The Not Dead

Posted on março 23, 2009

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A foto que congelou seus integrantes no tempo: Frieda, Plath e o sempre-bebê-Nicholas.

A foto que congelou seus integrantes no tempo: Frieda, Plath e o sempre-bebê-Nicholas.

 

Hoje eu passei na banca de jornal ali em Canada Water mais pela força do hábito de tentar ser francês na terra da rainha, e ter um looooongo teabreak na cafeteria dos simpáticos sicilianos que como todo dia, do que realmente buscar algo para o post de hoje. Estava com idéias, que fui obrigado a adiar, pela notícia de primeira página que o The Times estampou na sua edição de hoje. Inicialmente relutei um pouco em explorar o tema, tanto pela sua multidisciplinaridade, como pela sua complexidade para ser um post de blog, mas resolvi arriscar, porque lembrei da relevância sociológica do problema.

O assunto hoje é o suicídio. É um assunto com um poder devastador tremendo, mas que geralmente é tratado pelo seu enfoque clínico, suas manifestações e conseqüências psico-físicas. Para quem não é do ramo não entende o que sociológos podem dizer sobre o assunto. Eu sou obrigado a concordar que na nossa profissão há muito medo de conclusões: somos ótimos coletores de dados e bravos expositores de teorias que não nos pertecem, mas não somos tão corajosos quando alguém nos endereça a simples pergunta “Sim, entendo… mas o que VOCÊ acha disso?”. A resposta geralmente vem com um risinho acadêmico, uma desconversa weberiana e um aceno para o garçom que acelere o pedido da conta, manifestação que você deseja concluir sim, mas a conversa.

Nicholas Hughes, 47, o filho do famoso casal de poetas Ted Hughes e Sylvia Plath foi encontrado enforcado em sua cabana no Alasca, no domingo último. Ele era um biólogo marinho e professor universitário, e sofria de depressão severa. Seria mais uma estória triste se não fosse o aparente glamour que assombra a família: sua mãe também se matou em 1963, por inalação de gás. O suicídio de Plath trouxe para ela, apesar das disputas entre os críticos e teóricos de literatura, toda uma notoriedade, contribuindo para um verdadeiro culto à sua personalidade: Hughes foi acusado de ter contribuido para o estado mental da esposa, foi acusado pelas feministas de ter interfirido em suas publicações, etc. O fato é que o sucídio de Plath foi um acontecimento, tratado por muitos não como algo trágico e penoso, mas como um último gesto de expressão poética de uma alma sensível e atormentada, algo como que o ponto final da grande tentativa de se conhecer e se manifestar literariamente. 

Fiquei penalizado quando li isso. Fiquei imaginando tudo que esse homem enfrentou nos 47 anos de existência dele. Estava lendo e pensativo, quando no mesmo artigo há um comentário de Al Alvarez, crítico e poeta que foi amigo de Plath, a respeito dela e de sua morte:

I would love to think that the culture’s fascination is because Plath is a great and major poet, which she is. But it wouldn’t be true. It is because people are wildly interested in scandal and gossip

Neste momento eu pensei na sociedade britânica, no Sun ser o jornal mais vendido aqui. Nessa sociedade que o primeiro ministro foi prestar respeitos a uma ex-“big-brother” que faleceu no mesmo dia, inclusive, mas nunca deve ter ouvido falar de Plath, quanto mais do filho dela. Foi pensando na sociedade e nas expectativas sociais em cima do indivíduo, que eu me lembrei do velho e bom Durkheim, e tudo que ele nos ensinou sobre o Suicídio.

Le Suicide, que é a tese de doutoramento de Durkheim, é um trabalho pioneiro nas ciências sociais, por todas suas implicações teóricas e metodológicas. Sua problemática de pesquisa surgiu de um assombro do autor, que é também um assombro nosso: por que nas sociedades mais ricas é que se encontram as maiores taxas de suicídio? Realmente é algo que namora o impossível, do ponto de vista econômico, entender como os ricos se matam mais que os pobres. Blasé? Perguntaria o leitor daquele simbolista francês. Não, para explicar o problema Durkheim busca inovar, ao levantar o conceito de anomia: apesar dos diferentes tipos de suicídios, eles podem ser enquadrados em uma grande categoria onde se percebe a não-presença ou o não-reconhecimento formal e informal por parte do indivíduo das “regras” (anomoi; anomos) da sociedade na qual ele se encontra. Em miúdos: o indivíduo olha para os seus arredores e não se vê nele, algo como um não-pertencimento.

Esse seria o suicídio egoístico (anômico também) bem eu sei, mas mesmo nos outros casos de suicídio (altruístico e fatalístico), no meu humilde ponto de vista, o indivíduo não vê entre si e o seu meio a conexão necessária para o manter aqui. Seja buscando a morte pelos outros, pela falta de elos com seu presente, ou um sentimento de impotência social, o certo é que algo se rompe entre a persona do ator social e o meio que deixa de ser seu. Os motivos para isso podem variar, mas acima de tudo há a morte do reconhecimento do de um nomos (que acredito deve ser levado em consideração) presente também como instinto de sobrevivência: o rompimento seria fruto de  uma disfunção (em termos durkheimianos) instalada entre invíduo e sociedade. O que teria força o suficiente para nos fazer negar esse “espírito matilha”, essa herança animal que nos informa que gregariamente temos mais chance de sobreviência? A resposta passa por vários campos do conhecimento humano, todavia, e para entendimento sociológico, fica certo que para morrer o indivíduo deve matar a sociedade em si.

Não vou me alongar em detalhes da obra desse pai da sociologia, mas o certo é que só pensava em Durkheim para entender sociologicamente o gesto de Nicholas Hughes. Uma das frases do artigo deixou claro para mim a relevância ainda presente da obra desse francês para os estudos modernos sobre o tema:

Plath’s suicide in effect froze her children in time so that in the public memory they remained a one-year-old and a two-year-old lying in their cots, carefully sealed off from the gas leaking over their mother in the room next door.

Para o público, para a sociedade no geral, essa sociedade que cultua a morte da mãe de Nicholas, não existe o homem de 47 anos com problemas, tentando levar uma vida normal, que muitas vezes teve que encontrar nos olhares das pessoas aquela pena misturada de curiosidade. Não era o biólogo marinho, fascinado por peixes, que só o fato de ter se mudado para o ALASCA (que no caso dele, era mais que uma metáfora do “mandemo-os para bem longe”) já devia ter informado muita coisa. Não, ele sempre foi, até na sua morte, o filho de 1 ano de sua mãe. Quem leu um artigo seu, quem reconheceria ele na rua? Agora, a foto dele e de sua irmã, quando da época do suicídio de Plath, é emblemática.

Para Nicholas Hughes ser finalmente Nicholas, para ele finalmente aparecer em uma foto de jornal com seus 47 anos, segurando um peixe, com um sorriso algo melancólico no rosto, em pleno Alasca, ele teve que se matar. Não morrer, mas se matar. Teve que tirar sua vida como sua mãe o fez, e ao fazer isso, sem querer acabou dando para a sociedade, que tanto demandou dele sua sanidade e eqüilíbrio, o que ela queria: o circo de horrores, o espetáculo. Nicholas passou 47 anos em que, acredito, sempre se sentiu um pária por sempre ter sido o filho não-morto da morte trágica, criança-sobrevivente do suicídio. Durante 47 verões experimentou o desafrouxar lento dos laços que o prendiam a um mundo que não via como seu, e que se apresentou a ele como não seu desde que tinha apenas 1 ano de existência. Todavia, se antes de se matar Nicholas experimentou a morte lenta e agonizante do social em si, quando o último laço que o prendia ao mundo foi o que segurou seu corpo suspenso no ar em sua cabana no Alasca, a sua morte acabou ironicamente sendo uma confirmação da força da sociedade que o viu nascer: Nicholas acabou sendo o que essa sociedade sempre esperou dele. Não imagino mesmo que ele tenha tentado ser mais famoso que a mãe, pelo contrário, acho que sua morte teve algo como que uma tentativa de redimí-la, de reconhecimento de tudo que ela sofreu. Entretanto, morreu Nicholas Hughes para nascer Nicholas Plath. Os abutres aplaudem, ou fazem um som semelhante a esse, quando do encontro frenético ao redor de sua carcaça.

Durkheim nos disse para tratar os fatos sociais como “coisas”. Os fatos sociais, coercitivos, que são externos aos indivíduo, e que em casos como esse, o assombram. Os fatos sociais demonstram sua materialidade em momentos extremos como esse, quando cobram em preço de sangue a confirmação de um ethos cultural que de muito tem se tornado o pathos por onde andamos sobre, pathos esse ladrilhado com nossos valores mesquinhos e sensacionalistas. Por isso, antes que você me cobre alguma conclusão, eu te dou uma: a sociedade ocidental moderna é cúmplice, braço, pistola, faca e laço de muitos tristes fins como o de Nicholas. Pode soar clichê dizer isso, mas o trabalho de desatar nós não é só do indivíduo, porque o Durkheim entendia por egoísmo não é o que entendemos: no caso de Nicholas foi um grito e a tentativa última de ter sua pessoa atualizada no tempo, o pedido último pelo direito de ter um presente.

Que Nicholas, o biólogo, tenha paz agora. Que sua mãe também tenha, que seu pai, e todos aqueles que nos mostraram o quão frágil é a vida quando andamos esquecidos das coisas simples que nos lembram o porque estarmos aqui. Ando pensando muito nisso, neste meu tempo como hóspede da “civilização moderna”. Cada dia que passa perco menos o assombro de encontrar aqui o que via 8000 kms atlântico “a baixo”. Em todo lugar tem gente, disse o navegador veneziano.

No mais, deixo vocês com um poema que veio nesta mesma edição do The Times, de um militar britânico que serviu no Iraque e teve um bom tempo para pensar no incômodo de não ser o morto, às vezes, e ter que se explicar às aves de rapina. 

 

The Not Dead

by Simon Armitage

We are the not dead.
In battle, life would not say goodbye to us.
And crack-shot snipers seemed to turn a blind eye to us.
And even though guns and grenades let fly at us 
we somehow survived.

We are the not dead.
When we were young and fully alive for her, 
we worshipped Britannia.
We the undersigned 
put our names on the line for her.
From the day we were born we were loaded and primed for her.
Prepared as we were, though, to lie down and die for her, 
we somehow survived.

So why did she cheat on us?
Didn’t we come running when she most needed us?
When tub-thumping preachers 
and bullet-brained leaders 
gave solemn oaths and stirring speeches
then fisted the air and pointed eastwards, 
didn’t we turn our backs on our nearest and dearest?
From runways and slipways Britannia cheered us,
but returning home refused to meet us,
sent out a crowd of back-biting jeerers
and mealy-mouthed sneerers.
Two-timing, two-faced Britannia deceived us.

We are morbidly ill.
Soldiers with nothing but time to kill,
we idle now in everyday clothes and ordinary towns,
blowing up, breaking down.
If we dive for cover or wake in a heap, 
Britannia, from horseback, now crosses the street 
or looks right through us.
We seem changed and ghostly to those who knew us.
The country which flew the red white and blue for us
now shows her true colours.
We are the not dead.
Neither happy and proud 
with a bar-code of medals across the heart
nor laid in a box and draped in a flag,
we wander this no man’s land instead,
creatures of a different stripe – the awkward, unwanted, unlovable type –
haunted with fears and guilt, 
wounded in spirit and mind.

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