Lixboa (Parte I – Vontade de Restelo)

Posted on julho 2, 2009

0


Enquanto isso na margem oposta do rio... " - Tá vendo aquele pedaço de pedra láaa embaixo? Então, ali é o bojador. Lisboa tá logo depois. "

Enquanto isso na margem oposta do rio... " - Tá vendo aquele pedaço de pedra láaa embaixo? Então, ali é o bojador. Lixboa tá logo depois. "

Em 2007 eu morei em Lisboa, por conta de uma pesquisa que quis fazer para completar um capítulo da minha dissertação de mestrado. Foi esse o ano que pela primeira vez estaria chegando na zooropa, pão e circo da sociedade ocidental, baluarte da democracia e antigo porto pirata.

Lembro de quando vi o país-nariz lá de cima, o Tejo, a ponte 25 de maio. Lembro do respeito que eu sentia, um misto de marcha-ré na caravela e vontade de pagar tributo. Lembro até hoje da sensação de espanto de menino do interior, a fila do visto, o olha inquisitivo-bonachão do agente da alfândega, o deboche velado da minha sisudez apressada de moço-com-a-papelada em cima. Lembro do alívio do estar-tudo-bem, a mala jogada em cima da esteira, a sensação de estar sozinho com um oceano entre eu e aquele outro lugar que ficou pra lá do atlântico, de nome casa. O encanto misturado com o susto, a timidez com a vontade de desbravar, o senso de responsabilidade e foco com a curiosidade de até mais tarde no bar. Enfim, levei dias para a ficha cair. Ficava andando nas ruas, olhando as placas dos carros, enormes, com o símbolo da UE e repetia para mim mesmo “é… estou aqui mesmo”.

- Paulo Fernandes, brasileiro, classe-média, se apresentando para o serviço SENHOR!

- Paulo Fernandes, brasileiro, classe-média, se apresentando para o serviço SENHOR!

Bem, esse encanto durou alguns meses e até eu sair de Portugal e ir para outros lugares do continente. Digo isso porque fui assaltado de um novo encanto, porque era o tempo deu me fascinar. De comprar postais, lembranças, de contar as moedas, de falar outras línguas. Tudo era novo, instigante, motivo de orgulho e conversa no MSN. Nos primeiríssimos meses aqui, você ainda está com o gosto de férias na boca, então tudo te sai doce da língua. Tudo é lindo, tudo é organizado, tudo é tão diferente do Brasil, país de merda. Facilmente você estabelece a dicotomia galhofeira do lá-aqui. Acha-se investido de um senso crítico automático, ativado assim que entrega o bilhete de embarque, que te autorizaria a ser o próximo presidente do país, não fosse o povinho burro da tua terra que não sabe votar.

- Quêsso, assim fico sem graça companheiro petista.

- Quêsso, assim fico sem graça companheiro petista.

E aí, passa um mês, passa até dois. Você sai da mesa do bar no Chiado e vai pra casa mais cedo, que tem que pegar a linha amarela e subir pra Campo Grande, lar da Torre do Tombo. Paulatinamente a rotina torce a faca no peito da fantasia. Tem que segurar o dinheiro, cumpri prazos, escrever relatórios.

Depois de dois meses morando em Lisboa, exatamente em maio de 2007, a poeira de papel velho começou a fazer efeito nos meus olhos deslumbrados. Dormi e acordei um dia em outra Portugal. Como um personagem de Lobo Antunes, eu comecei a sentir o peso de viver entre os fantasmas de uma terra velha, e por mais que me achasse novidade, vi que era parte dessa paisagem: eu não era ninguém menos que o brazuka, antípoda da piada. Eu saí do Brasil pensando ser muita coisa, e como muita coisa ia encontrar várias coisas. Que aqui seria recepcionado em pleno Chiado, pela nata do pastel. Lento engano, pois quando dei por mim, senti que quando muito era heterônimo, meia mão do pulso inteiro de outro alguém.

Eu senti em 2007 o que eu acho ter sido o momento de auge da discriminação contra os brasileiros em Lisboa. Por mais que você se sentisse inclinado a manter o espírito aberto, paulatinamente eu fui sentindo vontade de gueto. E isso não era só comigo, mas com todos nós. As nossas festas eram de brasileiros, e português era admitido em caso extraordinário. Minha vontade de puxar conversa na rua foi diminuindo, junto com a constatação que gente educada lá, e na Europa no geral, é difícil. Tirando a Alemanha que tem REALMENTE uma cultura acadêmica, aqui você conhece essa tal da geração dos slackers: gente sem muita ambição, em todas as áreas da vida, da profissional à sentimental. Portugal o quadro é mais triste, claro, e isso reflete na xenofobia e na pobreza conceitual sobre o que seja o outro antropológico. Em suma, para quem achou que ia chegar aqui e ia viver de maná e mel literário, o jeito foi se contentar com cerveja, futebol e mulher. Um brinde à vida simples!

Um típica noitada no bairro alto, quando um amigo (ex-oficial das tropas do Infante D. Henrique) ensinava-me como se canta uma mulher portuguesa, em fado menor.

Um típica noitada no bairro alto, quando um amigo (ex-oficial das tropas do D. Afonso Henriques) ensinava-me como se canta uma mulher portuguesa, em fado menor.

Quatro e meses e meio morando em Lisboa e não estava aguentando mais. Não era saudade do feijão, – que o desespero ensina várias coisas, inclusive culinária – mas uma vontade enorme de Restelo. Sim, pode rir agora, porque depois de alguns meses aqui eu só conseguia pensar no Brasil. Lembro que nos últimos dias, escutar o sotaque português na rua me irritava, não aguentava mas nem falar com eles. Tanto preconceito, xenofobia e demais burrices me cansaram absurdamente.Pai, mãe, família e amigos, claro… mas quem me levou pela mão pro aeroporto foi a constatação crua que por mais que eu sacasse euros do caixa eletrônico e tivesse abolido o gerúndio, eu sempre seria e sempre vou ser brasileiro. Foi em Portugal que percebi pela primeira vez a cor verde do meu passaporte. Durante esses meses lá morando, eles fizeram questão de todos os dias de me lembrar que eu não era dali, meu avô podia ter sido, mas eu não. O que no começo tomei como ofensa, gradativamente foi se tornando em um muito-obrigado velado. Precisei ir pra lá para reconhecer o poder da cultura, da identidade e de tudo aquilo que lia no livro e falava no seminário/palestra: Paulo César da C. Fernandes, Brasileiro.

Esse primeiro momento aqui eu considero que foi necessário para perder a inocência e recuperar a gratidão pela pátria que me pariu. Não é papo pós-64 não meu rei, é apenas o relato de carne crua exposta aos lobos da terra-velha. O que vi aqui foi muita ignorância, torpeza e demais baixezas veladas por um sistema econômico-jurídico que eles acreditam melhor. Acho que a única vantagem da Europa é ser velha, o que deu tempo para a máquina burocrática da sociedade se azeitar melhor. Quem diz contrário disso, tá ainda no deslumbre, e no dia que ouvir a primeira grosseria de alfândega, vai botar a mão na cabeça e sentir saudades até do carnaval, do axé e do baile funk.

Valheu (Y) a lembrança paulinhô! Agora tira o pé do chãaaao...

Valheu (Y) a lembrança paulinhô! Agora tira o pé do chãaaao...

E eis que em maio de 2009, dois anos depois, eu me vejo saindo da estação de “metró” do Rossio, bagagem nas costas em dia de sol. Respirei o ar da Praça da Figueira em um looongo suspiro enquanto olhava tudo ao redor: as pensões em seus prédios pombalinos, a bunda do cavalo da estátua de D. Pedro IV (o nosso D. Pedro I) a me mirar com seu olho-cego. Quando dei por mim, estava com um sorriso sardônico no rosto, rindo de mim mesmo. O motivo? Segundos antes tinha tido um pensamento que denuncia ou meu masoquismo, ou meu amadurecimento: senti no peito uma alegria imensa de estar de novo em terras de sua Majestade, o rei morto de Portugal.

Novas observações, novas constatações. Mas isso vai ser motivo do próximo post…

‘té já!

Anúncios