Foreword

Posted on março 17, 2009

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metrostratford2

 

A idéia deste blog veio por vários motivos, como toda a idéia que nasce num ambiente de democracia liberal (no caso, meu cérebro, testemunho da modernidade). Todavia, a principal delas é manter um noticiário de mão-dupla, entre o Brasil (tags: samba, mulata, football) e a Eng-la-terra (tags: bitous, poucasdãoprogasto, futebol?). Muita gente do lado daí, mas MUITA gente mesmo (segundo um especialista IBGE em nota recente para a folha: “todo mundo menos os tamoios”) acha que aqui tudo corre mil-maravilhas, e que a solução do nosso país é meter os 8.511.965 kms-em-quadrados numa caravela e mandar para cá para tomar um chá com a rainha, ou devolver para Portugal com os dizeres afetuosos “cá’stá, agora cuida caraças que o filho é teu, tais a saber?'”.

Herança romântica, falta de imaginação? Sim e também, mas muito disso vem da tradição SECULAR dos daqui de vender imaginários. O primeiro a denunciar isso, dizem, foi o Focault. Não vou entrar em discussões de cafeteria (não agora), e lembrar todo mundo (menos os tamois, por falta de necessidade) para largarem o semestre na mesa do professor e ler o velho e bom SAID (Deus o tenha em sua misericórdia, ou Dante no círculo do inferno para os intelectuis palestinos). O certo é que a Ordem do Discurso sempre foi daqui praí, mania de Orientalismo presente até os dias de hoje. Entretanto, basta se perder do guia e errar o caminho das tulerias que você se depara com a miséria. Seja da filosofia, seja das taxas crescentes desemprego, da crise financeira, não importa, você constata a verdade poética que só as riquezas são diferentes, de fato. Mês e pouco aqui e você se diverte subvertendo a teoria deles, essa que te ensinaram aí, usando ela no metrô, na rua, ao tirar fotos da violência policial em pleno Montmartre. Parece que polícia (tags: titãs; sepultura; Weber) além de ferramenta da tentativa de monopólio da violência por parte do Estado, está aí para bater em preto também. Preto europeu – no caso específico –  argelino (tags: Zenedine Zidane; Materazzi), e preto do Rio de Janeiro (tags: Slumdog Millionaire) apanha igualzinho, para sua surpresa. 

 Espero mostrar o que não chega aí e me assustar com o que não chega aqui também. Basta dizer que só fui saber dos rapazes que apanharam em Bristol? (interrogação, atestado da minha falta de informações a respeito) pelo telefone. Não noticiaram nada, não falaram nada. Eu nem me espanto, desde que ouvi um local me falar que o que aconteceu com o Jean-Charles “podia ter acontecido com qualquer um”. Qualque um morre, é verdade, mas quando a polícia (vide parágrafo anterior) começa a matar qualquer-um assim, na rua, no meio de um monte de qualquer-uns como ele, dá margem para um monte de quaisquer-outros fazerem a mesma coisa, n’est pas? Parece que o caminho para Bristol passa por Stockwell: a linha negra.

Na análise das notícias daqui vamos fazendo esse exercício de assassinar o deslumbramento, e também o de levantar as relevâncias e as “afinidades eletivas” que possam existir entre nós (e os tamoios) e a gente daqui. Se der um ou dois sustos e derrubar meia dúzia de lugares-comuns, eu já me considero realizado pro resto da vida. 

Chá com leite e meia notícia tem demais aqui, e eles costumam andar juntos na hora do intervalo. Sociologia é a licença-nada-poética que eu encontro para confrontar essas falsas elegâncias.

 

Cheers.

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