Discipline as Punishment?

Posted on abril 21, 2009

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-Foucault flagado em momento em que jogava adedonha em uma festinha no escritório do Adorno. (Foto de Maio de SESSENTA E NOVE).

Foucault ilustra para Adorno como funciona a CCTV ideológica do Estado na cabeça de maluco.

 

Eu prometi fazer uma análise, já com o sangue-frio recuperado, dos eventos do G 20. De temperar na teoria tudo que vi e vivi estes dois dias que simplesmente foram um marco para mim. Eu pensei em falar várias coisas, de fazer previsões… mas não, vou tratar do que me chamou mais atenção, porque isso casa com que ando discutindo com uma amiga e cumpriria a função deste blog, que é também fazer uma sociologia ultra-contemporânea. Meu ex-orientador, que chamou meu estilo de escrita como “jornalístico demais”, se lesse eu falando de sociologia-da-última-hora ia dar aquele sorrisinho de canto de boca e dizer para todo mundo no corredor do departamento “Viram só? Eu disse que ele é… um DELES”. Bem, fazer o que, quem não tem nobel caça pulitzer: falar do passado é fácil, o trabalho que se tem é chutar caixão. Eu prefiro o front, e acho que esquivar de cacetete faz as idéias fluírem mais.

Todavia, professor, a segurança que eu desfruto pela escolha que fiz de vida blinda-me contra várias paranóias que eu vejo serem recorrentes, tanto na mídia, quanto no cotidiano. Vejo que as pessoas estão sempre se assustando com algo, com medo de algo, receosas de algo, fechadas para algo. Mais que um fato psicológico, o medo é um fato social. Duvida? Pois diga para mim como descrevemos os atos de guerrilha de grupos radicais quando se lançam à ofensiva do status quo objeto de seu desafeto? Oquemesmo-ismo? A guerra do EUA do Jeez-Doubleyou!-Bush não foi a guerra do tributo pago aos financiadores de sua campanha, i.e. a indústria de armas estadunidense, foi a CRUZADA CONTRA O TERROOOOOOOOR. (relâmpagos, arrepios, brrrrrrr!). O medo, sabemos todos, é explorado, exarcebado, diminuído, mas está sempre presente como forma-a-mais-antiga de controle social. Por que hoje seria diferente? Ele é necessário sim, na forma de cautela-caldo-de-galinha-faz-mal-a-ninguém: deixemos os espíritos afoitos para os séculos passados, com sua gentileza. Entretanto, o que vemos é a exploração sistemática dessa emoção. A consequência disso, agora sim psicológica, é automotismo e a robotização dos atores sociais: manda quem é patrão, obedece quem tem medo do não.

 

- Não sir, eu disse o dedo do anel, não o dedo de assinar papel.

- Não senhor, eu disse o dedo do anel, não o dedo de assinar papel! -Jeez!

 

Foi isso que pensei quando li recentemente na Prospect, uma revista (acho que de… SOCIALISTAS! [mais relâmpagos, arrepios, double-brrrrrrr]) mensal de opinião política daqui da Inglaterra, um artigo com o seguinte título Rebels Without a Cause. Título sugestivo, que até me fez lembrar com saudades dos meus sábados lendo os comentários da Veja sobre qualquer movimento que ameaçasse ser de “esquerda” e que logo ganhava esse título de adolescentes do mundo das ideologias. Rebels without a Cause… fui ler, porque até então achava que a revista fosse do meu agrado (sim, eu sou…. COMUNISTA! [gritos, hino da rússia tocado no vinil ao contrário, choro e ranger de dentes]), e tive uma agradável surpresa, contrariando meu receio de ser o autor o Diogo Mainardi falando fino.

O assunto que David Goodhart trata em esse seu artigo é o aumento da vigilância estatal sob a sociedade. Aqui na Inglaterra existe uma discussão ENORME sobre as CCTV’s (Closed-Circuit Television). Por todo Reino Unido estão espalhadas câmeras que filmam-nos em nosso dia-a-dia. Sim, todos tem suas rotinas mapeadas, suas rotas. O sistema advoga ser tão preciso, que um dos seus programas é capaz de diferenciar pessoas de demais objetos, no vídeo. E não só isso, digamos que você resolva fumar um cigarro, e fica tempo demais parado na frente de um caixa eletrônico, ou de um banco, ou prédio do governo. Não se espante – caso você teime em ficar muito tempo no mesmo lugar – se chegar uma viatura do seu lado e os guardas lhe interrogarem o que você está fazendo ali: sim, o sistema tem um logaritmo que separa “lugares-chave” e “posturas suspeitas”. Ficar parado muito tempo na frente de um caixa eletrônico quer dizer que você pode ser um falsário, ou um ladrão, que está esperando a oportunidade de agir, e por aí vai.

 

- Abre um server aí de COD, só que eu não quero ser dos terroristas desta vez.

- Abre um server de COD aí, só que eu não quero ser dos terroristas desta vez.

 

Não preciso dizer o tanto de gente, inclusive você que me lê, que acha essa postura invasiva, perigosa. Cheira a big-brother, hitlerismo, fascismo de bota e fuzil. Muitos grupos de defesa dos direitos civis são acionados e acionam diretamente o governo sobre o conteúdo das filmangens da CCTV’s. Se você entra num pub, tem uma placa avisando que se você ali entrar, estará aceitando ser filmado, e será. Se viaja no ônibus, tem uma. Metrô, várias, claro. – E a privacidade? grita alguém lá do continente. – E os direitos individuais? sussura alguma moldura de Oxford.  Sim, não resta dúvidas que nas mãos de um Estado total, tal material é caso de artigo da Hannah Arendt. Em um Estado total isso seria… mas pera aí, nós vivemos em um Estado total?

We are not living in a police state. Essa é a primeira frase do artigo de Goodhart. O subtítulo é a chave da sua argumentação:  liberal over-reaction makes it harder to have a rational debate about the database state.  Sim, verdade, não vivemos em um Estado-total. Os que ele chama de “liberais” (eu não sei quem é essa gente, sinceramente, e se alguém tiver uma pista histórica, favor remeter para: Rua Arco do Triunfo, Número 18 de Brumário, Parrríii!) estão em uma guerra aberta contra o governo e as câmeras. Já que não vivemos em um Estado que vá usar esse material de forma declaradamente anti-democrática, então, qual o problema?

Medo. De que? Perda da privacidade. Medo do Estado usar indevidamente esse material. Medo de papai noel ver você tomando whisky no ônibus com as duas amigas neo-zelandesas e não te dar o a Gibson Les Paul que você vem sonhando tem tempo. Enfim, receio e suspeita de que algo pode dar errado quando alguém te vigia.

 

- Não, papai noel, não é essa! O sr. não viu a edição da Rolling Stone de maio de 68?

- Não, papai noel, não é essa! O sr. não viu a edição da Rolling Stone de maio de 68?

 

Durante os protestos eu vi vários policiais fazendo filmagens, inclusive um deles com uma câmera profissional fazendo fotos (pasmem!) melhores que as minhas. Mas o que mais vi foram pessoas como eu, com seus celulares e suas câmeras de 12 milhões de megapixels e uma lente marromenos, também registrando tudo. Para cada policial filmando, digamos, em números crus, havia aproximadamente 230.980.234.890.232.330.998.023vírgula12 pessoas fazendo fotos tipo-facebook: minhas férias no G 20. Eu, com meu celular, captei violência policial. Com a câmera fiquei em cima de um policial e um manifestante, e o policial ficou o tempo todo me olhando nervoso, e eu senti CLARAMENTE que ele se sentia ameaçado por mim e meu poder de registro. Se eu dissesse que eu, mais o grupo de pessoas como eu, evitamos e contemos a violência policial no nosso setor, vocês achariam exagero? Se sim, começem a achar que não. A balança do “policiamento” está virando com o advento das novas tecnologias e técnicas de tratamento da informação. Estamos longe hoje em dia de sermos apenas vítimas de um Estado-Gerente de estoque da violência classista. Se de um lado eles tem a borracha e a pólvora, do nosso temos chips e baterias de lítio, e conseguimos paulatinamente aumentar o volume do peso que exercemos sobre a história com os cliques que damos e os bytes que registramos e carregamos em nossos bolsos.

These rebels without a cause might, in normal times, be mildly risible. But these are not normal times: the combination of new technology and the ever rising expectations that the public have of state services means that we are unavoidably living in a new era of the database state, and a cool, technocratic debate is required to establish its parameters. The shrill politicisation of the liberty lobby makes this harder. 

É ciência-política de primeiro semestre lembrar que o Estado TAMBÉM surge por meio de um contrato social que se estabelece a partir do momento em que se abre mão das liberdades individuais. Sim, companheiro e companheira de partido, a democracia é TAMBÉM a supressão não da tua vontade, mas do escopo de tua ação. Diferente disso é conversa de rodinha de violão, anarquismo de ficar pelado abraçado com pé de pau.

Nonetheless, the liberty lobby is unimaginatively one-sided. People want privacy where it matters., but they are also prepared to trade it off for other things – like safety from terrorism, or to stop tragedies like Baby P. In fact, people happily give up their privacy every day to private or public bodies in return for the smallest convenience. The Google’s new “latitude” web-site. It allows you to register your mobile phone. If you do this, and your friends do too, you can see everyone is on a map, located by the chip in their phone. On a night our in central London, or in downtown New York, this could be very useful: has everyone got to the party or are they already moving on? Latitude has caused a minor storm among the privacy lobby – but you can be sure it will be popular.

Por isso, acho que há extremo zelo, e até paranóia quando o assunto é a vigilância estatal e as liberdades individuais. Aposto que você tá achando isso bem natural, afinal eu assumi que sou… COMUNISTA (joga pedra na Geni, sons de constituções sendo rasgadas com baionetas), e gentinha como eu acha que o Estado pode tudo, certo? Errado. Mas ao mesmo tempo eu não compro essa conversa de liberal (x=2y-ain?) adorador do bezerro de ouro de wall street. O que vejo hoje em dia é o contrário disso, e um crescimento da possibilidade da policiamento do INDIVÍDUO sobre o Estado. E acreditem, tenho mais medo disso do que o contrário. Louco? Não, eu lembro do velho Durkheim quando disse que acreditava em democracia REPRESENTATIVA, e que para ela funcionar o vácuo entre o Estado e o indivíduo devia ser preenchido por um corpo político autônomo, capaz de lidar com ambos os lados da balança, governo e povo, cratia e demos. Um Estado onde os indivíduos estão sempre próximos do poder descamba para a demagogia, marionete da “mentalidade de turba”. E nessas horas eu fecho com o velho e bom Aristóteles: para governar tem que SABER DAS COISAS. Sem medo de soar aristocrático, estes anos todos respirando poeira de livro e praticando a arte milenar de esquivar de cacetete de seu polícia me ensinaram que o povo, assim como os que o governam, muitas vezes da missa não sabe o domingo. E como 1862 ensinou, são excelentes como massa de manobra, mas péssimos como “novos-Gerentes”.

 

- Nossa lógica é bem simples de entender. Então, podemos ser situação?

- Nossa lógica é bem simples de entender. Então, podemos ser situação?

 

Ando sem medo na rua. Quem não deve não teme, e além disso, precisamos entender que tudo isso faz parte da revolução que estamos inseridos agora. Não perceberam? Poisé, nunca percebemos. Estamos vivendo um momento de ENORMES mudanças. G 20, problemas de meio-ambiente, conflitos políticos. Crise em chinês significa também “oportunidade”, e nós estamos tendo a nossa: a geração dos slackers está saindo da casa da mãe-pai e indo ajudar a molecada que grita sem ter tido tempo de ler tudo ainda. E para viver isso temos que perder os medos, superar as paranóias que nos são vendidas por TODOS os lados. Fascitas com seu Estado-total são tão perigoso quanto liberais (!&@ˆ@!&90 ????) e suas economias de número no painel do prédio. Espero que cresça sim o papel do Estado, e com ele a vigilância, mas principalmente o CUIDADO. Sim, mais que vigiar para então punir, eu espero que as novas formas políticas que conheceremos ao fim desse processo de adaptação às novas realidade sócio-tecno-culturais emerjam para cumprir sua parte no antigo contrato, e organizar a encrenca, não só lamber as feridas.

 

-Quantas vezes eu vou ter que dizer que "Paulo Fernandes" é um nome muito comum? Fernando Henrique Cardoso? Há sim, esse eu conheço! Tô liberado?

-Quantas vezes eu vou ter que dizer que "Paulo Fernandes" é um nome muito comum? Fernando Henrique Cardoso? Há sim, esse eu conheço! Tô liberado?

 

Mais que um mero bombeiro das externalidades de um sistema econômico envelhecido, o Estado deve emergir mais consciente do seu papel. Para isso, terá que lançar mão de novos recursos, e por ser mais presente, sua presença se fará mais notada. Por isso, aposente a cartilha e perca o medo. Se algo der errado, temos o youtube, Osama, Obama, e demais heróis da democracia.

 

Clic!

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