Portraits of a Religion.

Posted on julho 11, 2009

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- Se disser preu dizer "xis" de novo, corto tua cabeça com o resto de dente que tenho na boca.

- Se disser preu dizer "xis" de novo, corto tua cabeça com o resto de dente que tenho na boca.

Esta semana resolvi colocar em prática um plano de devassar a Londres-cultural. Estou armado de um bom guia, separei a cidade por zonas e comecei o ataque: oyster, caminhadas, caneta e papel. A zona escolhida foi a de Whitehall / Westminster, lar do Big-Ben, do parlamento, de Downing Street. Como estamos enfrentando uma semana de tempo nublado, isso prejudicou meu plano de fazer fotos, então o jeito foi me enfurnar em museu, na boa vontade de sempre de respirar poeira de tinta velha.

No cruzamento da Atterbury St. com Millbank fica o Tate Britain, que junto com o Tate Modern, são os museus por excelência de arte britânica. A idéia inicial era passar um dia lá, dois no máximo, ver tudo, achar graça, fazer foto, comprar lembrancinha. Sim, eu sofro desse mal francês de ter ido ao Louvre e de achar que nenhum museu do mundo mais presta. Eu vou, olho tudo, e sempre termino concluindo a visita com comentários mentais do tipo “isto não é nem meio andar do Louvre”. Verdadeira maldição, que para evitar eu recomendo a ninguém nunca entrar na pirâmide de vidro. Por que? Porque você vai gastar seu dia inteiro, vai ver nada, vai lembrar que não tem muito mais tempo, vai ficar com raiva, vai voltar pra casa, achar que a vida é uma merda, lembrar que não tem dinheiro para voltar, se tiver dinheiro vai voltar, vai sair de lá sem conseguir ver tudo de novo, vai sair com raiva de novo, vai acabar batendo em alguém na rua, vai acabar o namoro, vai chutar o cachorro. Enfim, o Louvre é tipo lepra disfarçada de alta cultura. Guarde os 9 euros da entrada e toma tudo de vinho barato, porque a ressaca vai durar menos.

- hi hi hiii ick! Ops! - Danadinha!

- hi hi hiii ick! Ops! (Cachorro pensando) - Shame on me...

Enfim, recomendações à parte, resolvi adentrar as portas do Tate. Já da entrada, a disposição das salas, a organização geral do museu me deixaram muito feliz. Isso sem contar a arquitetura, o excelente trabalho de iluminação. Em suma, deixei o francesismo de bigode enrolado já na porta.

Comecei o passeio. Sala 1, um rei. Sala 2, reis, rainhas, aristocratas. Gente. Comecei a ficar meio intrigado. Século XVI, e onde estavam os santos? Um crucifixo? Um pingente ao menos? Nada. E aí, na sala 3, sentei e dei um giro de 360 graus. Naquele momento que eu girava meu corpo vi uns 20 rostos me encarando. Vinte rostos, pescoços, cabeças e olhares. Foi quando deitei meu olhar no aviso do curador da sala, Tim Batchelor, para nós, desavizados visitantes:

Following the Protestant Reformation in the early sixteenth century very little religious art was produced in Britain. Portraiture became the dominant art form, and would remain so for centuries. Affluent members of society commissioned artists to produce likenesses of themselves and their families, confirming their place in a family dynasty. The portrait was also a means to display wealth and social status, with patrons shown in their rich clothing and sumptuous surroundings.

O retratismo britânico teve um peso enorme a ponto de ter atraído para cá Van Dyck (que é o grande responsável por introduzir um naturalismo que confrontou a sisudez do retratismo anterior a ele) Peter Lely, Godfrey Kneller, entre outros. Mais do que meio de ganha pão na Sociedade de Cortes eliasiana, é um momento da história da arte não só britânica, mas européia. Ou seja, foi um movimento artístico, com seu ethos específico. Pintar gente aqui ganhou configurações que estrapolaram a estética de geladeira e comida na barriga, virando coisa séria, com direito a hoje em dia contar com capítulo em livro.

- Falando em barriga... quando vão inventar o photoshop for belly's sake?

- Falando em barriga... quando vão inventar o photoshop for belly's sake?

Todos nós sabemos do papel da religião da arte, assunto mais que batido. Agora, eu lia na parede esse comentário “following the Protestant Reformation…” e olhava para a parede e via… rostos! Cabeças, pernas, e tudo isso que compõe o que se convencionou chamar “gente”. Elizabeth, na sala anterior, tinha um pingente sim, pendurado no pescoço: uma fênix! Na mão uma rosa, símbolo dos Tudors. Eu via cetros, adornos, roupas caras mas nenhuma referência explícita à religião.

A Reforma então foi um movimento religioso que disse para a arte “olha, não fale mais de religião”? Conversa estranha essa, já que a arte sempre foi e sempre vai ser utilizada como ferramenta de legitimação estética de ideologias. Por que os reformadores, porque esse movimento religioso buscou abolir a arte religiosa? Será que eles estava abolindo a religião na arte ou uma idéia de arte religiosa?

Foi no final dessa segunda pergunta que dei minha olhada pela sala de novo, e todos aqueles rostos sorriram de volta para mim, e eu lembrei do livro do Keith Thomas, que está aí na lateral do blog (“Leia”). A Reforma trouxe consigo um novo ethos religioso que pregava a falta de necessidade de intermediários entre o crente e a divindade: adorar era um ato individual. O motivo disso tanto vem pelas convicções pessoais dos reformadores (as teses de Lutero, Calvino, etc.), como também pela necessidade de deslegitimar o corpo político da igreja católica medieval, a dizer, o clero. Além disso, devemos lembrar também que é por esse período que a doutrina do individualismo saía do capitalismo mercantilista das embarcações venezianas e genovezas e se tornava status quo. Juntemos tudo isso na mesma panela, reparemos nos adornos de pescoço que eram moda nas roupas da época, e vamos ver que a Reforma e o Retratismo tiraram o crucifixo e o santo e colocaram no lugar um novo deus: a cabeça, “sede da razão”, da inventividade e da capacidade de fazer mais dinheiro.

Então, não é que não se produzia arte religiosa, mas o que acontecia era que um novo mito, nos dizeres frankfurtianos, estava a se colocar no lugar do antigo. O protestantismo atacou as premissas mágicas do catolicismo medieval, que até hoje é refém de um totemismo disfarçado de corpo do Cristo. A reforma queria romper com o jeito de pensar antigo, não só por questões de ordem moral, ou mesmo econômica, mas principalmente política: era um movimento genuinamente da burguesia européia. O que isso quer dizer? Quer dizer que por ela, e principalmente por ela, o conceito sócio-político de “nação” se colocou com mais força no imaginário europeu da época. O quaker era antes de tudo um BRITÂNICO, emancipado do cabresto romano e da Igreja corrupta, quilômetros abaixo, longe da realidade local. Como tantas vezes, a religião foi utilizada como maneira de acentuar a especificidade de uma organização sócio-cultural e política. A Igreja serviu para manter uma Europa fragmentada pós-queda do Império Romano. Agora, com o advento do mercantilismo e da burguesia, novos anseios se apresentavam, entre eles, uma nova representação do sagrado que, como diria Eliade, ajudasse na organização desse novo-profano.

Style was a lawyer involved in the Counter-Reformation religious movement and his portrait is full of symbolic elements. The emblem on the floor and its motto proclaim that the human heart cannot be satisfied by worldly matters, but burns for the spiritual life. Style therefore turns his back on the trappings of his earthly life, represented by his family arms set in the window, by his books and writings and by the small violin. Instead, he moves towards the Church, symbolised by a closed garden, beyond which lies a pagan wilderness, including a classical ruin.

Style (o sujeito na pintura) was a lawyer involved in the Counter-Reformation religious movement and his portrait is full of symbolic elements. The emblem on the floor and its motto proclaim that the human heart cannot be satisfied by worldly matters, but burns for the spiritual life. Style therefore turns his back on the trappings of his earthly life, represented by his family arms set in the window, by his books and writings and by the small violin. Instead, he moves towards the Church, symbolised by a closed garden, beyond which lies a pagan wilderness, including a classical ruin.

Por conta disso tudo, o individualismo capitalista conseguiu se disfarçar de humanismo, que apontava para a cabeça e parecia dizer “razão”, mas na verdade queria dizer “capacidade individual de empreendorismo, de ficar rico mesmo não sendo nobre”. E o “retrato” disso está na arte: a arte britânica, que “por acaso” foi a nação representante maior do capitalismo, pintou o burguês e sua cabeça pensante, sede do cálculo. A rainha estava ali, o rei, o duque, mas todos eles abraçados com o novos-símbolos-velhos de sempre, todos eles apontando para a relação poder/dinheiro. Além disso, Van Dyck e seus companheiros pintaram os novos mecenas, os novos ricos. Essa nova classe, que fez a revolução religiosa, foi buscar na arte sua legitimação também. Orgulhosos, como todos os vencedores, fizeram poses para a posteridade, e contaram com a benevolência do pincel e da tinta, que sempre suaviza os tons de vermelho da história por trás da tela.

O retratismo britânico é expressão artística do declínio de velhos padrões filosóficos e a elevação de um falso-humanismo, onde a cabeça, “sede da razão”, na verdade aparece como o rosto dos novos-senhores do poder, simbolismo com boca e nariz do capital. Não é que a religião não estivesse ali, sr. Tim Batchelor, só que o crucifixo agora era dourado, e mugia quando tocado.

A primeira família capitalista. Da esquerda pra direita: um chapéu, um bezerro e um famoso jogador de cricket.

A primeira família capitalista. Da esquerda pra direita: um chapéu, um bezerro e um famoso jogador de cricket.

Ao final, a Reforma Protestante foi um grande momento da nossa emancipação das cadeias de um ainda teimoso e presente feudalismo, que cheirava a tradição e carne queimada, todavia, na sua arte conseguimos visualizar que a centralização na figura humana-aristocrática era em verdade a implementação de um novo culto, cujas as premissas estão presentes em nossos dias: o individualismo do sujeito-capital, o homem “enquanto dinheiro”. Se deixamos de nos ajoelhar na missa, todos os dias rezamos para Mamon.

Um dos guias do museu contou uma história sobre esse quadro da Elizabeth, que coloquei no começo do post, e que uso para resumir tudo: era costume quando as tropas britânicas saíam para batalhar a rainha mandar esse quadro para o comandante da tropa, com a recomendação que ele pendurasse em um lugar que todos pudessem ver no campo de batalha. Motivo? “Para lembrar para todos quem é que realmente mandava”.

- Vai mandar assim lá niminhacasa vai! -Grrrrrraaaaurrrr...

- Vai mandar assim lá niminhacasa vai! -Grrrrrraaaaurrrr...

E que Deus salve-nos da arte das Rainhas.

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Posted in: Sociologismos.