Saint Patrick’s Day: The Untold Story

Posted on março 18, 2009

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...and a wasted-toilet-like year

...and a wasted-toilet-like year

Dia 17 de março é uma data comemorada no mundo todo, especialmente por nossa geração cosmopolita-religiosa, antenada em história mundial. Hoje, como bem sabemos, devemos celebrar loucamente o dia que marca a chegada do catolicismo na Irlanda. Valeu Patrício, Cheers!

Se já não bastasse o insólito da história per se: o menino- escravo cidadão de Walles que virou patrono da Irlanda (pensei que tinha sido só o William Wallace, mas pelo visto tenho que mapear melhor as contribuições do País de Gales para o mundo ocidental), o dia de São Patrício é o dia internacional de tomar todas. Eu consultei algumas fontes digitais seguras, e não consegui ver relação entre um santo católico e chutar o pau da barraca. Estava meio perdido e esquivando de gente querendo me vomitar pela city, quando lembrei de comprar o jornal, por precaução, caso chovesse bílis em Picadilly.   Topei com uma matéria no Independent e outra n’ The Times que jogaram alguma luz na questão. Passemos aos fatos papelescos:

 

RAISE PRICE OF ALCOHOL TO BEAT BINGE DRINKERS

RAISE PRICE OF ALCOHOL TO BEAT BINGE DRINKERS

It comes amid mounting concern over the effects of heavy drinking on the public’s health. It is estimated that as many as 40 per cent of men and 30 percent of women regularly exceed safe drinkings guidelines(…). Alcohol misuses costs the taxpayer L25bn each year – 400.000 people are admitted annually to hospital with a drink-related problem and 1.000 of them are under the age of 14. 

 

DRINK HAS REPLACED EARLIER EVILS AS THE SCOURGE OF NATION'S HEALTH.

DRINK HAS REPLACED EARLIER EVILS AS THE SCOURGE OF NATION'S HEALTH.

(…) the average adult was consuming the equivalent of 120 bottles of wine a year. (…).  Over the past 30 years, in real terms, beer has become 36% cheaper in pubs, and 139% cheaper to buy at off-sales premises; as a result, total consumption has risen by more than a fifth, with the  biggest increase among women and the young. In that time, alcohol-related deaths in Britain have more than doubled, from fewer than 4.000 a year to more than 8.700; the social cost has been enormous. Drink is the cause of nearly half of all violent incidents; in nearly a million assaults last year, the aggressors were believed to be drunk.

A minimum price of 40p per unit, it estimated, would reduce hospital admissions by 40.000; it would save the Government more than L1bn in social costs; above all, it would reduce the number of deaths by anything to a half.

 

O pessoal está querendo estipular um preço mínimo que varia entre 40-50p para a “unidade de álcool” (unit of alcohol) que é uma medida que aqui se usa já um tempo para controlar a ingestão de bebida.  A quantidade de unidades de álcool varia para cada bebida: as mais fortes, com maior percentagem de álcool tem mais, as menos, menos. Uma pint de cerveja de 4.6, 4.8% tem geralmente “2 units of alcohol”, uma garrafa de vinho, 10.2. A recomendação de ingestão diária para a Inglaterra é de máximo 4 unidades de álcool por dia para homens, 3 para mulheres. 

Dá para imaginar que há muito falatório por conta disso. O próprio Gordon Brown veio a público dizer que “os bebedores moderados não deviam ser punidos pelos que bebem em exagero”. Há muita polêmica, troca de acusações, tabelas, etc. A briga está apenas no começo, mas acredito que os números já mostram a urgência de tratar a questão .Essas estatísticas são muito alarmantes, dada a dimensão sócio-espacial da sociedade britânica.

Se você me pergunta se isso é verdade, se realmente esses problemas existem, eu digo que sim. O tempo que estou aqui, tive que mudar minha postura com relação ao álcool e ser cuidadoso ao acompanhar meus flatmates ou amigos londrinos pelas noitadas por Camden ou Old-Street. Cheguei aqui numa empolgação muito grande. Sou amante de cerveja e estava na terra dos PUBS: poucas semanas depois fui obrigado a reavaliar se ia tocar minha vida ou me afogar numa pint. Eles bebem MUITO e não é um beber tranqüilo, se bebem é para se embebedar. Eu vi gente secar uma garrafa de whisky por dia, de graça, em casa. Eles bebem por tudo, o dia todo, todos os dias. Isso no dia-a-dia, quando saem ou querem comemorar, a coisa é muito pior. Eu lembro de estar andando em Edimburgh com um amigo, e mesmo depois de ter passado a noite dizendo a mesma coisa para todos os bartenders (“your best scotch, please”), eu fiquei reparando o tanto de poça de vômito em uma cidade numa sexta-feira a noite. Em Londres é o mesmo, isso nas partes históricas da cidade. Eric Hammond, num programa no canal Dave ja vu sobre o assunto, chegou a mostrar a diferença de Londres/outras cidades inglesas num final de semana de noite e Paris:  enquanto o centro da cidade-luz está calmo, as pessoas tomando vinho nos cafés e comendo de la viandre, aqui tá todo mundo na rua ou gritando, ou brigando, ou gritando e brigando. Essa “farra” custa ao Estado a necessidade de aumentar o policiamento das ruas, para conter os mais exaltados. Dinheiro que vem do imposto deles, diga-se de passagem.

Então, em tempos de recessão fortíssima, falta de dinheiro MESMO (aqui eu descobri que essa tal de crise financeira não foi invenção do Obama para ganhar a eleição) medidas como controlar o consumo de álcool são vistas como derivativas da necessidade de conter o gasto social do governo. Ataque às liberdades pessoais? Bem, passando a palavra pro meu fígado, ele diria que bebida barata geralmente é sinônimo de mulher feia e/ou confusão e/e/e ressaca desgraçada. Eu não conheço nenhum apreciador de “Tesco’s Vodka”, como aí no Brasil não tinha amigo que me chamava para pedir a opinião da nova safra de vinhos do Extra. Então, vai elitizar e diminuir sim o consumo. Bom para Londres e para o Reino Unido no geral. Diversão é uma coisa, tentar destilar o canal da mancha e tomar ele depois da final da six nation’s cup, outros 500 pounds.

Essa seria uma boa iniciativa pro Brasil? Pelo menos pelo o que vi de consumo em algumas partes do país, sim. Mas nem tem espaço para uma discussão assim agora aí. Por que? Problemas outros na frente, prioridades, mas é algo que no futuro nós devemos nos questionar também. Aqui, como disse um articulista do Independent há uma “deeply ingrained drinking culture”,o que acontece também em muitos lugares e, principalmente, em setores bem específicos de nosso tecido social. Espero só que até lá haja um amadurecimento normal, provindo das trocas geracionais, que procuram negar e superar os erros uma das outras. A nossa negou o tradicionalismo formal do século XX e substituiu o neo-romantismo pós-68 com o pragmatismo tecnológico, mas acabou tornando-se destrutiva pelo esvaziar abrupto dos conteúdos que permeavam os eixos valorativos no qual nos apoiávamos também. A próxima talvez substitua nosso pragmatismo-destrutivo por uma filosofia mais new-age, aquário, sucos e vegetais. Enfim, coisa do futuro… só espero que venha com mais criatividade do que simples medidas pecuniárias.

Enquanto isso, São Patrício é o patrono-símbolo da necessidade britância de expressar seu orgulho como eco da postura niilista-punk do fim do 80’s, do terror que a era Tatcher deixou impressa nos lares de quem cresceu vendo greves, IRA, bombas e neoliberalismo de Canary Wharf. É o patrono da Irlanda, lugar onde se mais bebe aqui, e naturalmente acaba sendo o santo da bebedeira. Beber muito é parte do “ser britânico”, ajuda a driblar a formalidade e o senso estético que chora meu pai, com tanta mulher feiinha. A relação que existe não é entre o Patrício e a bebida, mas entre os (des)crentes e os maneirismos geracionais, exaltados por uma cultura que prega o exagero como libertação. 

Em suma, entre o céu e a terra do Reino Unido fica o vinho da missa, jeitinho daqui de fazer um agrado no passado pagão. São Patrício é o apóstolo etílico de Tales.

 

Amém.

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