War & Peace: Crime & Punishment

Posted on março 27, 2009

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Eu passei estes dias todos sem postar nada por estar digerindo um assunto que mexe com todo o planeta: o conflito entre israelenses e palestinos. É um tema que sempre me interessou, mesmo antes do 11 de setembro, por ser emblemático na demonstração de nossa hipocrisia. Passei a semana mastigando o assunto, sem engolir, adiando falar algo tanto por querer mais informações, tanto por estar construindo minha argumentação de maneira a refletir o que penso o mais claramente possível, porque, como vocês irão ver, eu não sou o frequentador mais assíduo da esquina do consenso.

Esta foi uma semana de muita discussão sobre o tema aqui na Inglaterra, pois a confiança do povo inglês na classe política do país caiu muito, segundo pesquisas feitas pela BBC e outros veículos de comunicação, muito devido às mentiras de Tony Blair & comparsas para convencer o povo inglês da necessidade da “Britânia” ir com os EUA para a “guerra contra o terror”. Os conflitos israel-palestina acabam caindo nesse caldeirão que é as relações Reino Unido – Oriente Médio, gerando sempre interesse e vigilância sobre as atitudes e posturas do governo local sobre esse assunto. 

Antes de iniciar qualquer discussão, vamos às notícias. A primeira saiu no The Independent, em sua edição de 20 deste mês:

 

"Israel's dirty secrets in Gaza: army veterans reveal how they gunned down innocent Palestinian families and destroyed homes and farms".

Israel's dirty secrets in Gaza: army veterans reveal how they gunned down innocent Palestinian families and destroyed homes and farms.

 

 

Depois, o Guardian também fez primeira página com o assunto, dia 24:

 

New evidence os Israel's Gaza war crimes revealed.

New evidence os Israel's Gaza war crimes revealed.

 

 

Antes de me aprofundar, passo a palavra a um soldado israelense que faz um relato das ordens que recebeu quando no campo de batalha. A notícia na integra pode ser lida no artigo do Independent, que vinculei no logo do jornal com a chamada da notícia.

At the beginning the directive was to enter a house with an armoured vehicle, to break the door down, to start shooting inside and to ascend floor by floor and – I call it murder – to go from floor by floor and to shoot at everyone we identify. In the beginning I asked myself how could this make sense? Higher-ups said it is permissible because everyone left in the city [Gaza City] is culpable because the didn’t run way. This frightened me a bit. I tried to influence it as much as possible, despite my low rank, to change it. In the end the directive was to go into a house, switch on loudspeakers and tell them ‘you have five minutes to run away and whoever doesn’t will be killed’.

Não colocarei todos os relatos, tanto porque não são nenhuma novidade para quem acompanha o tema, e também porque eles se repetem em ambos os jornais: os próprios soldados israelenses foram gravados em vídeo dando esses relatos em uma universidade de Israel. Contam não só as ordens para matar civis, entre eles crianças e idosos, mas também como isso era feito, como se lê no artigo. A notícia do Guardian trás também o relato, além de fotos do próprio jornal de circulação interna das forças armadas israelenses, de crianças sendo usadas como escudo humano: numa das fotos, uma criança é amarrada com arame farpado na frente de um veículo armado, usada como “proteção” para o motorista e o passageiro, caso o veículo seja alvejado. Fala também de como drones, que são conhecidos pelo seu alto poder de precisão (como disse um general do exército de Israel, tão preciso que se identifica as cores da roupa do alvo), foram usados para disparar mísseis anti-tanque dentro da sala de estar de uma família palestina, que via televisão. A única sobrevivente, uma menina, relata como ficou tentando recolher os pedaços de seus parentes, numa espécie de quebra-cabeça macabro patrocionado pela tecnologia “precisa” e assassina do Estado de Israel.

O que dizer disso tudo? Que finalmente autores como Tariq Ali, Noam Chomsky, Edward Said, Norman Filkenstein (esse judeu, de pais que estiveram em campos de concentração alemães) vão ser lidos e discutidos. Que finalmente a visão de “pobres coitados da história” que parte dos judeus se aproveitou para cometer atrocidades, vai cair por terra, porque começa-se a enxergar o óbvio: antes de judeus, eles são humanos, e alguns deles são desse tipo que vemos tanto por aí, que mata, pratica crueldades, é racista, sádico, etc. Depois de tanto matar, finalmente, eles serão vistos como vilões também.

Apesar que toda a vez que vemos uma ofensiva israelense sobre gaza na televisão os números de mortos do lado dos palestinos é muito superior em comparação ao número de israelenses, parece que todos nós sempre assistimos isso com um sentimento de que eles são autorizados a fazer isso. Autorizados? Por quem? Pela ONU, ninguém menos, que em maio de 1948 deu seu aval para os tratores dos da tribo de judah passar por cima de tudo e todos, assim sendo concedida a Israel sua “independência”.

A criação do Estado de Israel foi um desses inúmeros erros que a ONU cometeu na sua covardia de braço das potências mundiais e dos interesses dos grupos por trás da sustenção desses poderes. Acha duro demais meu tom? Está querendo me chamar de anti-semita? Tudo bem, mas eu te digo que você me chamaria de anti-brasileiro, ou anti-qualquer-coisa, se tivesse sido o Brasil ou qualquer-coisa criado da maneira como Israel foi criado: depois de mais de 1900 anos, desde as últimas campanhas romanas e a expulsão definitiva em 70 d.C, depois da tentativa frustada de retomada do território em 66, membros da comunidade política judia viram nos crimes cometidos contra o seu povo pelo nazismo a chance para fazer demandas. Lembrando também da influência que eles sempre tiveram como “financiadores”, como fornecedores de capital, foi só juntar seis com meia-dúzia: em um cenário mundial onde as antigas potências estavam devastadas e precisando de dinheiro, não me parece uma coincidência a criação de Israel ter sido aprovada e aceita de forma tão célere, sem uma discussão ou mesmo alguém que se perguntasse singelamente “mas, pera lá… ouvi falar que tem gente que mora por aquelas bandas…”.

Bem, ao mesmo tempo que sou contrário à criação de Israel nos moldes que foi feito, eu também não aprovo a solução de dinamitar todo mundo, agora mais de 60 anos depois do evento. Falei anteriormente que o povo judeu finalmente está sendo visto como ser humano, que erra e comete atrocidades, mas ao mesmo tempo e por isso mesmo, merece amparo, proteção e direito a existência. As crianças que brincam pelas ruas de Jerusalém, os jovens que querem ir para uma boite têm o direito de não morrerem, vítimas de atentados. Eles não tem culpa que parte dos seus antepassados, muitos deles que nunca sequer estiveram perto de Auschwitz ou similares, aproveitaram-se do sofrimento de outros como moeda de troca no mercado dos poderes.

Todavia, os eleitores e adultos têm responsabilidade tanto quanto os que eles elegem, os que eles colocam no poder para representar seus interesses.A partir do momento que esses políticos fazem suas guerras sujas e racistas, dizimando uma população porque ela simplesmente é diferente e não aceita – como você e eu não aceitaríamos – ser expulsa de suas casas e da terra que é sua terra há milênios, o povo israelense tem parte nisso. Tem parte nisso quando não vai às ruas, quando não clama contra essas atrocidades. Vale lembrar que o último homem de Israel que tentou um solução realmente pacífica para o conflito foi morto por radicais judeus. Ou seja, há uma componente cultural por trás dessa matança, que dá o “ok” para os soldados envolverem crianças com arame farpado e desfilarem com elas pelas ruas.  Apesar da luta de grupos judeus anti-sionistas, infelizmente eles são a exceção ainda, e enquanto houver esse racismo, que é inerente a ambos os lados, a matança continua.

Talvez agora você não me chame mais de anti-semita. Que bom, porque realmente não sou. Só lembro mais uma vez que não sou dado a ver coitadinhos com essa facilidade. Judeus morrem e matam, assim como árabes, europeus, africanos, asiáticos, americanos. Não me impressiono com números, mas o que é feito desses números. Acho injusto o que foi feito com eles na segunda guerra mundial, como acho injusto o preconceito que existe até hoje contra o povo alemão por coisas que foram feitas em seu  passado, infeliz, mas passado. E acho mais injusto ainda isso ser usado como escudo ideológico para justificar o que vem sendo feito HOJE. É o que vem sendo feito no PRESENTE que mais me preocupa, pois deixando aos mortos a responsabilidade de cuidar de seus mortos, eu tendo a olhar para o mundo que vivo e me questionar em qual direção estamos andando. Na história reside as lições, mas é o agora o momento de agir.

Espero que esses eventos, esse números e depoimentos sirvam de alerta, e principalmente, de ferramenta para remover a máscara que racistas e criminosos de ambos os lados estejam se escondendo. A Anistia Internacional já pediu que Israel seja indiciado por crimes de guerra, e por desrespeitar a convenção de Haya. Acredito que desta vez algo vai ser feito, porque os EUA têm problema demais para lidar em seu país, e como a fonte de dinheiro que patrocinava o governo anterior secou, junto com ela vai a celeridade estadunidense em apoiar as políticas judias. Sem apoio e dinheiro dos EUA, Israel vai ser obrigado buscar outras alternativas, e aí, acho que a boa e velha “educação” e o velho e bom “diálogo” vão entrar na agenda local com mais força. 

E com isso podemos chegar a um patamar onde não falaremos mais dos seis milhões de judeus mortos, mas dos seis milhões de SERES HUMANOS que foram tão brutalmente tratados. Que não setorizemos mais nossa crueldade, e simbolizemos ela com a suástica, mas que aceitaremos os nazismos corriqueiros do dia-a-dia, no ônibus, na piada racista ou machista, no desrespeito dos governos e potências mundias, na corrupção dos políticos. Que a experiência na solução de conflitos nos leve a enxergar um dia a pobreza, a miséria, como o holocausto ainda presente. No dia que aprendemos a lider de maneira diferente com as diferenças, não existirão mais judeus. Sim, nem palestinos, nem europeus, americanos. Existirá a nação-mundo e as pessoas que somos nós todos, sob a bandeira única dos interesses, políticas e riquezas coletivamente partilhados.

Até lá, caminho longo. A mudança das estruturas, disse o velho Marx e o francês Émile, é lenta, gradual. Revoluções em doses diárias são a ferramenta para a construção da ruptura.

Mas, enquanto isso, que finalmente descansem em paz os cadáveres dos campos de concentração, e que nunca mais eles sirvam de alimento para os abutres de terno e crachá das Nações Unidas.

 

Shalom.

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