Generation B

Posted on março 20, 2009

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- Ei mãe, por gentileza, tenha pelo menos um pouco de cuidado com meu valor de troca!

- Ei mãe, por gentileza, tenha pelo menos um pouco de cuidado com meu valor de troca!

Eu estava com semanas aqui, dando minhas voltas pelas ruas, quando comecei a notar um fato que me chamou a atenção: a quantidade de mães com carrinhos de bebê andando pelas ruas. Jovens, em sua grande maioria desacompanhadas, nos sinais, nos ônibus, supermercados. Apesar do meu deslumbramento de recém-chegado, meu espírito de novidade que me desviava da observação sociológica, o fato chamou – como chama – tanto a atenção, que eu comecei a reparar, e, em poucas semanas, notícias, informações e conversas com antigos residentes começaram a jogar um tanto de luz em um evento que me parecia um tanto estranho, quando se pensa em sociedade européia, tão apegada ao individualismo, econômico ou não.

No meu primeiro mês aqui eu morei em Stratford, que fica na zona 3, que é onde começa o “subúrbio” de Londres. Como todo subúrbio europeu, é o local onde os imigrantes estão. Londres tem 50% de estrangeiros em sua população, mas apesar de ser um número significativo, é como Paris e tantos outros lugares do mundo: essa gente tem um lugar específico, e no caso londrino, ficam da Zona 3 para lá.

Andando pelo centro da cidade, notei que esse fenômeno não era tão recorrente. A city é o lugar de trabalho, tudo bem, mas eu comecei a notar que nas zonas mais ricas da cidade não se via tantas mães assim pelas ruas: vê-se a gente jovem que anda apressada pro serviço, conversando no celular, ouvindo música em seus iPods, etc. Todavia, era entrar na jubilee e pegar o metrô para casa que eu já notava que depois de Canning Town, de Mile End para lá, West Ham depois Stratford, no trem só sobrava as mães (solteiras?) e a “gente de cor”, estrangeiro como eu.  

Ficou notório para mim então que essas mães eram em sua enorme maioria estrangeiras: africanas e do leste europeu, especificamente. Indianas geralmente estão acompanhadas de maridos, as “muçulmanas” (você coloque um monte de gente nesse caldeirão: palestinos, sírios, paquistaneses, afegãos, árabes no geral, etc) também, ou quando sozinhas, as crianças são mais velhas. As “mães de carrinho de bebê” são quase todas africanas ou do leste. Temos exceções, claro, mas eu estava (osso do ofício) à procura de um padrão que explicasse esse fenômeno. 

Depois de observar, busquei respostas, e as explicações começaram a surgir. Primeiramente ouvi uma conversa que a taxa de natalidade no Reino Unido estava decrescente, e que o governo estava incentivando as mães a terem filhos. Eu logo descartei isso, porque esse é um fenômeno não só inglês, mas europeu no geral: filho dá trabalho, como diria Hayek. E além disso, achei muito ingênuo a população responder a um apelo como esse. Imaginei o burocrata da House of Commons vindo à televisão, vestido à moda de Abbey Road, dizendo “minha gente, façam amor não façam guerra” e a massa de Canary Wharf e London Bridge entrando com um abaixo-assinado para o chá das 5 durar o tempo de uma rapidinha. 

Bem, foi numa conversa que pela primeira vez surgiu para mim a palavra “DSS” e depois eu acho que ouvi a expressão “DSS Seekers” mas não faz muito sentido, pensando bem, pois DSS é o Department of Social Security que é vinculado ao DWP que é o Department for Work and Pensions. Esse departamento seria responsável por fornecer aos cidadãos que estão em vulnerabilidade social um benefício na forma de pensão, que nada mais seria que uma ajuda do governo em dinheiro. Não é qualquer cidadão que pode se oferecer para receber: determinadas condições precisam ser cumpridas, e no sitie do DWP isso é melhor explicado. 

No Brasil temos exemplos assim, sabemos bem, como o bolsa-escola, bolsa-família, etc. para pessoas abaixo de um determinado nível de renda. Aqui essa ajuda varia de acordo com o cenário, que a tabela a seguir exemplifica um pouco:

Jobseeker’s Allowance   Contribution-based JSA   

Person aged 16 to 24 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £47.95 

Person aged 25 or over . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £60.50 

Income-based JSA 

Personal allowances 

Single person: 

aged 16 to 24 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £47.95 

aged 25 or over  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £60.50 

Couple: 

with both people aged 16 or 17 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £47.95 

with both people aged 16 or 17, payable in certain circumstances . . . . . . . . . £72.35 

with one person aged 16 or 17, and one person aged 18 to 24 . . . . . . . . . . . £47.95 

with one person aged 16 or 17, and one person aged over 25 . . . . . . . . . . . £60.50 

with both people aged 18 or over . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £94.95 

Lone parents: 

agedunder18 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £47.95 

aged 18 or over . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £60.50 

Dependentchildren . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £52.59 

Premiums 

Family . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £16.75 

Disabled child  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £48.72 

Carer . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £27.75 

Amount added for severe disability 

Single person . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £50.35 

Couple (where one person qualifies)  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .£50.35 

Couple (where both people qualify)  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £100.70 

Pensioner 

Single person . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £63.55 

Couple  . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £94.40 

Disability premium 

Single person . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £25.85 

Couple . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £36.85 

Enhanced disability premium 

Single person . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £12.60 

Couple . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £18.15 

Child . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . £19.60 

Housing costs – deductions for non-dependants 

Amounts are the same as for Income Support 

Reduction in benefit for people in work who are on strike . . . . . . . . . . . £32.50 

Maternity Allowance 

Paid for 39 weeks at a weekly rate equal to 90% of your average gross weekly 

earnings up to a maximum of £117.18. 

(fonte: http://www.dwp.gov.uk/lifeevent/benefits/)

Bem, o propósito desses benefícios seria o de ajudar a população inglesa de baixa renda ou passando por momento de desemprego, etc. Faz parte da idéia defendida por vários autores da política social, e está incluso nos conceitos de “mínimos sociais”, “Estado social”, etc. É ponto pacífico, mesmo para aqueles que não namoram os ideais socialistas modernos que ALGO o governo tem que fazer pela população nessa situação. Se eu encerrasse esta minha discussão aqui não estaria falando nada que qualquer um com um pouco de leitura sobre o tema soubesse, todavia, vamos além, que meu intuito é mostrar como tudo nesta vida tem seus pros and cons.

Estrangeiro nenhum fora da europa pode aplicar para receber benefício, de início. Cidadãos europeus podem, mas não todos, há alguns países de fora. Claro, tinha que ter um limite que senão o custo seria enorme, e nós sabemos o quanto governos sempre reclamam da falta de dinheiro quando o assunto são custeios de origem social.

Você que me leu até aqui já ligou os pontos, e já percebeu para onde quero ir. Viu que ali na tabela há um adicional para crianças, ajuda moradia. Sim, é verdade: como eu disse anteriormente, o montante de dinheiro recebido na forma das pensões varia de acordo com o cenário. Mas você se intriga pelo fato deu dizer que não são todos os estrangeiros que recebem os benefícios. Africanos não são europeus (“ufa!” sussurrou alguém na circle line), primeiro ponto. O segundo é que a maioria dos países do leste europeu não estão na U.E. e não têm o direito ao benefício. Por que então tanto carrinho de bebê com com crianças justamente desses grupos… “Opa!” você pensou. Sim meu amigo e amiga, elas (as mães) não são “cidadãs européias”, mas o toddler bilíngue ou a criança de peito é um honrado súdito da rainha. Em pouco tempo falarão o cockney dos subúrbios quando na rua, e sua língua materna quando em casa, tudo isso com um passaporte inglês no bolso.

Até onde me informei, a “tática” seria vir para cá, fugir da imigração um tempo, engravidar, conseguir ter a criança… e pronto. O governo te dá moradia, ajuda a pagar as contas dessa moradia e mais a pensão. A criança tem direito a educação e saúde gratuitas e ainda te rende um troco. Jackpot?

Não, não estou fazendo o discurso da extrema direita não meu parceiro e parceira, estou só te informando como são as coisas. Você vai culpar alguém porque tentou ter uma vida melhor? Alguém que estava num país que a fome é coisa do dia-a-dia, que a guerra matou todo mundo que você conhecia? Alguém que viu a oportunidade de conseguir ter algo e agarrou? Não, como disse um companheiro welsh, “-just go for it!” se a chance te aparecer!

Mas ao mesmo tempo que eu entendo que esses grupos estão apenas tentando ter algo para si, eu também não tenho a visão romântica de achar que tá tudo certo, e que tem que ser assim mesmo. Estamos numa meio de uma recessão SÉRIA aqui. A marolinha do Lula, na Inglaterra, é um tsunami que bate na praia, volta, bate de novo. Eu já presenciei atraso de linha do metrô porque gente se jogou na frente do trem. O clima está ruim, nervoso, houve aumento nos assassinatos, assaltos, violência no geral. Se não bastasse isso, as pensões sociais que deveriam ser uma AJUDA está virando REGRA de sobrevivência: não tinha nada, vou ter casa e dinheiro com a cara da rainha estampada na nota, opa, tô nessa! Não é de aceitar a xenofobia, mas um compatriota nosso, quando eu disse que ia tirar minha cidadania européia, por ter direito, disse: “ah, e aí você vai atrás dos benefícios né?”. Em suma, há muita malandragem SIM, malandragem mesmo, que não dá para concordar.

O que mais me preocupa não é nem tanto esses problemas, e até espero tristemente que daqui um tempo haja um aumento na violência étnica por aqui, porque “educação” aqui, como vocês viram no post anterior, é privilégio, como em qualquer lugar do mundo: o típico inglês é o típico cidadão desinformado e propenso a resolver as coisas do jeito que acha mais simples (no caso, na porrada), como em qualquer lugar do mundo. O que realmente me deixa consternado é imaginar o que vai ser dessa generation B, de benefícios. Essas crianças que nascem de mães solteiras que receberam email ou carta da amiga contando do “sucesso” dela, da casa que o governo paga, e que foi tentar o mesmo. O que essa geração terá para contar de história, quais os valores que elas crescem dentro? Como eu disse, meu discurso aqui não é da nova direita, e claro que há exceções, mas exceções não são a regra. Eu torço pelo melhor, de verdade, porque este país é fantástico em muitos pontos. Torço para que esta situação dê a eles a ambição de mudar de vida, mudar o cenário. Que essas crianças não sejam como a geração atual, apática, nervosa, que se afoga nos pubs entre pints e shots. Torço, mas ao mesmo tempo, devo abrir espaço para o ceticismo de quem sabe que histórias de “superei um cenário difícil” estão na literatura, não no dia-a-dia da banca de jornal.

Há algo a se fazer, uma espécie de reação à essa “cultura dos benefícios”? O que fazer? Parar de pagar, entrar com ações de discriminação mais severas? É um assunto espinhoso e que realmente qualquer ação precipitada só iria piorar. Os ingleses também usam os benefícios, e a Louise, a que falei no meu post anterior, é mãe de dois filhos e depende dos benefícios para sobreviver. Vive em condição de penúria e não consegue um emprego por falta de educação. Mas diferente dela há muitos ingleses, como já me foi relatado e eu notei, que se contentam e conseguem sobreviver com os benefícios, e não demonstram vontade de buscar algo melhor, um emprego. O trabalho é vital para o funcionamento da sociedade, e arrisco dizer, contribui inclusive para a saúde mental do indivídou, por permitir que ele se sinta útil, etc. Podemos criticar a lógica de alguns empregos, mas o trabalho em si, não. A partir do momento que um benefício deixa de beneficiar para ser vedette e protagonista em uma trama da qual se nota emergir uma “cultura”, no sentido antropológico do termo, há algo errado. E isso deve ser estudado. Novamente, não é questão de punir indiscriminadamente, mas de buscar entender o que está acontecendo de errado.

Espero me ter feito claro. Não defendo fechamentos de fronteiras nem pichação no muro da casa de quem recebe pensão. Mas ao mesmo tempo não me vejo propenso a concordar com as coisas do JEITO que elas estão, não acho honesto que os cidadãos (estrangeiros ou não) se aproveitem dessas lacunas na lei de maneira deliberada, lançando filhos no mundo a troco de libras no final do mês. Em suma: não sou dado a ver coitadinhos, vilões ou heróis, nessa história. Para mim, o cerne do problema está em uma política feita às pressas por um governo que em DÉCADAS tem se mostrado inapto e longe de conseguir solucionar problemas simples da sociedade britânica. 

Torço pelo melhor, torço mais ainda por uma “crise” (no sentido chinês do termo) que lance em cheque todo o conjunto de valores equivocados que esse sistema se apoia.

Mas, enquanto isso, deixo uma palavra para o nosso amigo Gordon Brown:

 

“Cuida, que o filho é teu”.

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