Mysthory

Posted on julho 16, 2009

0


Na foto: Homero ensinando para a infante-História porque não se deve responder pros mais velhos.

Na foto: Homero ensinando para a infante-História porque não se deve responder pros mais velhos.

A idade realmente chega para todos. Por mais que você use calça folgadas, ou camisa apertadas, ou sue a camisa para lutar com o farewell que a gordura marrom dá do teu organismo pós-25 anos, ela chega. Hoje eu me peguei pensando isso, pensando que fiz a inevitável curva dos 30. Como cheguei a essa conclusão? Depois de terminar um livro do Lévi-Strauss e me pegar concordando com ele em tanta coisa. Juro que procurei dentro de mim um epíteto menos elogioso, um risinho de lado ou um dar de ombros de antigamente. Que nada! Terminei o livro e lancei o olhar no horizonte, juntando os cacos da minha história acadêmica e pensando se ser Estruturalista não seria uma boa saída para manter o marxismo ao mesmo tempo que se escuta jazz na serenidade da tua biblioteca, com a janela fechada para não ouvir jovem gritando na rua, que jovem… vou te falar…

A pergunta que eu te faço hoje é: o que é a história? Sim parceir@, que é que é a história? Esse tipo de pergunta a gente não escuta tanto, porque essa tarefa é coisa de hermenêutico de gravata borboleta ou filósofo-sandalinha mutcho doido da marola de C.A. Como assim o que seria a história, pensa a gente, a história é o relato da nossa existência, transformado em ciência sabe-se lá quando e sabe-se lá por quem. Há quem diga que começou com os contractualistas desocupados pré-revolução francesa (amém, gritou um ocidental no fundo da sala) ou com Homero, que antes de Heródoto organizou os mitos do povo grego e criou o conceito de narrativa/saga, que seria o alicerce (ao menos literário) da História com H maiúsculo, como em “Macho”. Em suma, em algum lugar da história alguém quis contar uma estória, e começou mais ou menos do começo e deixou sem fim, ficando o resto da encrenca pros que viriam em seguida.

Na foto: Heráclito, o organizador dos mitos do Congresso Nacional, pai da história tupiniquim que todo mundo acredita.

Na foto: Heráclito, o organizador dos mitos do Congresso Nacional, pai da história tupiniquim que todo mundo acredita, conta nos dedos quantas verdades já falou.

De qualquer maneira, o que é aceito hoje é que a história é uma ciência documental. Por ciência quero dizer essa conversa boa que Francis Bacon contou, Newton deu ok, Goethe reclamou, mas todo mundo no final viu que era isso ou virar neoclássico pra não morrer queimado.  Como as sandálias de tirinha estavam começando a cair em desuso por causa da lama que as cidades burguesas produziam, o que levou a invenção da bota e do Charles Dickens, a ciência ganhou o status de quo do jeito moderno de dizer “vim, vi, venci”. Tudo isso legitimado e com carimbo no parlour da Royal Society of Sciences, outro nome para centro de reunião da juventude dandy de outrora.

Com isso, a história torna-se ciência. O caminho para isso foi simples: adotou o método científico, ou seja, separou o conhecimento em “válido” e “não-válido”. Válido é aquilo que é coletado de acordo com as regras, é exposto de acordo com as regras e se comporta de acordo com as regras. Tudo o que foge disso, diz o alto-comando científico, é xurumela de coroinha, portanto não-válido. Para algo fazer parte da história de algo, esse algo deve se apresentar de terno, gravata e falar grosso e bonito, senão toma meia dúzia de catiripapo, dois cascudo, e é posto pra fora do parlour do Cânone, reprovado e sem direito a recorrer da menção.

- O nome do cachorro? Fiquei na dúvida entre Wallace e Darwin, acabei colocando Lineu. A ah aah aha aah há!

- O nome do cachorro? Fiquei na dúvida entre Wallace e Darwin, acabei colocando Lineu. A ah aah aha aah há!

Se dirá que tal postura é necessária, porque se a história não agir assim vai se igualar ao antecessor dela, o mito. O mito é o conjunto dito “desordenado” de saberes de um povo, tradição geralmente transmitida oralmente. Com a invenção da escrita (e de Homero, gritou um egípcio) a tradição oral não cai em desuso, mas vê o seu lugar de evidência como que deslocado. Com a introdução da filosofia, da matemática e outros rudimentos científicos, a oralidade perde sua centralidade por conta da natural complexização do conhecimento, que demanda uma documentação mais precisa. A tradição oral se mantém viva, como forma de manter o “conhecimento antigo”: feitos heróicos e demais estórias que transmitam os sentimentos e valores necessários para preservação da identidade cultural do povo. Todavia, mesmo esses mitos ganham tintas, como é o caso do já citado grego Homero, como também de outros povos, como judeus, persas, egípcios. A Bíblia, especialmente na parte do velho testamento, é um exemplo disso. Como todo “livro sagrado”, o velho testamento era o livro de regras e condutas do povo judeu, que informava de seus valores, de onde tinha vindo, sua “história”, procurando manter a tradição e a identidade vivas.

Esse processo de documentar os mitos faz parte do esquema maior iniciado pelos homens “primitivos” (nota: nunca chame primitivo de primitivo perto de um antropólogo, ele vai se irritar e te acertar uma flecha, ou te jogar um juju) de “totemizar” a realidade, ou seja, de criar padrões-estruturais de explicação pro mundo. Os “primitivos” (…medo…) começaram a classificar o mundo pelos totens: o céu pertencia ao totem da águia, porque ela voa, o mar estaria no da tartaruga, o urso pode significar grama, e o peixe que se alimenta, etc. Enfim, com a escrita se abriu a possibilidade para se desmaterializar os totens, com a criação do conceito de “universal”, o qual Platão foi o introdutor. Com a filosofia, o totem virava um conceito explicatório e o mito ganhava sequência lógico-narrativa.  O que antes era conhecimento espalhado pelo espaço-tempo de um povo (história), ganha encadeamento literário e “sentido”, na figura da sua substância interna, ou seu “universal”.

Essa é a dicotomia, mais que aceita, entre história e mito: um faz parte do jeito moderno e científico de ver as coisas, o outro, do jeito antigo-tradicional e “primitivo” (agora sim, a palavra com seus significados pejorativos)  de se fazer saber. A história veio para abolir o mito e nos presentear com um conhecimento mais imparcial. Tá certo, e quem acredita nisso agora, levanta a mão…

Grafite encontrado em plenos elíseos, atribuído a um grupo de "homens sem escrita" dos 70's, revoltados com esse papo de "totem já era".

- Tu, sempre criando confusão, né cumpadi? - Ih, qualé, parece que é tira!

Ok, chamemos monsieur Lévi-Strauss para nos dizer qu’est ce que ele pensa disso tudo:

The open character of history is secured by the innumerable ways according to which mythical cells, or explanatory cells which where originally mythical, can be arranged and rearranged. It shows us that by using the same material, because it is a kind of common inheritance or common patrimony of all groups, of all clans, or of a all lineages, one can nevertheless succeed in building up an original account for each of them.

What is misleading in the old anthropological accounts is that a kind of hodge-podge was made up of traditions and beliefs belonging to a great many different social groups. This make us lose sight of a fundamental character of the material – that each type of story belongs to a given group, a given family, a given lineage, or to a given clan, and is trying to explain its fate, which can be a successful one or a disastrous one, or be intended to account for rights and privileges as they exist in the present, or be attempting to validate claims for rights which have since disappeared.

Homero nos conta como Helena foi ser teú de manteúda do Páris, deixando pobre Menelau a ver navios (literalmente). Pois bem, e se Homero mentiu? Sim, Homero podia ser um escriba pago pela família de Menelau, que na verdade era fã de meninos (o que para o povo grego não dava tanta confusão quanto pra gente) e deixou Helena lá, serva eterna de Himem. A bichinha se revoltou, arrumou barraco, quebrou o salto, rodou a baiana, etc. Mas como Menelau era o rei, e a família real tinha mais peso, venceu a história dele, em lugar da do pobre escriba-marxista, gente do povo, leitor de Althusser, que fez o relato mas inseriu um texto enorme sobre ideologia no meio. O texto dele acabou nem sendo publicado pela editora oficial, nem ganhou notícia porque o jornal era da família do Sarney, digo, do Menelau. E como era tudo mitologia mesmo, ninguém deu importância, passou o trio-elétrico vendendo cerveja, e ficou por isso mesmo.

We are not all ware in our daily life that we are exactly in the situation in relation to different historical accounts written by different historians.
(…) in our own societies, history has replaced mythology and fulfils the same function, that for societies without writing and without archives [legenda: “os primitivos”] the aim of mythology is to ensure that as closely as possible (…) the future will remain faithful to the present and to the past. For us, however, the future should be always different, and ever more different, from the present, some difference depending, of course, on our political preferences. But nevertheless the gap which exists in our mind to some extent between mythology and history can probably be breached by studying histories which are conceived as not at all from but as a continuation of mythology.

Enfim, mito e história servem para um propósito, e esse propósito é político. Como disse bem Bourdieu, “o incerto é a arena política por excelência”. Quem poderia falar do passado é quem viveu nele (e mesmo assim, com muitas ressalvas). O passado é tão obscuro quanto o sagrado (lugar do mito, em muitos momentos), pois ambos tem papéis, documentos, e ambos tem testemunhas que juram no esquema Chicó que “não sei, só sei que foi assim”. Mas ao final ambos acabam cumprindo funções políticas, de reafirmar estruturas de poder, de contar contos aumentando os pontos do lado de quem segura o cetro, ou a pistola do cano mais longo.

Uncle Sam wants YOU, habib.

Uncle Sam wants YOU, habib.

E não somente isso: por que o mito não poderia ter também sua legitimidade? Agora que descobrimos que a história mente, a pergunta seguinte deve ser se não há alguma verdade na mitologia. E se Jesus caminhou por cima das águas mesmo, e se homens conversavam com espíritos, demônios. E se os ditos santos voavam, e se o coração da Joana D’arc não virou cinzas, como resto do corpo dela? Em suma, todos esses dizeres são motivos de riso nosso, porque não se encaixam no cânone que informa à história como funcionar (cânone nosso, OCIDENTAL, vale dizer). Todavia, a história ela mesma resolveu ignorar a ciência e a tal da “imparcialidade valorativa” e sempre buscou – como a ciência no geral também, diga-se de passagem – fazer suas alianças, ter seus mecenas políticos, etc. E aí você me diz que continua acreditando na história? Bacana, e eu te digo que acredito nos mitos também. Acho que imparcialidade é levar oS ladoS em consideração e trabalhar com eles. Talvez a realidade das coisas se resuma a isso: à nossa capacidade de acreditar e trabalhar com elas, em suas diferenças, e mesmo em seus “absurdos”, como diria Agostinho.

De qualquer maneira, o grande resumo da nossa história é uma luta por verdades que só nos tornam mais mentirosos. O poder é a conversa do que não sabe mandar. Enquanto isso, apesar de não ser santo, eu prefiro continuar tentando aprender a voar.

- Sim, e eu rezo para tu não perderes a cabeça.

- Sim, e eu só rezo para tu não perderes a cabeça.

É isso, e como diria Vico, “arriverdeci, curió!”.

Anúncios
Posted in: Sociologismos.