Quase-Epitáfio ou o Ainda-Cadáver Maranhense.

Posted on abril 15, 2009

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Três ministros do TSE em seu ofício de pescar politicagem ali na Praia do Calhau.

Três ministros do TSE em seu ofício de pescar politicagem ali na Praia do Calhau.

 

Eu estava meio caminho de cumprir minha promessa de fazer uma análise de todos esses eventos que o G20 trouxe consigo, quando recebi uma notícia que me deixou à beira de uma depressão, verdadeira.

Sim, apesar de comungar com Weber quando ele diz que o ofício do sociólogo é um subentendido elogio do exagero, não estou desta vez buscando tipo-idealizar nada que não seja externalizar a tristeza que me assaltou, e que me tomou uma noite tranqüila de finalização de leituras que acho que me faltam para falar de tudo que ando pensando por estes dias. Prometo, o farei, esta semana o mais tardar. Todavia, e infelizmente, o momento agora é para outros epitáfios.

 

Enquanto isso, na baixada maranhense, Dom Pedro ensina para as moiçolas como se toca uma nação, desde sempre, em Si(arney)-menor.

Enquanto isso, na baixada maranhense, Dom Pedro ensina para as moiçolas como se toca uma nação "Desde Sempre", em Si(arney)-menor.

 

Sim, epitáfio, de um cadáver tão vivo quanto o desejo meu e seu de ver a política brasileira tomar outros contornos. Epitáfio que não é a palavra que fecha o túmulo, mas o canto que lembra o que ali jaz deitado. Esse cadáver é a política maranhense, que desde sempre foi alvo de ladainhas e extrema-unções da família feudal das mais antigas desse país. Morto ambulante, Brás Cubas de um tempo que não quer passar. Ao redor do buraco – cavado durante mais de meio século de politicagem, assassinatos, corrupção e tudo que sua mente almodovariana consegue imaginar – as aves de rapina que decretaram aberta a temporada de bicar a carne cansada, antes mesmo de qualquer amém. 

 

Dom Pedro, desta vez ilustrando como se mata a palavra, ao modo Sarney-desde-sempre.

Pedro Dón, desta vez ilustrando como se mata a palavra, ao modo Sarney-desde-sempre.

 

Eu fui criado em São Luis, para quem não sabe. Sou paulista de nascimento, mas sou maranhense por criação, e tenho um orgulho tão grande disso que todos que me conhecem sabem da minha teimosia em – apesar de ter morado por mais de 17 anos em Brasília – manter meu sotaque, os maneirismos. Vivi dentro dessa terra que muita gente só ouve de fora: o estado com menor IDH do país, miséria, fome, mais miséria, dessa miséria africana que a gente vê em zona de guerra e pela televisão e dá graças a Deus pelo Haíti não (?) ser aqui.

Estudei no Marista Maranhense e fui colega de turma de uma das sobrinhas do Sarney. Isso era normal para muita gente: topar com um Sarney. Eles estavam sempre nas notícias (afinal, eles são os donos delas), nos nomes das ruas, nas pontes. Nos rachas, no carro vidro-fumê-ar-condicionado, nos camarotes vips. Sair no calor só no dia de eleição (quando elas começaram a ser necessárias, que durante a ditadura era tudo mais fácil), quando eles desciam aos montes das mansões ali pras bandas do Calhau, dos casarões do Olho d’água, e vinham apertar a mão daquela gente que os viam como os ainda-salvadores da tirania dos Viana. Era então quando você podia vê-los, com os vidros dos carros abertos, acenando, ali pelo Anjo da Guarda, Coroadinho, ou mesmo pelo São Francisco, Renascença, redutos da classe média. Mesma coisa em Imperatriz (a cidade que o Sarney-pai deu para Roseana), Pinheiro, entre outras cidades do estado: Sarneys e mais Sarneys, um sobrenome com anseios de nação. 

 

 É por esse e outros motivos, ilustres comparsas e capangas, que eu peço que deem outra chance para a Rosinha: ela prometeu que vai se comportar desta vez.

- E é por esse e outros motivos, ilustres comparsas e capangas, que eu peço que deem outra chance para a Rosinha: ela prometeu que vai se comportar desta vez.

 

Mudei-me para Brasília em 1992. e lembro até hoje de duas coisas que me espantaram quando lá cheguei: a quantidade de árvores na rua, e minha mãe dizendo que minha irmã ia estudar na escola PÚBLICA: “Como assim mãe, o que ela fez?”. Sim, em São Luis (que é a Capital, diga-se de passagem) estudar na escola Pública era sinal de PUNIÇÃO: filho repetente, vagabundo, marginal, maconheiro. As escolas do governo (Escola Fundamental Marly Sarney, Governador José Sarney, etc.) sempre foram deploráveis, e só mesmo pobre queria estudar lá. Quem podia ia para a particular, pagava claro, mas tinha o prazer de desfrutar do privilégio de ser colega de classe de suserano, o que fazia o peso da enxada parecer ser menor.

Tudo que eu vi nos meus 11 anos que vivi em São Luis foi a miséria causada por uma família que sistematicamente assaltou, roubou e matou o quanto pôde para se manter no poder. Acha o ACM ruim? A Bahia ao menos está melhor que o Maranhão meu amigo. Esse foi tarde, é fato, mas poucos brasileiros têm noção o que o nome Sarney significa. Ele é o ícone de um Brasil que a gente estuda em livro e reza todo o dia pra que São Jorge desça da lua e venha tomar conta. De um Brasil tristemente atado à um secularismo seco de terra arrasada, feitoria de lá-longe, lugar de quem matar primeiro. José Sarney, que acreditem, surgiu como herói libertador na história do Maranhão, em pouco tempo se converteu na personificação de tudo que nós, sociólogos, cientistas sociais, políticos, ou simples brasileiros com um pouco de senso crítico para-além-da-Veja queremos erradicar com a ponta da caneta ou da língua. 

Sim, foi por lembrar das minhas peladas no campão de terra da minha rua, dos domingos na praia do Caolho, ou dos meus novembros pegando caju no sítio dos outros, foi por nunca esquecer de tudo que o Maranhão representa em mim, para o meu caráter e personalidade, que foi com o peso de uma notícia fúnebre, ou melhor, de um câncer (doença que mata deixando vivo) que soube que corremos o sério perigo de Roseana Sarney ser empossada Governadora do Maranhão. Roseana Sarney meus amigos, que na eleição contra Cafeteira, quandou soube que ia perder, ligou aos berros pro pai dela, chamando ele de fraco, e mandou ele comprar a eleição para ela. Ele assim o fez: meia dúzia de telefonemas depois, as pesquisas “viraram” a favor dela. Que era conhecida em Brasília pela noitadas mutcholokas com Luís Estevão e Fernandinho-Beiramar Collor de Melo. Que é piada em São Luis por ser conhecida pelo destempero, pessoa obscecada, doente. Uma figura mais digna de pena do que raiva, mas de qualquer maneira, uma representante legítima do Jeito-Sarney de fazer política. Filha do Casa-Grande da Senzala maranhense, herdeira do Maranhão triste, pobre, mal alimentado por não ter dente de tanto mastigar as pedras dos descaminhos de sua política. 

Com tristeza e muita dor que mais uma vez somos notificados à permanecer até mais tarde nesse velório. O morto não quer morrer, melhor dizendo, não deixam ele morrer.: para descansar há de se ter o silêncio dos sete palmos. Todavia, esse privilégio é constantemente negado por essa corja de loucos em suas tentativas de compensar o vazio existencial de uma vida de crimes contra a sociedade gramsciana (política e civil) por esse apego ao poder. Não sei das culpas de Jackson Lago, se houve crime eleitoral ou não, mas lembro da alegria e da FESTA que teve em São Luis quando Roseana perdeu na última eleição. Lembro dos amigos abraçados nas ruas, nas fotos que me mandaram, das inúmeras comemorações e queimas de fogos para o momento que queria ser a pá de cal, sinal da cruz que parecia ter sido removida das costas de toda uma população.

 

Minhas rugas são o testemunho da minha larga experiência como filha do meu pai.

Minhas rugas são o testemunho da minha larga experiência como filha-de-meu-pai.

 

É por essas e outras que me enojo do PT, que era um partido onde a ética era bandeira, e que nós elegemos para que ao menos iniciassem uma reforma política. Não me espanto com o TSE, ou qualquer outro Tribunal desse país, porque o TSE só ratificou o que mandaram eles ratificassem, como mais um instrumento do status quo corrupto. Com essa decisão, se ela for realmente levada para frente e essa mulher virar governadora, o Brasil como um TODO perde, por mais uma vez nossa sociedade gramsciana (sim, a política, mas a civil também) permitir que algo assim aconteça. Marca um retrocesso estrondoso, um sinal positivo para as oligarquias de sempre continuarem fazendo o que sempre fizeram, e que repito: roubar, corromper, matar. 

Oxalá seja isso tudo um sonho ruim. Oxalá alguém me acorde com a notícia de que um lampejo de dignidade varou o céu da pátria-Brasil e decretaram-se novas eleições, o que seja. Tudo que quero é que deixem o pobre putrefado ser comido pelos vermes, criando lugar para uma nova classe política (civil também) não só no Maranhão, mas para o florão da américa, iluminado sendo o sol desse novo mundo.

 

Dom Sarney, em trajes praieiros, flagrado no momento que recebeu a notícia que a tesoura de Pedro estava cega.

Dom Sarney, em trajes praieiros, flagrado no momento que recebeu a notícia que a tesoura de Pedro estava cega.

 

Entretanto, há você que não se importa, ou nem mesmo sabe do que estou falando. Há você-brasileiro que a vida é novela, que política não te interessa, que deixou 50 reais na blitz do detran. Infelizmente há você, e você não só elege como mantém essa gente no poder, quando fica calado e omisso no conforto da sua tv, ou na assinatura do Estado do Maranhão-Sarney.  Há você, infelizmente, há você. E para você, eu gostaria de terminar, dizendo apenas uma coisa…

Meus pêsames, sinceros: o morto é também você.

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