando como negativo da foto da Ex-Bastilha. (Foto minha)

Há de se perdoar Joaquim Nabuco, e há de se concordar com Walter Benjamin: Paris, Capital do Mundo.

Abbey Rue (Maini).

Abbey Rue (Maini).

C’est ça.

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