G20: News from the front. (Wednesday & City Protests)

Posted on abril 1, 2009

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De um jeito ou de outro, chegamos lá.

De um jeito ou de outro, chegamos lá.

Bem, eu não ia.

Sim, não ia: por que? Estava tudo pronto aqui quando eu soube que os grupos anarquistas iam se infiltrar nas passeatas pacíficas e começar as confusões de dentro deles. Eu queria ir para tirar fotos, protestar, me defender se fosse o caso, mas notei que ia ter mais confusão do que protesto. Fiquei chateado, mas como quinta que era realmente o grande dia, as passeatas na City nesta quarta não tinham essa importância toda, ao meu ver…

Ledo engano número 1.

Acabei decidindo ir, depois de conversar com amigos. Saí daqui eram mais de 14hrs, e eu pensei que os confrontos já teriam acabado, estaria tudo em paz, e eu poderia me vincultar com os grupos pró-palestina, tirar fotos, fazer vídeos desse que é um dos grandes acontecimentos do ano: primeira reunião do G20, em Londres, no eclipse do capitalismo. Foi o que eu pensei…

Ledo engano número 2.

Enquanto isso, em algum lugar da obra de Hobsbawn, a civilização européia verbaliza sua indignação. Quem traduzir o slogan em menos de duas linhas, joga duas rodadas seguidas.

Enquanto isso, em algum lugar da obra de Hobsbawn, a civilização européia verbaliza sua indignação. Quem traduzir o slogan em menos de duas linhas, joga duas rodadas seguidas.

Encontrei com um amigo em Stratford, e pegamos a Central Line até Liverpool Street. Descemos do metrô, saímos na rua e parecia que tudo ia bem: alguns policiais apenas, gente andando pelas ruas fechadas para o trânsito, nada demais. Descemos a Bishopgate, encontramos o primeiro grupo de manifestantes: eram os grupos de defesa do meio-ambiente, e outros grupos. Todos tranqüilos, a polícia só observava, eram gentis conosco: “Sir, could you please take your photos from the sidewalk?”. Nenhum problema. Andamos pelo meio deles, fiz fotos, vídeos das perfomances, alguns discursos, e tudo era ordem e paz.

A "zona verde": limite da Av. Bishop Gate, onde estavam reunidos vários grupos de defesa do meio-ambiente.

A "zona verde": limite da Av. Bishop Gate, onde estavam reunidos vários grupos de defesa do meio-ambiente.

Foi quando virei para o meu amigo e disse: “-Desçamos para o Bank of England, que mais cedo teve problemas lá”.

Sim, fiquei sabendo no jornal que os manifestantes entraram no RBS (Royal Bank of Scotland), quebradeira, polícia sendo acuada, sangue, etc. Mas como já eram 17hrs, eu pensei que estaria tudo bem, queria só fazer as fotos dos estragos.

Fomos descendo a Threadneedle, e fui notando o aumento de policiais. Começaram a aparecer bloqueios, ruas fechadas, furgões, helicópteros. Tudo bem, seguimos em frente, até que ficarmos junto com um dos “Quatro Cavaleiros do Apocalipse do Sistema Mundial”: os protestantes de dividiram em 4 grupos, cada um vindo de uma estação de metrô perto do Banco. Nós estávamos com o grupo que vinha de Liverpool Street. Os grupos foram isolados por bloqueios policiais, e, bem… essa é a origem do problema.

Os bloqueios. Esse na frente do RBS. Seguimos para a esquerda.

Os bloqueios. Esse na frente do RBS. Seguimos para a esquerda.

Fomos andando para a frente, até ficarmos de frente com a polícia. Chegaram duas moças que começaram a fazer performances, 15 minutos de fama, essas coisas. Depois um grupo de jovens, generation Y, skates, all-star, começaram a gritar palavras de ordem. Eu estava fazendo um vídeo quando só ouvi um grito comum e um barulho forte: o grupo em nossa frente, que estava isolado de nós por outro grupo de policiais começou a empurrar e briga começou. Garrafas voando, cacetetes, muita confusão e gritaria.

front-1-policia-rapaz-com-bandeira-no-centro

O grupo que estava na nossa frente e começou a briga. Esse é o ápice do começo da confusão.

E eu? Eu nessa hora estava exatamente NA FRENTE dos policiais, que começaram a avançar rumo ao nosso grupo, que tentava se solidarizar com o grupo que começou a confusão. Voaram garrafas de leite nos policiais, de vidro, alguns partiram para trocar socos. E eu? Eu tava na frente disso tudo, quando longe 1 metro, 1 metro e meio dos policiais.

A polícia começa a avançar na nossa direção: motivo? uma famigerada garrafa de leite.

A polícia começa a avançar na nossa direção: motivo? uma famigerada garrafa de leite.

Eu não tive como correr, porque já de outros carnavais sei que correr que nem um louco uma hora dessas tem o risco de ser pisado. O que eu podia fazer? Fiquei parado, estava com uma câmera enorme pendurada no pescoço, telefone na mão filmando, estojo da máquina atravessado, enfim, nada operacional. Eu vi um pessoal da imprensa na linha de frente, e me juntei com eles. Olhei para os policiais, juntei todo sangue frio que tinha, e fiquei parado. A polícia avançou, eu me mantive junto com a primeira linha. Começou a gritaria para entrelaçar os braços. Eu segui. Coloquei a cam na minha frente voltada para a polícia e esperei. As coisas se acalmaram um pouco. Eu soltei, voltei para perto da imprensa, fui fazer vídeo, fotos. As coisas foram se acalmando, até que cessou. Bateu aquele alívio, você começa a sentir a adrenalina dar uma baixada, etc. Voltei a ficar bem na frente, afinal, tinha acabado tudo, eu podia fazer umas fotos mais trabalhadas, sem problema…

Ledo engano número 3.

- Sim, agora podemos dialogar? Certo? - Errado.

- Sim, agora podemos dialogar? Certo? - Errado.

Estava fazendo fotos quando um grupo resolveu comprar briga de novo, só que desta vez, e sem percebermos, um grupo de policiais se colocou atrás de nós também. Ficamos imprensados entre dois grupos de policiais. Éramos em 20, 30 no máximo. A lógica da polícia nesses momentos é qual? Estoura o confronto, eles tentam isolar o grupo da frente, que é o dos mais exaltados, do resto da multidão. Feito isso, colocam eles num corredor, e depois… todo mundo vai passear de camburão até a delegacia: telefonema pra mãe, pro pai, pra embaixada… embaixada?

O que é uma foto para quem já está enquadrado?

O que é uma foto para quem já está enquadrado?

Sim, foi o que eu pensei. Quando vi onde estava eu pensei “ok, vou voltar de graça pra casa”. Subiu um nervosismo mas pensei que os policiais me filmaram a tarde toda e sabiam que eu não tinha feito nada. Eu era o único que parecia “imprensa” (sim, os verdadeiros tinham ido embora já tinha um tempo, posicionados em outro lugar, por justamente saberem disso) no meio dos que foram isolados. Aproveitei e banquei o “azarado”: puxei conversa com os policiais, e quando eu vi o batalhão do “riot control” (notei que aqui tem duas polícias de choque) chegando e andando no meio da gente, chutando quem tinha sentado no chão para conter o avanço da polícia, eu dei minhas costas pros policiais e voltei a tirar fotos. Não tinha o que fazer, o jeito era parecer que estava ali a trabalho, e virar as costas pro batalhão foi minha tática de mostrar que era inofensivo, que não estava confrontando eles. Deu certo? Sim: quase todo mundo perto de mim apanhou, eu não tomei nem um empurrão.  

- Olha aqui, eu tenho meus direito. - Sim, e eu tenho o monopólio da violência.

- Olha aqui, eu tenho meus direito. - Sim, e eu tenho o monopólio da violência.

Não fui preso, não apanhei, e depois de um tempo, como nosso grupo de comportou, eles nos liberaram todos. Tenso, muito tenso, mas no final um sentimento de ter vivido NA história: de estar no epicentro de um acontecimento global. O Banco da Inglaterra do meu lado, garrafas voando, manifestantes doutrinando os policiais: “O Capitalismo está agonizando mate“. Muita confusão, mas no geral eu senti que o recado foi dado. Foi um evento na minha vida que vou carregar para sempre comigo. Como falei para o amigo que me acompanhou, um dia direi para os meus netos que conheci a História em Londres, no meio de cacetetes e garrafas de leite.

Momento que a polícia foi embora, cabisbaixos, por não terem sido páreos para a minha ética da malandragem.

Momento que a polícia foi embora, cabisbaixos, por não terem sido páreos para a minha ética da malandragem.

Daqui algumas horas começa o encontro propriamente dito, o G20, no Excel Centre, pouco mais de quilômetro da minha casa. O lugar é estratégico, tudo ao redor estará fechado, mas eu tentarei ir novamente. Ao final desta maratona, e depois de ler todas as notícias relacionadas ao evento, eu escreverei algo mais sociológico. Por enquanto, a adrenalina que ainda não baixou não me permite.

No mais torçam por mim. Quem quiser mais informações sobre as manifestações, clique aqui. E quem acha que não foi bem assim, vá aqui.

"We'll see you tomorrow, punk".

"We'll see you tomorrow, punk".

 

 

Good Night, and Good Luck.

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Posted in: Sociologismos.