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ZTCT2009: The Trip Back.

January 6, 2010 · 1 Comment

Hoje, dia 6 de Janeiro, há exato um ano atrás eu chegava em Londres vindo de Garulhos, São Paulo, depois de mais de 14 hrs cruzando o oceano, trazendo na bagagem um monte de planos e vontades, além da imensa curiosidade. E por ser essa data tão significativa que eu escolhi ela para fazer o encerramento dos relatos da viagem. Comecei ela em Londres, terminei em Lisboa, e no meio existem miletantos outros lugares que fui, visitei, passei. Aqui no blog eu relatei o que vi e vivi nesse período. Um ano… eu me peguei pensando quanto coisa aconteceu. Eu ainda me considero em viagem, porque desde que cheguei mal deu um mês já tava na estrada de novo com meus pais, vindo pro Maranhão. Quando voltar pra Brasília vou com eles para São Paulo, e só devo aquietar em começo de fevereiro mesmo. Ainda sinto que estou em trânsito, só que em terras ao oeste de Tordesilhas.

Eu colocarei os relatos aqui, depois as fotos, que elas estão na minha câmera ainda e nem baixei pro micro. A cam está em Brasília e eu em São Luis, por isso, coloco quando voltar. Hoje eu quero deixar o depoimento, contar como foi voltar, e encerrar. Depois farei um post com conclusões, com o vídeo do depoimento que prometi fazer ao fim da viagem, além de algumas fotos e comentários finais. Após isso encerro a ZTCT2009 e este blog volta à sua função original, de exercício sociológico.

Bem, como já é de conhecimento geral, a Zooropa Tour: The Car Trip 2009 acabou oficialmente em 14 de Novembro de 2009, quando às 10:30 da manhã eu embarquei no vôo 3571 da TAP direto para Brasília, Distrito Federal, Brasil-Terra-de-Deus. Às 16:30 (hora de Brasília) eu aterrisava, trazendo na bagagem aquilo que Belchior cantou, Caetano musicou e Chico poetou: saudades, muitas.

Contarei agora como foi essa volta, como foi sair lá de Tessalônica no norte da Grécia e vir parar em Lisboa. Foi um período um tanto frenético e rápido, onde muita coisa aconteceu em pouco tempo. Mudanças de planos absurdas, descobertas e eventos que quando eu repasso mentalmente trazendo eles de volta à vida dos arquivos da memória, fico com aquela sensação de estranhamento, como se tivesse visto tudo em um filme que o ator principal era eu mesmo.

Eu fiquei exatos 27 dias em Atenas e só fui embora porque tive que. Estava tão triste de deixar a capital da Hélade, centro de tudo para mim, que fui embora numa manhã de inopino: simplesmente fiz as malas, dei check-out e me mandei. Sim, se fosse me despedir do Iannes e do pessoal do God’s Temple, o restaurante que comi todos os dias praticamente, se fosse dar uma última subida pela acrópolis para deixar uma oferenda à Deusa, eu teria ficado. Foi doloroso mesmo lembrar que ia acordar e não mais ver o Parthenon encarando-me com aquele jeito de coisa ancestral em cima da pedra. Que não ia mais tomar uma boa Mythos nem ouvir o som dos cantantes dos bares atenienses, com seus narizes aduncos e sorrisos calorosos. Foi uma experiência de quase-morte abandonar toda a alegria que a Grécia me devolveu. Foi de longe o melhor lugar que visitei na vida, mais lindo, com o povo mais amistoso, com a comida mais gostosa, com a cerveja boa, com o vinho melhor ainda, com o azeite divinal, com a gente na rua rindo e me saudando quando descobriam que eu era brasileiro, amante de futebol como eles.

Entrei no carro e fui. Peguei a auto-estrada rumo a Tessaloniki, a segunda maior cidade grega, espécie de capital da fronteira com o mundo de cima, do norte.

Tessalônica é uma cidade bizantina, meio-mundo entre ocidente e oriente, e fascinante por isso. Lá eu pude entender como é isso de estar bem ali com os Turcos na porta. O norte da Grécia é o máximo daquilo que se convencionou entender por “experiência grega”: é um lugar de indefinição. A atendente do meu hotel falou-me do problema com os macedônios porque eles não se consideram gregos, e os gregos acham que Alexandre o Grande talvez fosse do norte da Grécia, já que Felipe II, seu pai, está lá enterrado. A cultura turca e média-oriental é forte, na música, na comida, nos jeitos. Enfim, o norte é um resumo atualizado da mania grega de se misturar. E fizeram isso com tanta eficiência que o mundo é ocidental hoje em dia porque um outro dia foi grego.

Bem, eu fiquei alguns dias em Tessalônica, gostei do que vi, mas na verdade a cidade era meio caminho pro que viria a ser uma outra etapa da viagem: a volta. A idéia seria eu voltar pelo leste europeu, subindo pela Macedônia, cortando a Sérvia e indo até a Hungria. De lá para a Austria, depois República Tcheca. E aí eu ia subir para a Alemanha, depois descia pelo caminho usual França, Espanha, e Portugal.

Essa era a idéia, mas como eu fiz essa viagem toda sem grandes planos, apenas pegava o carro, mirava e ia, eu não estranhei quando as coisas mudaram de rumo.

A confusão começou na fronteira da Grécia: o cara olhou para a placa do meu carro, que tinha o mês e o ano que foi comprado, e achou que minha licença estava vencida. Não estava, e isso me fez voltar até Tessalônica e ir até o aeroporto e procurar o pessoal da locadora do carro, além de ligações para Portugal. Voltei pra cidade, dormi lá e no outro dia fui de novo pra fronteira. Acabei resolvendo as coisas como se resolvem no Brasil: um outro guarda me atendeu, não prestou atenção em nada e me liberou.

Já no lado Macedônico começou o estranhamento: que deabos um BRASILEIRO está fazendo aqui DE CARRO e querendo cruzar nosso país? Perguntas, passaporte retido, mais perguntas em inglês ruim. No final, lidei como se lida com as coisas no Brasil: sorri, falei de futebol, sorri mais ainda, fiz cara de tonto e turista feliz, passei.

Cruzei a Macedônia toda, que deve dar uns 260 kms, se não me engano. Vi pobreza, gente simples, agricultores. Nada que lembrasse o que a gente achava existir nos tempos idos de Alexandre. Um povo sofrido em uma terra sofrida. Placas em russo, muitas delas sem tradução. Como tenho russo “funcional”, consegui ler e ter uma idéia de onde estava indo, se estava no caminho. Segui a autoestrada entre montanhas e vales verdes, claro, sentindo aquela sensação de estar pisando um solo cheio de história.

Cheguei na fronteira com a Sérvia, novamente mais perguntas, passaporte que ia e voltava, guardas nada educados que rasgaram a caixa com meus vasos gregos. No final, passei. Cheguei no lado sérvio, encontrei mais inglês ruim, e um estranhamento ainda maior. Para vocês sentirem o cúmulo, o guarda quando viu meu passaporte, ficou tão abismado que chamou TODO MUNDO da alfândega, repito, TODO MUNDO para ver “OLHA, UM PASSAPORTE BRASILEIRO” e depois me falou “eu nunca tinha visto um na minha vida”. Eu me senti estrela, falaram de Roberto Carlos, Ronaldinho, etc. Eu continuava rindo e sorrindo, achando que estava tudo bem…

Mas não estava! O cara quando abriu meu passaporte viu que não tinha um visto para entrar no país. E eu pensei “que deabos de visto? pra que?”. Essa foi minha burrice. Eu que gosto tanto de geopolítica esqueci que a Sérvia sequer faz parte da União Européia. Poisé, não é! A Macedônia é, mas a Sérvia não, por conta das guerras e tudo mais. Para entrar lá só com visto. Eu fiz cara de “puta que pariu seu guarda, eu tô indo pra Hungria, mimdeixa, só são 600 kms” mas nada. Conversei com ele e ele me mandou pra Skopjia, capital da Macedônia, e ir atrás da Embaixada da Sérvia lá e pedir um visto. Perguntei o endereço, mas ele mandou o velho e bom “se vira cumpadi”.

Dei meia-volta, entrei na Macedônia de novo. Os guardas que tinham acabado de me receber ficaram me olhando… mas carimbaram e eu entrei de novo. Acelerei o carro e fui no rumo Skopjia, que tinha que sair da autoestrada rumo ao oeste. E aí, fui chegando na cidade, feia por sinal, cinza, esquisita, e comecei a sentir uma sensação estranha em mim. Aliado a isso eu fiquei pensando “cara, como vou achar o deabo dessa embaixada num lugar que fala russo, que só tem placa em russo, céus!”. E aí, foi remoendo isso que entrei em Skopjia. Andei nem alguns kms dentro da cidade, olhando placa em russo quando dei meia volta num viaduto que achei e peguei a autoestrada de novo: naquele momento eu decidi voltar pelo caminho que fiz na vinda. Senti que era o mais certo a fazer, respondendo tanto à razão quanto à sensibilidade. Lembrei do quanto a burocracia russa é horrível, da dificuldade que seria achar essa embaixada, alguém pra conversar em inglês decente comigo, alguém disposto a me dar o visto, pegar o visto, conseguir entrar, etc. Fora isso, eu senti uma sensação estranha só de estar lá perto. Acho que meio que senti os miasmas das guerras e genocídios todos que andaram ocorrendo por lá e isso me deixou um tanto indisposto.

Enfim, sei que quando dei por mim, tava com o carro já cruzando a Macedônia toda. Parei na beira de um rio para fazer um lanche e fiquei naquele momento apreciando o que me restava da terra de Alexandre. Imaginei ele parando com as tropas ali, dando água pros cavalos, coisa que fez provavelmente, por ser um rio grande. Terminei meu lanche, fui rumo à fronteira. Um sinal que tinha tomado a decisão certa foi que nada mais empatou minha viagem: entrei numa boa de volta na Grécia, e ao final do dia tinha chegado à Iougumenitsa, exatamente 2 horas antes de sair o próximo ferry rumo à Ancona, na Itália. O única parada que tive foi quando descobri que perdi meu cartão de crédito em algum lugar da Macedônia, sendo esse o ÚNICO evento negativo da viagem toda, que foi logo resolvido, porque era um cartão de um banco bom que mandou um novo para mim no meu hotel, já em Nice, na França. Fora isso, fui parado por guardas gregos por estar a mais de 170 km/h numa descida. E aí você pensa “perdeu, playboy” eu te digo que o guarda quando viu meu passaporte e eu disse que estava correndo porque queria ligar pro pessoal do cartão pra cancelar, etc, olhou-me com um sorriso na cara e me lembrou, em inglês razoável, que o bem mais precioso que temos é a nossa vida, e por isso que não corresse por conta de um cartão de crédito. Sim meu amigo e amiga, bem-vindo à Grécia, lar da civilização e onde até os guardas de trânsito tem algo filosoficamente precioso para te dizer, e sem te multar por conta disso.

Pois bem, peguei o ferry, desci em Ancona e tomei a estrada rumo a Venezzia! Sim, segunda vez que ia lá e foi muito bom andar de novo na sempre-romântica, com suas calçadas margeando suas ruas de água. Dormi num hotel muito bom, e descansei porque estava sentindo-me querendo gripar. Esse foi o momento tenso da viagem, porque eu não podia me dar o LUXO de ficar doente viajando sozinho de carro. Comprei uma vitamina C na Grécia, falei pro pessoal do ferry que achava que tava com gripe suína e nego me deixou quieto e só numa cabine. Em Veneza eu aproveitei para descansar mas também fiz alguns passeios no outro dia, e fui logo embora. Tinha passado mais de 4 dias lá da vez passada, conhecia tudo já, fui só ao Rialto, tirei fotos, fiz vídeos e peguei o carro e fui-me rumo à Nice.

Sim, voltei à Nice para rever uma amiga daqui que está morando lá. Já tinha passado na cidade, no começo da viagem, tendo ficado alguns dias e onde tive experiências muito boas e pude curtir o verão na Riviera Francesa. Na volta tudo que eu fiz foi dormir e sair de noite. Eu começava a sentir a EXAUSTÃO dos mais de 2 meses viajando, e queria sossego, e sossego tive. Revi essa amiga querida, saímos bastante lá, tomei minha cerveja, e dormi, dormi e DORMI! Consegui combater o princípio da gripe e fiquei bom, e depois de oito dias lá, despedi-me dela e peguei a estrada de novo. Desta vez, rumo a Barcelona!

Também já conhecia Barcelona da vez passada, e fui pra ver outra amiga, esta que fiz em Lisboa. Fui lá mais porque queria comprar presentes pros meus amigos fanáticos em futebol como eu e também para curtir um tanto a cidade, que é famosa pela noite excelente. Para não dizer que fui em algum lugar histórico, fui de novo no Templo da Sagrada Família, só que à noite e bêbado, ficar olhando pro Gaudi e dizendo “esse cara é realmente sem noção”. O resto foi ir no Camp Nou, fazer algumas fotos, sair e conhecer pessoas novas, discutir “Identidade Espanhola x Identidade Catalã” no bar com os bêbados locais, experiência essa que enriqueceu ainda mais meu projeto de ter uma visão mais próxima do velho mundo.

Depois de quatro dias em Barcelona, acordei tarde e resolvi aprontar as malas e ir embora. Eram mais de 1200 kms até  Lisboa e eu resolvi que ia fazer tudo de uma vez, e fiz. Peguei o carro, mirei na autoestrada e fui. Paradas só para ir no banheiro e colocar gasolina. O resto fui comendo e bebendo no carro mesmo, e depois de 11 hrs de estrada, chegava em Lisboa-a-Velha. Quando cruzei a fronteira da Espanha com Portugal eu senti um calor de “casa mia” no peito. Depois dessa viagem, eu pude descobrir que esse tempo todo morando em Lisboa fez-me um tanto mais português, o que se tornou algo hoje em dia inegável em mim. Aprendi a amar o país-nariz de Cabral. E por isso, quando cruzei a ponte 25 de Abril eu era só sorrisos e alegria. O carro foi quase que automaticamente até à Baixa, onde escolhi um hotel, pois depois dessas mais de 11 hrs viajando tudo que eu queria era dormir e dormir e DORMIR.

Cheguei no dia 6 de Novembro em Lisboa. Comecei a arrumar as malas, empacotar muamba, e no dia 14 embarcava de volta. Fiquei essa semana indo ao Bairro-Alto, despedindo-me de amigos queridos que fiz, do samba, das morenas, brasileiras ou não. Tomei minhas Imperiais, comi meu último bacalhau e o meu polvo a lagareiro. Comprei castanhas nas ruas do outono que abria as portas pro inverno. Usei meu último casaco, deslizei pelos paralelepípedos da Rua Garret em cima dos trilhos do bonde e dei meu adeus ao Fernando, pessoa boníssima. Foi triste ir, foi sim, e só de lembrar aqui dessa última semana lá meu peito meio que se arma em Fado e meu coração chora saudade. Mas quando entrei no avião senti em mim um sentimento de dever cumprido.

As conclusões da viagem deixo para um outro post. Basta dizer agora que pela segunda vez (que aconteceu na primeira também) eu acordei no exato momento que o avião passava por cima de Fortaleza. Vi o mar quebrar na praia do jeitinho que Caymmi disse: bonito. O peito era só alegria. Desci do avião, esquivei da alfândega. Do lado de fora? Minha família amada e uma sobrinha com mais de um ano de idade, que vi nascer e deixei com 2 meses de idade ainda, que acenou pra mim e pulou pro meu colo e me beijou, causando espanto a todos. Em suma: eu tinha voltado. Coloquei as malas no carro, e enquanto meu pai contornava o balão do aeroporto eu via Brasília do chão. Descobri que realmente amo não só meu país, mas a cidade que me educou e me deu a chance de ser quem eu sou. E foi com essa gratidão no peito que fomos todos no carro rindo e conversando até a churrascaria, onde eu ia matar a saudade de me empanturrar da nossa boa comida e comemorar meu aniversário: sim, minha volta foi planejada estrategicamente para ser no dia que completava 31 anos de muita vida.

O post foi longo e imenso, mas assim foi tudo que eu vivi e ainda vou viver, porque essas experiências vão se extender no tempo. Sou grato a tudo que passei, mas sou mais grato ainda por voltar, e muito mais grato ainda de ter encontrado todos vocês aqui na volta, com seus rostos e sorrisos, piadas e brindes para celebrar meu retorno. Foi isso tudo que me fez um atual D. Pedro I, e de todos os meus dias, um Dia do Fico.

Mas essas sentimentalidades e demais constatações-de-coração ficam para o próximo post.

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ZTCT2009: ΗΕΛΛΑΣ

November 13, 2009 · 1 Comment

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Templo de Atena, Delfos.

A Grécia é uma dessas senhoras respeitosas que se encontra à caminho da ágora, e que com um desses sorrisos que desculpam tua meninez, dizem-te “kalimera meu filho”. Uma dessas senhoras que sempre têm tempo para os mais novos, e que sempre querem saber como vais na escola, e quando tu timidamente respondes que vai bem tirando a maldita matemática, ela sorri e tira um desses Pitágoras de bolso que toda mãe da civilização ocidental carrega consigo e te entrega para que vás ao rio pescar fórmulas de Báscara.

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Uma ex-sacedortisa grega, e ao fundo, o Templo de Apolo. Delfos.

A Grécia é tudo e não menos que isso. É uma mulher completa à moda dos antigos e novos. Não é amante de ninguém porque não se deita com meninos. É muito bem casada com o papiro, e engana-se que a acha consorte de algum deus, como suas amigas mais ao oeste. Ela é letra de fogo gravada na pedra, é o vento que sopra em Delos ao final da tarde quando tu sentas e olha os antigos caminhos que homens e demais pequenos caminharam tantas vezes à busca de sis mesmos. Em uma palavra: ela é mãe. Minha mãe, tua mãe, mãe dela e dele, e esta experiência que chamamos mundo é o seu jardim de infância. Somos todos filhos do papel e da palavra, amiga do conhecimento, Agia-mãe-Sophia de todos os pequeninos que ainda tropeçam na arrogância de se acharem caminhantes.

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Igreja Bizantina. O nome da cidade é impronunciável em português, por conta do "X" grego, mas é algo como "Ararhova".

Nadei uns três mares para poder ter com ela, e ela me buscou no porto ainda com o espírito ofegante e ansioso, e vendo isso  logo me presenteou com aquela calma de Odisseu que acorda na praia vestido em linho. Sua mão enorme de escrever verdades universais pegou na minha e me colocou no colo como que para contar a História, toda ela. Da praia eu naveguei pra dentro do seu seio, respondendo àquela vontade de útero que me carcomia desde os tempos que pela primeira vez soletrei t-i-r-e-m-e em algum outro lugar que chamava casa por não saber de onde tinha vindo. Deitei minha cabeça e tentei não dormir, mas foi impossível porque até mesmo no ar que sopra dentro dela tem essa melodia de acalmar menino, por mais afoito que seja.

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Templo de Zeus. Atenas.

Passei meus dias reaprendendo o que eu já tinha como certo, o Βετα, Αλφα, BÁ do que decorei em ócio criativo. Fui nos dias de minha folga à Acrópolis e pude novamente conversar com os meninos mais velhos da escola, que calçados ou descalços praticavam desportos de arremessar conhecimento para lá do oceano ou marcavam lutas contra os rapazes das escolas vizinhas. Ao fim do dia, ia até o aeropágo para assistir o pôr-do-sol sobre a ágora e o mercado, mas não me demorava muito por lá: sabia que se chegasse tarde em casa, iria dormir com a orelha quente e a barriga vazia.

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Parthenon, face oeste. O ângulo é famoso, mas ao contrário do que muita gente pensa, a entrada era pelo outro lado, a face leste, menos fotografada porque foi a mais severamente atingida pelos bombardeios venezianos no século XVIII.

Ser hóspede da Grécia fez-me bem para o corpo, mente e espírito. De todos os portos que atraquei, de todas as estradas que caminhei, eu descobri a velha verdade de que não há lugar como a tua casa. E a nossa casa é lá, por mais que tenhamos essas manias de sol nascente. Certo que o multi ou trans culturalismo nos ensina a alargar os horizontes. Mais certo ainda é que hoje perdemos o orgulho de sermos ocidentais. Estamos sempre presos a um criticismo doentio de nosso valores, sem parar para lembrar a imensa contribuição que demos para a experiência-mundo. Foi voltar à Grécia que eu redescobri isso tudo, foi lembrando o que a tanto tempo está lá que me fez de novo arder essa pira no peito. Somos todos filhos da Hélade, do remo e da lira. Temos algo do mármore e Fídias em nós. Somos perfeitos, proporções matemáticas de um universo mais perfeito ainda. O mundo é uma esfera achatadinha, que é para tudo ficar mais perto, e para que pudéssemos colocar em prática a primeira contribuição grega pro mundo: o abraço.

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Santorini.

Depois de conversar com a Deusa-Virgem, consultar o Oráculo de Delfos. Depois de ir até Tessalônica e ver o oriente do cais, passando pelo Olimpo, por Termópilas. Depois de ir às ilhas e ver que até a natureza veste toga e escreve em cirílico, em suma, depois de cruzar de cima a baixo toda a extensão do corpo da mãe do mundo ocidental, eu virei minha biga rumo ao porto. Quando entrei novamente no navio que ia cruzar o Adriático novamente, eu senti um alívio. Sim, alívio por ter conseguido ir embora, porque não queria ir. Tive que fazer valer a alma cigana e deixar mãezinha novamente: acordei um dia de manhã e sem aviso arrumei minhas coisas e fui-me rumo à boca do mar. No caminho pensava dos amigos que deixava, do pôr-do-sol sobre o Parthenon, dos dias a estudar e das noites a tomar vinho com a juventude ateniense nas ágoras modernas. Das conversas que tive, da beleza do que vi, do souvlaki de cordeiro que comia todos os dias. E mais do que tudo isso, eu pensava nela: na Grécia. Pensava na beleza dessa senhora e no carinho que ela me recebeu.

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Santorini. Só um adendo: Santorini é composta de 2 ilhotas e a ilha principal, com algumas vilas. Eu não lembro o nome de todas. Essa foto por exemplo, é de uma das vilas ao sul da ilha principal.

Fui novamente para o deck azul do navio, só que desta vez sem vídeo, sem nada. Só eu e o mar de Adriano, barbudo romano de alma grega. Fiquei ali, mas sentindo o vento como que vindo de Tróia. Era novamente Ulisses, que mesmo cruzando o mar de problemas ainda era assombrado pelo grito de Polifemo às portas de casa. Por algum tempo senti essa melancolia de quem deixa o lar para construir cavalos de madeira e semear infelicidade.

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Outra igreja de Santorini. Notem no canto inferior direito: Um quadriciclo de 250 cc. Eu preciso dizer o tanto que me diverti com esse brinquedinho, preciso?

Durou pouco essa sensação, porque logo senti o toque de deusa no ombro. Era a Virgem da Hélade, Nikki, vitoriosa com as asas abertas. Abraçou-me e em sonho levou-me para um vôo com as águias de Zeus. Vi o mundo pequeno lá embaixo com suas ilhas, grandes e pequenas. Vi a deusa do meu lado sorrindo e senti-me de novo a alegria de quem não precisa de oráculos: ao olhar para dentro de mim vi que meu coração era o Peloponeso e Delos, átrio direito e esquerdo da mesma recordação. Onde eu estivesse, Hellas estarias comigo, sempre.

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Santorini ainda. Diga-se de passagem, um dos lugares mais bonitos que vi na vida.

Acordei ao outro dia e me embrenhei no ocidente: a volta tinha começado. Olhei para trás e para o mar e lá do outro lado vi ela, a mãe. Acenou-me e gritou-me para não esquecer de fazer minhas lições todos os dias, e caso tivesse dificuldades, olhasse em meu bolso, pois tinha deixado um pequeno Pitágoras comigo.

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Platão (D) e Aristóteles (E). Fotógrafo: Rafael Sanzio.

Ethkaristó mãe querida, e até à volta.

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ZTCT2009: Costa di Amalfi, Paestum, Brindisi e o Deck Azul.

October 28, 2009 · 1 Comment

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Costa di Amalfi: Positano.

Bem, vamos voltar aos trabalhos, que agora sossegou. Estou no caminho da volta já, neste momento na França. Tenho só mais alguns posts e aí fecho essa etapa da minha vida e do blog.

Costa de Amalfi é conhecida por ser a Riviera Italiana. Logo, não tenho muito o que falar que não esteja nos vídeos e nas fotos que fiz de lá. Sinceramente, acho que esses lugares a natureza, a paisagem, o azul do céu falam por si e são todo argumento, com toda legitimidade auto-inclusa no olho de quem viu. Como eu poderia te descrever um almoço em Positano, olhando o mar arrebentar na pedra? A parada com o carro pra ver a Ilha de Capri ao fundo, o barco cortando o azul infinito de um mar que tanta gente já navegou, gente que a gente chama de antepassados? A noite de sono no hotel com vista para o Vesúvio, que me  encarava como o olho de Polifemo, lá atrás, mas mesmo assim tão perto que não tive medo de passar frio de noite?

 

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Praia em Amalfi.

Em suma, eu prefiro deixar algumas fotos aqui que marcam esse momento de descanso para a cabeça e deleite pros olhos. A Costa de Amalfi realmente é espetacular pela beleza. O banho que tomei no mar, logo depois de Positano, também valeu para relaxar músculos e cabeça da caminhada sobrenatural em Pompéia.

 

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Eu me pergunto como eles cravavam essas cidades na pedra, dessa maneira.

Bem, passei uma noite em Sorrento, depois fiz a volta na Costa e fui para Salerno. Dormi lá e no outro dia acordei e fui para Paestum. É uma antiga colônia grega, assim como Pompéia e tantas cidades romanas. O interessante é que lá há os mais bem conservados templos gregos da Itália. Novamente, foi lição de arquitetura e da relação dela com a religião.

 

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Templo de Ceres. Paestum

Passei uma tarde lá olhando os templos e pensando no que a Grécia me reservava. Sim, nesse momento da viagem eu só pensava na Grécia, nos deuses, nas praias, no ferry, etc. Paestum foi como uma introdução, um prefácio pro que eu ia ver lá do outro lado do Adriático. Falar muito agora vai tirar a graça do que vou falar depois, e não só isso, seria também cair em repetição: apesar da riqueza arqueológica da antiga cidade, Paestum é parte da regra, ou seja, típica cidade romana do período clássico.

 

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Eu & Templo de Netuno (Vulgo Poseidon, nada amigo de Odisseus)

Depois disso, peguei o carro e cobri voado a distância até Brindisi, no salto da bota da Itália. Dormi uma noite lá, no outro dia fui comprar meu ticket para fazer a viagem. Dormi mais uma noite e de tardezinha fui até o porto. Era a primeira vez que andava de Ferry-Boat, primeira vez que via um de tão perto assim, já que no Brasil nem temos esse costume de viajar assim, então eles residem como lendas, criaturas mitológicas que habitam o porto de Santos.

 

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Grraaaauuuurrr! (Elli T. Pireus)

Cheguei cedo e fiquei lá observando os caminhoneiros entrarem de marcha-ré pela boca de engolir automóvel do barco gigante. Quando foi minha vez, entrei, estacionei o carro, peguei minha sacola com os itens pra noite e fui pra minha cabine. Deixei tudo lá e fui pro deck ver o navio deixar o cais. Não tenho como descrever também a sensação de ver a terra ir ficando pequenina, até ficar tão miúda que cabia na cabeça de um alfinete. De ouvir o navio bater na água, e de estar sentado lá sozinho, olhando a lua. Desci, bati papo com os gregos, tomei uma cerveja, e aí veio a idéia de fazer o depoimento. Peguei  a cam, voltei de novo para o deck e fiz o vídeo.

Foi um dos melhores momentos meus-comigo-mesmo da viagem, porque ali eu estava só, passando uma experiência totalmente nova num lugar totalmente novo. Eu estou escrevendo aqui, fecho os olhos, e consigo sentir o vento batendo em mim, ouço a água, sinto tudo de novo. Isso nunca vai sair de mim, nunca. Toda a vez que eu quiser, é só fechar os olhos e eu estou de novo naquele deck pintado de azul, com as cadeiras de ferro, sentado, vendo a luz refletir no mar, a costa da Itália beeeem ao longe. Sou eu em cima do Mar de Adriano, o mar que me levou pra Grécia querida, que tanto bem e tantas experiências fantásticas me trouxe. Eu pensava que a viagem estava ótima, mas a Grécia me fez rever conceitos como “tá bom” “demais” e “puta que pariu… sensacional!”.

 

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Companheiro de viagem.

Uma viagem como essa é cheia de momentos mágicos, lugares mágicos. Mas uma coisa que eu fui aprendendo, e que agora está se consolidando em mim, é curtir mais ainda o simples. Nos posts anteriores eu falei de museus, quadros, igrejas, lugares mil. Neste eu falei disso um pouco, mas tudo serviu para chegar aqui e eu te contar da cadeira de ferro no deck azul. Eu não consigo sintetizar o poder daquela cadeira de ferro no deck azul, e por isso gravei o vídeo para falar de tudo, porque falando de tudo eu não falava da cadeira em específico. Eu fecho os olhos agora e lembro da paz do céu aberto de noite de lua cheia no meio do mar. Olho pra baixo da minha mesa aqui e láaaaa embaixo vejo o mar batendo na proa branca do barco da cadeira de ferro do deck azul. Todo lugar que eu for, eu já te disse isso, eu estou de novo na cadeira de ferro do deck azul. Para isso, basta fechar os olhos.

 

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Terra à vista: Patraso, Grécia.

Depois de algum tempo de solilóquio, eu desci pra minha cabine. Deitei ao som da lua lá fora, iluminando a água. Fechei os olhos e não sonhei, porque sonho geralmente é o nome daquilo que a gente quer pra gente, que se deseja, que se espera. Tudo que eu queria estava acontecendo comigo. Por isso, nesse dia eu dormi e quando fechei os olhos, tudo que eu vi foi um céu azul infinito, e um menino em órbita que flutuava numa cadeira.

 

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Parákalo Hellas!!!

No outro dia acordei na terra dos meus deuses pessoais. Patraso, meu destino, se desenhava no horizonte como uma dessas águias que Zeus manda para avisar os mortais do inevitável que está para acontecer. Com a minha câmera comecei a registrar os augúrios do dia que começava. O barco aportou, retirei meu carro. Do lado de fora, vi uma placa escrita assim:

ΑΘΗΝΑ -> (Atenas ->)

Olhei, balancei a cabeça num gesto de incredulidade, e quando engatava a quinta-marcha pensei de mim para comigo mesmo:

“É deusa, CHEGAMOS!”

Lá do alto Atena sorriu: mais alguns quilômetros eu entraria debaixo das cobertas do berço da civilização ocidental.

 

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(Y)

Mas isso é papo para a próxima Odisséia.

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ZTCT2009: Pompei

October 18, 2009 · 6 Comments

Bem vindo à cidade-fantasma.

Bem vindo à cidade-fantasma.

Eu deixei Nápoles em um dia chuvoso: final de setembro, outono ali na porta já batendo para entrar. Peguei uma secundária cortando algumas cidadezinhas no caminho até Pompéia. Dia fechado, frio e eu buscando ser racional e pensando: “ok, nada de fotos, passeio rápido… não tem jeito”. Cheguei na entrada para o sítio arqueológico, descobri que tinha perdido meu guarda-chuva azul e tive que comprar um outro enorme, colorido com as cores da bandeira italiana, que quando uso me tornam localizável por satélite. Carreguei comigo só o iPhone (L) e pensei que ia ter um dia só para mim também. Sim, quem viaja fica preocupado com o registro, tirar fotos, mostrar para família, amigo, cachorro. Além disso, eu ainda me fiz o favor de comprar outra cam, e agora além das fotos, tenho que me preocupar com os vídeos para mostrar para a família, amigo, cachorro. Fiquei até aliviado com essa chuva, e larguei tudo no carro, e como o celular tava a tira-colo mesmo, tomei o rumo da entrada e desencanei.

A Basílica de Pompéia. A basílica era uma construção que tinha várias funções, mas funcionava como um lugar de reunião pública geralmente com fins sociais ou políticos. Julgamentos, inclusive, eram realizados dentro dela.

A Basílica de Pompéia. A basílica era uma construção que tinha várias funções, mas funcionava como um lugar de reunião pública geralmente com fins sociais ou políticos. Julgamentos, inclusive, eram realizados dentro dela.

Eu tinha uma idéia de Pompéia como uma enorme ruína. “- Sim, caramba, o que uma cidade que foi soterrada por uma ERUPÇÃO VULCÂNICA tinha para mostrar?” pensava eu. Isso me ajudou também a me sentir mais aliviado de não estar carregando a parafernália de registro comigo: “- Tem nada pra ver mesmo, vou passear, relaxar, e depois tomo o rumo da Costa de Amalfi” (próximo post).

Eu esperava encontrar SÓ isso...

Eu esperava encontrar SÓ isso...

Paguei a entrada, peguei o audio guide e cruzei a porta e aí, susto: não é só ruína, é uma cidade quase totalmente de pé. Sim, construções e construções e mais construções muito bem conservadas. Fiquei meio bobo, pensando “Hã?!?!?” e aí quando fui descendo mais para dentro da cidade, e que num dos muros de uma das casas eu vejo um GRAFITE romano no muro eu pensei “ô vulcãozinho de merda!”. Ok, nem pensei isso que eu nem sou louco, que ando tanto tempo aqui pelo mundo clássico que já estou acreditando em deuses de novo: pedi inclusive permissão para POSEIDON para tomar banho de mar em Santorini. De qualquer maneira, eu fiquei um tempo parado no meio da rua tentando me localizar e entender. Ouvindo a conversa do audio-guide eu descobri que Pompéia começou a ser escavada ainda no século XVIII, ou seja, é um trabalho antigo, e por isso, muito da cidade pode ser conservado. Minha postura mudou de blasé para eufórico-triste, porque senti que o tempo que tinha não ia ser suficiente: sim, precisava de uma três vidas lá dentro, revirando pedra e falando com caramujo. Mas eu me conformei, e disse pra mim mesmo que só ia embora arrastado pelos seguranças, alta noite, quando não conseguisse mais me esconder deles.

Pichação romana em uma casa de Pompéia. Na parede está escrito "É nóis!" (tradução-livre do autor do blog).

Pichação romana em uma casa de Pompéia. Na parede está escrito "Eh nóis nah fita truta!" (tradução-livre do autor do blog).

Bem, faço piada, mas o que eu senti está longe disso. Gradativamente, ao andar pelas ruas e entrar na casa dos antigos residentes e ver as pinturas nas paredes, tudo conservado como exatamente era ou ao adentrar no “coleseum” da cidade pela mesma entrada que os gladiadores usavam e me ver no meio da arena, eu consegui mergulhar naquele tempo de novo. E isso foi possível justamente por conta da chuva: a cidade estava praticamente vazia, com poucos turistas se aventurando a andar por lá. A chuva passou mas ficou o número reduzido de pessoas. Bem, museu quanto mais vazio melhor: por isso gostei tanto do Museu Arqueológico Nacional de Nápoles, porque não tinha quase ninguém e eu ficava pensando “-TODO MEU HAHAHAHAHA TODO MEU!!!!!”. Imaginem agora eu com UMA CIDADE toda pra mim? Não é exagero, eu sentia tanto prazer, mas tanto, que minhas ex-namoradas que me desculpem, mas chorei por vós! Se não fosse o profundo sentimento de respeito e admiração que me veio não sei de onde, eu não andaria pela cidade, eu quicaria pelas paredes, tipo noviça rebelde do mundo clássico.

Uma cidade arqueológica VAZIA! Zenzazional...

Uma cidade arqueológica VAZIA! Zenzazional...

Bem, passada a euforia dessas descobertas eu me concentrei. Logo depois de um tempo ouvi uma voz no meu ouvido, que dizia algo assim:

“- Ouvi os mortos.”

Eu não entendi de começo. Ouvir os mortos? Bem… eu me concentrei e a voz continuou dizendo isso e eu vi que tinha algo para acontecer COMIGO ali. Eu não tinho ido a Pompéia à toa, tinha um porque deu estar ali. Não era só passeio e masturbação cultural para nerd-feliz, tinha algo mais no ar da cidade, algo em cada pedra velha que eu pisava. Eu fui concentrando, concentrando, concentrando…. e aos poucos fui entendendo o que eu tinha para fazer na cidade fantasma. Quando em Roma, seja como os romanos certo? Em Pompéia, você tem que aprender a se portar como os habitantes de lá, e para isso, tem que ouvir os mortos.

O atrium de uma casa romana. Peculiaridade arquitetônica: as casas romanas não tinham janelas voltadas para o exterior, para preservar a privacidade dos moradores, que ficavam voltadas para o átrio.

O atrium de uma casa romana. Peculiaridade arquitetônica: as casas romanas não tinham janelas voltadas para o exterior, para preservar a privacidade dos moradores, que ficavam voltadas para o átrio.

Eu me sentia estranho, estranhamente feliz. Muito feliz, calmo, sereno… sim, sereno é a palavra. O vento frio da chuva que varria o pé da Montanha-vulcão tinha algo a mais nele, como um perfume de um tempo que eu tinha visto. Era mais que um dejá vu, porque eu me sentia ali de fato. Eu parava em esquinas da cidade, e não fazia nada mais que sentar na calçada e olhar para as casas. Eu fui até o extremo norte dela, já no fim do dia, na Via Vesuvio, e sentei. Fiquei ali só ouvindo o vento, só. Eu e ninguém, ou ninguém que a gente veja assim. Um vento frio, bom e o barulho dele no ouvido, aquele assovio que mais parecia um convite: ouvi os mortos.

Detalhe da decoração interna da casa da foto anterior.

Detalhe da decoração interna da casa da foto anterior.

Eu ouvia isso, mas não tinha conseguido ver nenhum: sim, há exposto em Pompéia pessoas que foram soterradas pelas cinzas do vulcão, e estão lá até hoje. O problema que eu não sabia onde era. A cidade é enorme, tinha pouco tempo, queria ver, mas não sabia. Estava na rua pensando nisso quando um grupo de BRASILEIROS passam e comentam que ouviram um inglês dizer que era no número 36 do mapa. Eu nem puxei conversa com eles, como faço normalmente, porque gosto de ouvir as impressões de brasileiros aqui pela Europa, e só me contentei a rir: para que não tivesse erro, eu ouvi em bom português onde estavam os mortos da cidade.

A cozinha de uma casa romana ficava literalmente na ENTRADA da casa. Eu fiz essa foto da calçada, na rua.

A cozinha de uma casa romana ficava literalmente na ENTRADA da casa. Eu fiz essa foto da calçada, na rua.

Fui andando, chego lá e vejo que área toda está interditada. E agora? Agora? Simples, invadir. Sim, eu não tinha andado mais de 5000 kms, tinha ouvido o que tinha ouvido para chegar lá e não ver eles. Passaram o dia me chamando, o dia me contando aquele fatídico dia de 79 d.C., e eu tinha ido longe demais para deixar de vê-los por conta de uma cancela vermelha. Pulei e fui andando até o endereço, e não me espantei de não ter um segurança sequer na área, ninguém de ninguém. Era o meu dia, o dia de ouvir, conversar e ver os mortos.

A arena ("coleseum") de Pompéia.

A arena ("coleseum") de Pompéia.

Cheguei ao número 36, que é uma elevação numa casa, protegido por um vidro. No chão, 3 corpos soterrados de cinzas. Um rapaz sozinho, e uma mulher abraçando o que me pareceu um jovem. Cobertos das cinzas, elas conservaram nos rostos a impressão da força do vulcão, aquela expressão de terror-resignado de quem sabe que encontrou a morte. Ninguém perto de mim, eu e eles. Fiquei um tempo ali, mas não fiquei satisfeito. Fiz algo que é condenável arqueologicamente, apesar do meu cuidado: eu pulei o murinho e fui até alguns passos deles. Fiquei longe, não toquei em nada, e me concentrei na área que vi as marcas das botas dos pesquisadores, mas não me orgulho do que fiz. Todavia, fiz o que fiz porque sentia uma força em mim que me compelia, algo que eu não sei explicar, como não sei explicar muito do que senti o dia todo. Digo isso, porque eu sou do tipo que não tira foto com flash, não toco nada, não avanço, enfim, respeito todas as regras. Mas esse dia, não sei o que tinha comigo e com o lugar, eu simplesmente sentia esse “TENHO que” dentro de mim.

A foto é de celular, não é boa... mas bem na esquerda está o rapaz sozinho deitado. Dá pra ver o formato da perna dele, e o calcanhar, pé. Abstraiam e façam força, dá pra ver o pedaço do esqueleto dele a mostra. Foi o que consegui fazer de foto.

A foto é de celular, não é boa... mas bem na esquerda está o rapaz sozinho deitado. Dá pra ver o formato da perna dele, e o calcanhar, pé. Abstraiam e façam força, dá pra ver o pedaço do esqueleto dele a mostra. Foi o que consegui fazer de foto.

Cheguei perto deles, e bem, a intenção era dar a volta pelo círculo e vê-los de todos os ângulos, porém… eu não consegui! Sim, quando eu pulei o muro eu senti uma “força” que enterrou meus dois pés no lugar. Olha, se eu não acreditasse em tudo que já acredito, saíria de lá acreditando, porque eu esbarrei numa espécie de “redoma” que ordenava a não avançar mais um centímetro do lugar que estava. Foi tão forte isso, mas tão forte, que eu senti dificuldades de virar as costas e ir embora. Eu fiquei lá olhando pra eles. Um deles, o rapaz sozinho, a cinza tinha caído do calcanhar e os ossos estavam expostos. Ele estava na minha frente, eu fiquei ali contemplando aquela família, os pés fixos no chão, dificuldade de me mover para tirar foto. Só fui embora depois de um tempo, quando me senti “autorizado” a ir. E aí, pulei o muro de volta e fui embora. Realizado, porém, receoso: senti que tinha ido longe demais, passado dos limites. Meu palpite estava certo: passei as duas noites seguintes experimentando sensações estranhas, que só passaram quando eu juntei as duas mãos e pedi desculpas a “eles”, ao mesmo tempo que expliquei o que senti. Funcionou, e a partir da terceira noite, a paz voltou, ficando só as impressões maravilhosas do passeio todo.

Uma imagem "inspiradora" na parede de um dos bordéis de Pompéia. Os bordéis geralmente eram para a plebe: os ricos recebiam os "serviços" em casa mesmo.

Uma imagem "inspiradora" na parede de um dos bordéis de Pompéia. Os bordéis geralmente eram para a plebe: os ricos recebiam os "serviços" em casa mesmo.

Ficou a lição de que esses lugares antigos estão recheados de energias, que lá foram colocadas por pessoas que pensavam e muitas vezes pensam diferente de nós. Isso é o que eu acredito claro, mas se você quer o meu conselho, eu te digo para no seu ceticismo manter o respeito: não toque, não invada, não faça piada, mantenha-se na postura de quem quer aprender, ver, se maravilhar. Além do dia fantástico, Pompéia me ensinou isso, ensinamento que eu comecei a aplicar e que aqui em Atenas me reservaram os melhores dias da viagem: caminho por entre ruínas e mortos agora e em todos esses lugares faço amigos nos dois planos, porque sempre peço permissão antes de avançar um passo sequer.

A "Casa do Fauno", de onde foi retirado o mosaico da "Batalha de Issus", que falei no post de Napoli.

A "Casa do Fauno", de onde foi retirado o mosaico da "Batalha de Issus", que falei no post de Napoli.

Vi o pôr-do-sol no fórum da cidade, ao lado de onde ficava o antigo local onde se trocava moedas estrangeiras por moedas da cidade. Na minha frente o Vesúvio, naquele jeito dele de dizer que sempre vai estar lá, e que nós não. Fiquei alguns minutos sentado ali ainda, fiz algumas fotos (do carro, minhas câmeras arrumaram um jeito de me assediar mentalmente, obsessoras que são) olhando pro velho vulcão. Pensei de novo em tudo que vi, nas casas, inclusive no Bórdel que entrei, com as pinturas na parede, e naquela cidade que parou no tempo. Fechei os olhos e vi a praça cheia de vendedores, de pregadores convocando alguma assembléia, do patrício que passava na sua liteira, da gente apressada que esbarrava em mim sem esbarrar, sem a mínima curiosidade comigo, afinal para eles eu sou o morto, cego, que não vê nada.  Deixei com eles o meu carinho, ajeitei a minha toga e quando estava para ir, olhei para o lado: era o meu amigo, a voz no meu ouvido, Ovídio ocasional de quem se aventura a ser Dante por ali. Ele me abraçou, e fui tomando o rumo da porta da cidade, enquanto sentia no peito a gratidão por esse dia nada convencional.

O mercado de moedas.

O mercado de moedas.

O que eu tinha ido fazer lá? Ouvir os mortos de novo. Tinha passado esse tempo todo longe deles, sentindo-me o mais injustiçado dos humanos. E aí eles me convidam para a cidade deles, cantam para minha aquela canção antiga e me lembram do enorme carinho que eles têm não só por mim, mas por todos nós.

Farewell. Ao fundo, o Vesúvio.

Farewell. Ao fundo, o Vesúvio.

Quando você for a Pompéia, peço que lembre-se de mim, e faça como eu: ouvi os mortos. Garanto que a estória que eles vão te contar, guia de carne e osso nenhum vai conseguir reproduzir.

Arena & um esgrimista do bigode de volta perdido.

Arena & um esgrimista do bigode de volta perdido.

Vejo vocês do outro lado.

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ZTCT2009: Napoli

October 17, 2009 · 1 Comment

"A Primavera" (Museu Nacional Arqueológico de Nápoles).

"A Primavera" (Museu Nacional Arqueológico de Nápoles).

Chegando em Nápoles eu cumpri um dos side-quests da viagem: visitar as três cidades-portos de onde o capitalismo pela primeira vez hasteou vela. Tinha visto Veneza em 2007, vi Genova quando entrei na Itália, e agora entrava na última delas. E minha exploração da cidade consistiu parte nisso: de andar pela beira do mar e ficar vendo caravela ou tireme fantasma chegando e partindo. De observar como nessas três cidades, manifesto na estética das ruas à arquitetura, a cidade inteira parece querer se lançar ao mar, num desses ímpetos saudosos de amante de marinheiro. Cada pedacinho de terra abraça, e não só toca, o mar. Cada espaço na areia ou na pedra é um porto.

Castelo Nuovo.

Castelo Nuovo.

Minha estada na cidade foi mais também para descanso. Sim, eu estava com estafa mental dos mais de 10 dias em Roma enfiado em cada buraco que me falasse de algo que tinha acontecido miletantosanosatrás. Eu gastei um dia inteiro no Coleseum, lendo tudo da exposição do Vespasiano. Fiquei enfiado outro dia nos Museus do Capitólio, lendo cada inscrição em pedra. Outro no Fórum, de cabeça torta pra entender o mármore no chão, e por aí vai. Tudo isso com audio-guide no ouvido, guia na mão, leitura da internet, etc. E aí, no final, senti que não estava mais conseguindo absorver muita coisa, e resolvi descansar.

Museu Arqueológico.

Museu Arqueológico.

Entretanto, em Nápoles está um dos Museus Arqueológicos mais importantes do mundo. Por isso, fiquei um dois dias andando na beira da praia, pedindo à Júpiter-Capitolino aquela força que antecede triunfo. Dormi até tarde, enchi a barriga de espagueti e frutos do mar e no terceiro dia ressucitei a cabeça e fui lá, ainda meio cético se o que ia ver ia me impressionar tanto assim….

O famoso "Hércules" que Napoleão deixou pra trás no saque que fez quando da conquista da Itália. Segundo contam, o pequeno-notável teria manifestado mais de uma vez o pesar por ter cometido esse "erro".

O famoso "Hércules" que Napoleão deixou pra trás no saque que fez quando da conquista da Itália. Segundo contam, o pequeno-notável teria manifestado mais de uma vez o pesar por ter cometido esse "erro". (Museu Arqueológico)

Impressionou. O Museu Arqueológico Nacional de Nápoles é onde está a coleção dos mosaicos romanos encontrados em Pompéia. Além disso, no “Gabinete Secreto” está a mostra de arte erótica romana, que geralmente adornava bordéis, mas que também se encontrava na casa da gente comum, porque pra quem não sabe, Venerius era um deus, que se pedia proteção e sucesso, antes de cada orgia. Era uma espécie de Baco, um deus das “festas”, mas você faz o favor de ler “festa” com um sorriso no canto da boca. Doença “Venérea” vem daí.

O "Gabinete Secreto". M.A

O "Gabinete Secreto". (M.A).

De qualquer maneira, tempos atrás eu comprei aquele documentário da BBC sobre Alexandre o Grande, que o repórter fez os passos dele pela Ásia. E quando ele foi falar da batalha dele contra o Dário III, mostrou um mosaico criado por um artista romano retratando justamente o momento da batalha, quando Dário percebeu que o jovem macedônio ex-tutelado de Aristóteles era encrenca demais pra ele. No mosaico, os olhos abertos em gesto de terror e incredulidade de Dário de um lado, do outro, a face da serenidade e confiança do herói do helenismo, que precisou de 2 anos apenas para unir ocidente com oriente. Os cavalos macedônicos e gregos atropelando soldados persas no chão, estatelados.

O Mosaico da Batalha de Issus. Encontrado na "Casa do Fauno" em Pompéia. Autor, até onde eu sei, desconhecido.

O Mosaico da Batalha de Issus. Encontrado na "Casa do Fauno" em Pompéia. Autor, até onde eu sei, desconhecido. (M.A.).

Eu lembro de assistir o documentário e ficar impressionado pela vividez dessa obra-de-arte, coisa que o pessoal da BBC ressaltou na narração. E, bem, eu estava lá andando pelo museu, faço uma curva ali, outra aqui, e no canto do meu olho vi algo enorme na parede, na parte dos mosaicos. Eu me viro e vejo: era o mosaico do documentário. Esse mosaico foi encontrado na famosa “Casa do Fauno” em Pompéia, que eu visitei e que falo no próximo post. Não tem autoria certa, mas retrata a Batalha de Isso, entre Alexandre o Grande e  Darius III e marca a vitória decisiva do general macedônico sobre os persas.

As memórias sobre Alexandre são diferentes, se nos deslocamos para o oriente. No Irã, ele até hoje é lembrado pela alcunha de "demônio" em vez de "o Grande". Vencedor e derrotado geralmente não vêem as coisas do mesmo jeito. (Pintura encontrada em Pompéia, de Baco - M.A.)

As memórias sobre Alexandre são diferentes, se nos deslocamos para o oriente. No Irã, ele até hoje é lembrado pela alcunha de "demônio" em vez de "o Grande". Vencedor e derrotado geralmente não vêem as coisas do mesmo jeito. (Pintura encontrada em Pompéia, de Baco - M.A.)

O painel é impressionante, arrebatador, como toda obra-única. Tem por volta de 3 para 4 metros de altura, por 6 ou 7 de comprimento. Levou 6 anos para ficar pronto, e o artista utilizou mais de um milhão de pedrinhas coloridas. Tudo isso para te colocar de volta no campo de batalha num dos momentos mais importantes para a história mundial: depois dessa batalha, Alexandre consolida o poder ocidental sobre a ásia. O mundo a partir de agora se tornava uma ágora, e o conhecimento grego se espalha e se mistura, enriquecendo e sendo enriquecido.

Os famosos mosaicos de Dióscorides de Samos, artista romano que trabalhou para as famílias ricas de Pompéia.

Os famosos mosaicos de Dióscorides de Samos, artista romano que trabalhou para as famílias ricas de Pompéia. (M.A.).

Eu podia ficar mileumanoites falando de Alexandre aqui, Sherazade que sou do mundo helênico no geral. Pouparei-os de meu tietismo, mas fica mais um registro disso que foi uma das grandes lições que esta viagem me trouxe: o potencial de ensinamento que uma obra de arte pode te trazer. Olhando pro painel eu pude ressucitar em mim coisas que muito tempo não refletia. Alexandre o Grande (Ἀλέξανδρος ὁ Μέγας ou Μέγας Ἀλέξανδρος, em grego), filho de Felipe II da Macedônia. Aos 20, com o assassinato do seu pai se torna rei. Pouco antes ouviu dele a profecia que o fez ir até os confins da Mongólia: “Meu filho, conquite para você outro reino, porque este que lhe deixo é muito pequeno para ti”. Tal fez. Aos 22 se tornava senhor supremo da Ásia-Menor, com a derrota de Darius III. Aos 32, morre no Egito. Em menos doze anos, um jovem que nem era homem ainda mudou a história mundial e uniu o globo. Os gregos aprendem mais matemática e conhecimentos de navegação com os orientais. O oriente agora lia a escola socrática. O grego se torna a língua-comum do mundo antigo. O grosso disso consolidado em quatro anos, quatros míseros anos. Quatros anos eu levei sentado na UnB para receber o grão-título-da-ordem-dos-Bacharéis. E, pasmem, isso não colocou meu nome nos anais da história mundial, e serviu apenas para criar algumas pontes entre a minha ignorância e o lado de lá do que eu devia aprender.

Todo relacionamento envolve conflito. (Outro mosaico encontrado em Pompéia).

Todo relacionamento humano envolve conflito. (Outro mosaico encontrado em Pompéia - M.A.)

Quatro anos, algumas tropas, cavalos. Imaginem quanto tempo levava pra viajar tal distância no lombo de um animal (um dia de marcha com tropas, dependendo do volume dela, você cobre uns 30, 40 kms). E nesse curto espaço de tempo, contando todas as vicissitudes possíveis, esse MOLEQUE me une o mundo. Isso 2400 anos atrás, quando a internet ainda era movida a pergaminho amarrado na bota de neguinho, que corria mais que ladrão pra chegar a tempo da notícia não ter sido dada por uma pomba do inimigo dizendo “Perdeu Playboy!”.

M.A.

"- Perdeu bodinho!" (M.A.).

À emoção que eu tinha experimentado em Florença com o talho de Michelângelo & Cia, e à força orgulhosa do mármore que o tempo derrubou em Roma, agora se juntavam ao monte de pedrinha que me davam, mais uma vez, aquele tapa de luva de prego da história na minha cara. Pelo tempo que eu estive dentro do Museu Arqueológico de Nápoles, eu tive que tomar cuidado para não tropeçar nos corpos dos persas no chão, esquivar das flechas e lanças e procurar um canto sereno no canto de batalha para ficar apenas olhando a face do menino da Macedônia, temido e respeitado, que com uma espada abriu o crânio do mundo e o deixou ali exposto, preparado para receber os ventos que, com ele, agora vinham de todas as direções.

Oriente e Ocidente começam a caminhar juntos numa mesma direção. (M.A.)

Oriente e Ocidente começam a caminhar juntos numa mesma direção. (M.A.)

Saí do museu e novamente me localizei no tempo e no espaço. Fui descendo a Via Toledo, passei pela Piazza Dante e fui caminhando até o restaurante e fiquei olhando o mar, enquanto esperava os frutos dele para acalmar a fome que me deu depois dessa viagem de dois mil e muitos anos que fiz em algumas horas. Olhava o mar, enquanto agradecia a Júpiter pela força especial do dia e pela vitória que concedeu às forças da história. Estava assim, pensando no que o filho tinha feito, quando na minha frente vi a figura do pai. Parado ao meu lado eu vi Felipe II da Macedônia, vestido ainda com os trajes que o levaram até Bizâncio, me olhando firme nos olhos. Senti aquele arrepio de quando se vê gente morta na rua, mas a sua face orgulhosa e agradecida pelo meu carinho me acalmaram. Ele caminhou até mim, pôs a mão no ombro, e falando uma língua morta disse aquilo que eu já imaginava que ia ouvir. Falou as palavras que nunca vou conseguir traduzir, a não ser que o coração viesse a boca, e em vez de sangue, salivasse sabedoria.  Todavia, a conversa durou o tempo desse toque. A sua mão levantada o tempo todo me mostrava o sudeste, porto da minha alma.

M.A.

Mármore, a pedra de esculpir fantasma. (M.A.).

Chegou a comida e ele se foi. Enquanto flutuava no ar, eu pensei no meu caminho. Logo-logo estaria na Grécia. E para se certificar disso, Zeus fez questão de mandar um dos seus filhos diletos lembrar-me que todo o reino vale a pena, quando a alma não é pequena.

Mas, antes disso, eu tinha alguns espíritos e demais fantasmas para visitar e conversar. Próxima parada: Pompéia.

O campo de batalha. (M.A.)

O campo de batalha. (M.A.)

Até já.

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ZTCT2009: Roma

October 14, 2009 · 1 Comment

Coloseum & Cruz. Uma ilustração da plasticidade ideológica da cidade-deusa.

Coloseum & Cruz. Uma ilustração da plasticidade ideológica da cidade-deusa.

Roma é uma deusa, dessas mulheres clássicas que não se vê mais por aí: vestido longo de mármore até o tornozelo, cabelos preso em coque, braços esguios e um olhar penetrante de pedra que te gela os ossos, se não fosse o leve sorriso de talho artístico que adorna a boca em forma de sempre-convite, que te faz relaxar e pedir o secondo piato, que ela mesmo te serve, porque apesar de deusa, Roma é uma mulher à moda antiga.

Uma senhora, inúmeros súditos. (Museus do Capitólio)

Uma senhora, inúmeros súditos. (Museus do Capitólio)

Roma fala alto quando é escutada e grita se você não a entende. Parece que está sempre irritada, porque gesticula pra tudo, como se no lugar de dedos tivesse mil línguas, cada uma de cada um dos povos que a co-habitam há mais de 3000 anos. E falando de idade, por ser pedra de gênio, filha de cinzel maestral, ela é exuberante no esplendor do carrara, esteja ele de pé, ou caído cansado pelo chão. E também, não custa te lembrar que isso de tempo só funciona para mim e para ti, pois se você falar disso com a deusa ela vai rir e te deixar sem graça, pois mesmo quando um século leva dela um pedaço do nariz, ou um membro inteiro, ela ainda é linda. Na nudez do muro que falta no Coleseum de Vespasiano, ou no monte de pedrinha junta que é o Fórum de Otaviano, o Augusto, é que a deusa mostra que ainda está inteira, completa. Só não vê isso quem sofre desse vício de gostar de pedaço junto.

Fórum.

Fórum.

Como toda filha da rocha, Roma é insaciável. Incansável por índole é verdade, mas com seus momentos de beleza de diamante: há de se trabalhar pra se remover o bruto de cima. Para quem chega do norte, e acha que é passeando que se conhece, ela fala o inglês de taverna, serve o vinho da casa e a pasta do dia sem muito se incomodar. Agora para aquele que chega de longe já, cansado do frio, ela conversa e fala de tudo: do futebol, do Berlusconi, e do futebol do Berlusconi. Ri contigo um riso límpido de última martelada, dá-te todo o espaço para opinar dela inclusive, e te escuta com muita atenção. Ao final, discorda de tudo e faz uma piada. Tudo isso em bom latim-moderno, porque se você quer conversar com ela meu amigo, é bom parar com esse costume de bárbaro de falar que nem pássaro e tratar de estudar a gramática dos nossos avós civilizados. Roma é deusa inteligente e educada, e os modos simples e quase rústicos dela são comuns a qualquer mulher que um dia já foi montanha.

Uma deusa-lar para vários deuses. (Panteon)

Uma deusa-lar para todos os deuses. (Panteon)

Impossível não se apaixonar por ela. Há quem resmungue, mas isso é mal-humor de quem vive pra lá da fronteira do Império, antigos curtidores de couro que antes dela achavam que pedras eram para se adorar, e não matéria-prima de deuses e pontes. Dê espaço para ela ser ela mesmo, ria junto com ela, a toque e abrace, e inclusive beije, que no final você vai ver que ela não tem nada de fria, apesar de marmórea, e como uma mãe, vai te colocar debaixo da asa e te apresentar para a grande família da gente de todo o lado que ela alimenta e serve acqua frizzante todos os dias.

Um brincante. (Piazza Navona)

Um brincante. (Piazza Navona)

Fui para quatro dias, fiquei dez, e saí com a alma triste do legionário que amarra a bota. REncontrar a deusa foi um desses momentos da vida que você guarda para comentar quando vê aquele pôr-do-sol bonito com alguém. Cruzar o Rubicão é cruzar o anti-Aqueronte: é relembrar a alegria daquele tempo quando todos nós éramos mais simples, quando só existia uma casa, a Casa de Roma,  e uma bandeira, a da 13a. É sentir saudade de quando o mundo era uma águia dourada no fundo vermelho. Tudo isso está com ela ainda, lá dormindo em forma da lição que toda ruína te dá da perenidade que há em tudo.  Entretanto, a deusa aprendeu a fazer as pazes com seu passado, e hoje em dia esbanja a alegria de mulher madura que já foi senhora, mas não perdeu a pôse quando se viu joía no cetro de um outro rei.

Templo de Júlio César, eregido por ordem de Augusto em cima do lugar onde ele foi cremado. Ave.

Templo de Júlio, o primeiro César, eregido por ordem de Augusto, e que fica em cima do lugar onde ele foi cremado {foto}. Ave, ó divino! (Fórum)

Joguei a moeda na Fonte di Trevi e com isso garanti o meu retorno. Um dia quero abraçar a pérola do Lazzio de novo, e falar do tempo, a piada preferida dela. Quero também sentar na minha mesa debaixo do Templo de Minerva e quando ela me perguntar o quero, responder apenas:

A deusa-enquanto-Loba. (Museus do Capitólio)

A deusa-enquanto-Loba-Mãe. (Museus do Capitólio)

Signorina, una acqua frizzante, per favore.

Igreja de São Paulo-Fora-dos-Muros & Paulo: uma homenagem ao meu padroeiro-inspirador.

Igreja de São Paulo-Fora-dos-Muros & Paulo: uma homenagem ao meu padroeiro-inspirador.

Arriverdeci amica.

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ZTCT2009: Pisa & Siena

October 5, 2009 · 1 Comment

A minha versão da velha piada.

A minha versão da velha piada.

Bem, finalmente consegui um tempo pra atualizar as coisas aqui. O problema de atualizar o blog é que eu preciso parar e ficar mais de alguns dias num mesmo lugar para sentar e colocar as coisas nos trilhos. Entretanto, quando dou essas paradas, eu aproveito pra sair, tomar minha cerveja, aproveitar um tanto da noite, que viver só de dia cansa. E como o álcool é um forte inibidor da minha criatividade, a ponto de não entender a segunda geração romântica, ficam as lacunas.

A vista de cima da torre. Na frente a Catedral, atrás o batistério, acredito eu, porque afinal, a torre tira a atenção do resto. Ah sim, vale dizer que subir a escadaria de uma torre inclinada foi também um desses momentos surreais da viagem. Você tem a sensação de que vai cair, todo o tempo.

A vista de cima da torre. Na frente a Catedral, atrás o batistério, acredito eu, porque afinal, a torre tira a atenção do resto. Ah sim, vale dizer que subir a escadaria de uma torre inclinada foi também um desses momentos surreais da viagem. Você tem a sensação de que vai cair, todo o tempo.

Feitas as explicações necessárias, sigamos. O post é curto porque a passagem pelas cidades foi curta: meio dia em cada. Eu saí de Florença, e fui pra Pisa e passei uma tarde lá. Depois fui direto para Siena, dormi e então na manhã do outro dia fiz o passeio.

Eu JURO que não quis fazer piada, e até pensei em ficar sério na foto. Acho que alguma alma penada galhofeira me empurrou pro lado, é a única explicação que acho.

Eu JURO que não quis fazer piada, e até pensei em ficar sério na foto (nota-se na minha pose e cara de historiador). Acho que alguma alma-penada galhofeira me empurrou pro lado: é a única explicação que acho.

Bem, Pisa todo mundo sabe o que tem lá, e fui lá pra ver isso e fazer aquelas fotos ridículas, fazendo piada com o erro de engenharia dos outros, onde se tenta algo novo, mas nunca consegue. A cidade não tem nada fora essa praça central onde fica a torre, que é muito velha e que custa 15 euros para subir. Coisa normal na Itália: você sempre paga caro pra ir nos lugares. Eu sempre me irritava de lembrar do preço do Louvre, para não dizer de não ter desembolsado um pound sequer pros museus de Londres. Paguei pra entrar em Westminster, e agora pensando, vejo que nunca vamos parar de pagar “dízimos” para as igrejas, independente da orientação delas. Sei que custa dinheiro conservar e restaurar, mas acho que o preço pedido sempre é maior do que o realmente gasto.

Qualquer semelhança com Florença não é mera coincidência [1]
Qualquer semelhança com Florença não é mera coincidência.

Siena é dessas cidades medievais: em cima do morro, cheia de ruas de pedestre que carro não entra, sem saída e confusa. Fiquei mais tempo esquivando de contra-mão do que realmente de fato procurando hotel. Por conta disso, tive que sair e me hospedar fora da cidade. No outro dia voltei pra cidade e fiz o tradicional tour. Tinha lido que o Duomo de lá era um dos mais famosos da Itália, e realmente não me decepcionei: outro trabalho primoroso do Di Cambio e companhia. Fora isso foi o fato que infelizmente cheguei algumas semanas depois dos “Palios”, as corridas de cavalo que fazem a fama da cidade, e não pude assistir ao espetáculo.

Isso é dentro do Duomo. Interessante dessa foto são esses objetos na parede. Estão relacionados a graças recebidas em recuperação de acidentes, de problemas, etc, como dá pra ver pelos capacetes de moto, abundantes por sinal. Isso é a versão católica das chamadas "oferendas votivas", um gesto religioso que existe desde a antiguidade. Como se vê, as tradições se misturam e se completam, muito mais do que se excluírem.

Isso é dentro do Duomo. Interessante dessa foto são esses objetos na parede. Estão relacionados a graças recebidas em recuperação de acidentes, de problemas, etc, como dá pra ver pelos capacetes de moto, abundantes por sinal. Isso é a versão católica das chamadas "oferendas votivas", um gesto religioso que existe desde a antiguidade. Como se vê, as tradições se misturam e se completam, muito mais do que se excluírem.

Bem, feito o passeio eu mirei o carro na direção da jóia do Lazzio: Roma. A excitação só crescia no caminho. Almocei em um posto de gasolina em algum lugar da Umbria, rápido, porque tudo que eu queria era chegar logo. Roma sempre foi um sonho pra mim, um sonho de conhecer, de estar, de ver, de apalpar.

"O púlpito de Siena, feito em mármore de Carrara, foi esculpido em 1265, por Nicola Pisano e seu filho, Giovanni Pisano, bem como seus assistentes Arnolfo di Cambio, Lapo di Ricevuto e vários outros artistas. É a obra mais antiga da igreja. Nicola Pisano ganhou essa encomenda a partir de seu trabalho no púlpito de Pisa. Esse em Siena é mais ambicioso e é considerado sua obra-prima. Toda a mensagem do púlpito é centrada na doutrina da Salvação e no Julgamento Final. A escadaria foi feita em 1543 por Bartolomea Neroni. Mostra as influência do Gótico do norte, adaptados por Pisano, e ainda várias influências clássicas". (Wikipédia).

"O púlpito de Siena, feito em mármore de Carrara, foi esculpido em 1265, por Nicola Pisano e seu filho, Giovanni Pisano, bem como seus assistentes Arnolfo di Cambio, Lapo di Ricevuto e vários outros artistas. É a obra mais antiga da igreja. Nicola Pisano ganhou essa encomenda a partir de seu trabalho no púlpito de Pisa. Esse em Siena é mais ambicioso e é considerado sua obra-prima. Toda a mensagem do púlpito é centrada na doutrina da Salvação e no Julgamento Final. A escadaria foi feita em 1543 por Bartolomea Neroni. Mostra as influência do Gótico do norte, adaptados por Pisano, e ainda várias influências clássicas". (Wikipédia).

Todo mundo tem esse lugar, eu na verdade tenho mais de um, mas a cidade-da-margem-de-lá-do-rubicão sempre me fascinou. Quando apareceu a placa me avisando que eu deixava a Itália para entrar em Roma, eu dei um longo suspiro e desamarrei a sandália. A sensação que eu tive foi de voltar pra casa.

Museu do Duomo.

Museu do Duomo.

Mal sabia eu o que a deusa me reservava.

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ZTCT2009: Firenze.

September 22, 2009 · 2 Comments

Il Duomo (Cattedrale de Santa Maria del Fiore): Battistero, Duomo, Cupola.

Il Duomo (Cattedrale de Santa Maria del Fiore): Battistero, Duomo, Cupola.

Florença foi uma das pérolas da viagem. Pérola pela beleza da cidade, pela boa comida (eu não comi comida ruim na itália, tirando um troço esquisito que pedi que nem lembro o nome, mas ok), todavia o motivo principal que para mim coloca ela no itinerário OBRIGATÓRIO de qualquer cristão ou mouro que por aqui vem, é a riqueza cultural e histórica, que cada muro ou rua estreita tem para te contar.

Il duomo: Battistero (vista de cima do duomo)

Il duomo: Battistero (vista de cima do duomo)

Para entender Florença você deve se fazer algumas perguntas: “Por que os mestres do Renascentismo, inclusive o maior deles, nasceu em Florença?”. “Por que um dos maiores nomes da literatura mundial era de lá?”. “Por que um dos maiores nomes da teoria política moderna é de lá?”. “Por que? Por que Leonardo nasceu em da Vinci mas foi buscar imortalidade lá?”.  Das quatro perguntas surgem quatro nomes: Michelângelo, Dante, Maquiável, Leonardo. Coloquem esses quatro senhores um do lado do outro e escreva em letras garrafais em cima “Cultura Ocidental, tal como a gente se orgulha dela” e não estará comentendo nenhum exagero, pelo contrário, apenas atestando bom-senso.

Duomo: interno.

Duomo: interno.

E aí, eu com isso na cabeça começo a andar. Só a fachada exterior do Duomo de Florença, já me deixou… mesmerizado. Eu olhava cada detalhe daquele, e imaginava a mão de um gigante retirando beleza da pedra fria. De um Arnolfo di Cambio sentado em sua prancheta, numa espécie de transe julioverniano, antevendo cada arco e abóbada que ele riscava, que ao final se transformaram em testemunhos e um presente para humanidade. E quando entrava em cada templo desse, e topava com os afrescos ou pinturas desses mesmos mestres, artistas completos, senhores de um período onde a obra de arte era total (começava na planta arquitetônica, passava pela escultura e terminava no colorido da parede), eu sentia orgulho de ser da mesma espécie que eles.

Santa Croce: interior.

Basílica de Santa Croce: interior.

O Renascimento, para mim, é um momento de muita coragem, não só estética, mas filosófica. Quem viu o painel do “Dia do Julgamento” na Capela Sistina, em Roma, entende porque Michelângelo foi quem foi. Homem de muita cultura, de um conhecimento de teologia que dobrou um Julius II, soube usar a simbologia para deixar uma mensagem onde o homem, até então figura sempre submissa – fosse ao cetro, cajado ou espada – saía do umbral da história e ganhava centralidade. O Renascimento legou à filosofia os moldes para o encaixe posterior do racionalismo-humanista: Kant, sem nunca ter saído de sua cidade, existiu antes nas paredes das igrejas de Florença e Roma.

Eis a Pintura.

Eis a Pintura.

Quando Michelângelo pinta o “Ecce Homo” na abóboda central da Catedral de Florença, mais do que estar cumprindo exigências ideológicas, está na verdade deixando em parede um manifesto antropológico: a frase vem sobre Jesus, que deixa de ser figura divinizada e distante para se tornar o exemplo de homem. Para os Renascentistas, o Cristo, apesar de surgir como um ideal a ser seguido, é introduzido à humanidade como seu congênere: “Eis o Homem”.

Davi, do mestre. Galleria dell'Accademia. (foto minha. como eu consegui tirar a foto? se eu fosse contar o tanto de esculhambação que estou tomando nesta viagem por fazer foto/vídeo proibido. sinceramente acho o cúmulo isso, e registro sim)

Davi, do mestre. Galleria dell'Accademia. (foto minha. como eu consegui tirar a foto? se eu fosse contar o tanto de esculhambação que estou tomando nesta viagem por fazer foto/vídeo proibido. sinceramente acho o cúmulo isso, e registro sim)

Todavia, a contribuição não pára por aí, e vai além da polemização teológica: a humanização de Jesus acaba por dar à religião um caráter histórico. A história existe como nossa história, e a partir do momento que Jesus deixa de ser o “filho de Deus” para se tornar homem, ele automaticamente entra na linha do tempo. Por isso no teto da Capela Sistina Michelângelo pinta os antepassados de Jesus, tal qual discreve Mateus em seu Evangelho. Sutilmente o grande mestre florentino lembra-nos que todo homem provém do homem, Jesus incluso.

"A Vitória", também do mestre. Essa obra é fantástica pela sugestão iconográfica e simbólica. Afinal, todo vitorioso pressupõe um derrotado, que vira prisioneiro do triunfo. Ambos humanos, a vitória porém é mais jovem e desnuda. O resto da crítica fica óbvio.

"A Vitória", também do mestre. Essa obra é fantástica pela sugestão iconográfica e simbólica. Todo vitorioso pressupõe um derrotado, que vira prisioneiro do triunfo. Ambos humanos, a vitória porém é mais jovem, debochada e desnuda. O resto da crítica fica óbvio.

Os Renascentistas conseguiram elaborar em cima dos altares da igrejas um conceito estético-simbolista-filosófico da religião que justamente tirava ela de cima do altar e era apresentada para a humanidade como parte de sua própria história. Fazem isso começando pela figura central: o Cristo que desce da cruz e é apresentado à humanidade por um dos seus algozes como parte dela. Mais do que ironia, ou exagero em colocar na frase de Pilatos o manifesto que humaniza a religião, aconselha-se a não se ver em toda essa simbologia mero acaso: tudo que Michelângelo produziu ou mandou produzir (por meio de seus alunos ou colaboradores) era meticulosamente planejado e embasado no grande conhecimento (tanto teológico como filosófico) que ele possuía.

O túmulo de outro ilustre da cidade: ninguém menos que Galileu Galilei. Eu particularmente gosto mais do Giordano Bruno, por ter ido até o fim com que acreditava. De qualquer maneira, há de se respeitar a contribuição do insígne astrônomo florentino.

O túmulo de outro ilustre da cidade: ninguém menos que Galileu Galilei. Eu particularmente gosto mais do Giordano Bruno, por ter ido até o fim com que acreditava. De qualquer maneira, há de se respeitar a contribuição do insígne astrônomo florentino.

Por ser romano, de uma outra tradição, e homem instruído, Pilatos talvez fosse o único em meio a toda aquela multidão que enxergou o Homem que ali estava. Tanto que manifesta não saber porque pediam com tanta veemência a crucificação. Ao fim, ele termina por também ser humano, romano: “Ecce Homo” acaba sendo imortalizado como gesto da conveniência política do império, de “respeitar” para melhor dominar. Pilatos foi estritamente coerente com isso ao entregar Jesus. Todavia, fez isso em gesto também de ironia, de desafio ao farisaísmo: “Ecce Homo”, apenas um homem, quando despido de toda irracionalidade e radicalismo ideológico. Como uma moeda, o gesto de Pilatos carrega em si essa dupla face interpretativa, que os Renascentistas souberam usar muito bem para confrontar e lançar as bases de uma nova hermenêutica.

Um dos "Quatro Prisioneiros" de Michelângelo, exposto no corredor que leva ao "Davi", na Galleria dell'Accademia. O homem está preso à pedra, ao material, enlaçado, parte ele, parte rocha, inacabado, misturado, grosseiro.

Um dos "Quatro Prisioneiros" de Michelângelo, exposto no corredor que leva ao "Davi", na Galleria dell'Accademia. O homem está preso à pedra, ao material, enlaçado, parte ele, parte rocha, inacabado, misturado, grosseiro.

Bem, com esses comentários espero demonstrar como Florença calou fundo dentro de mim. Entrei lá com uma cabeça, saí com outra. Isso tudo que eu escrevi aprendi lá, olhando para parede de pedra antiga, de entrar na Santa-Croce, no Duomo, na casa do Dante. Com isso eu espero te provar, e também te incentivar, a quando fazer essas viagens buscar crescer junto com ela. Saí dessa magnífica cidade como se meu cérebro tivesse sido tocado por um desses senhores. Partilhar a experiência de viver alguns dias e olhar de frente para você o testemunho da genialidade desses mestres é uma experiência que eu nunca vou conseguir te informar. Eu só te peço para me imaginar ali, em pé, com o audio-guide colado no ouvido, câmera pendurada no peito, de boca aberta, mil pensamentos na cabeça, olho marejado, e tudo que eu conseguia pensar era “Obrigado…”

Túmulo de Michelângelo. O túmulo dele, do Galileu e do Maquiável (que não pude fotografar por estar em restauro) estão todos em Santa Croce.

Túmulo de Michelângelo. O túmulo dele, do Galileu e do Maquiável (que não pude fotografar por estar em restauro) estão todos Santa Croce. Detalhe para as três estátuas: da esquerda pra direita, arquitetura, escultura e pintura representadas nas figuras das três mulheres tristes pela morte de seu maior mestre. Trabalho dos gênios Vasari (tumba), Battista Lorenzi (busto e estátua simbolizando a pintura), Giovanni dell'Opera (arquitetura), Valerio Cioli (escultura) e G. B. Naldini (afrescos).

Por que? Porque entre tanta desgraça e tristeza no mundo, eles te lembram do que eu e você somos capazes. Um pincel, um cinzel, uma curva numa capela foram as ferramentas e testemunhos que eles deixaram. E nessa singeleza de pedra riscada eles acabaram com a “idade das trevas” e foram responsáveis pelo renascimento de novas, velhas,  humanas ideologias.

E a gente hoje, com toda essa parafernália instrumental que temos, com um mundo que cada vez ficar menor em nossas mãos… estamos fazendo o que?

Casa di Dante. As primeiras edições da Divina Comédia.

Casa di Dante. As primeiras edições da Divina Comédia.

Fica a pergunta.

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ZTCT2009: Genova & Milano

September 18, 2009 · 4 Comments

"- A Itália é à esquerda", informou-me Garibaldi.

"- A Itália é à esquerda", informou-me Garibaldi.

Che bella cosa, na jurnata ‘e sole, foi entrar na Itália viu?

Tem quem acredite nessas coisas, tem quem não, mas depois de tanto lugar diferente que eu estive, eu já tomei como ponto pacífico para mim que cada lugar, cidade e país tem uma “atmosfera” que lhe é peculiar. E não é de cultura que estou falando, é algo que está intrínsico num raison d’etre que extrapola os limites do olhar convencional que lançamos quando nos adrentamos no território-do-outro. Se você me perguntar então diretamente para dizer o que é isso, eu te digo sem rodeios que é a energia do lugar mesmo. Hoje eu vi um vídeo duma criatura esquisita que um pessoal do Panamá, acho (eu não quero ver o vídeo de novo, desculpem) e fiquei pensando no quanto de coisa que a gente ainda tem por descobrir. Por isso, e até em nome da finada criatura, eu me sinto confortável para te dizer que cada pedacinho de chão deste mundo nosso é diferente, e essa diferença a gente sente na pele, e no espírito também.

Ok, onde eu estava mesmo?? Ah sim, Itália....

Ok, onde eu estava mesmo?? Ah sim, Itália....

Por isso, foi entrar na Itália que eu me senti diferente. Mais alegre, disposto… e não imaginei que ia me sentir feliz de deixar a França, além do que, estava na Riviera, em Cote d’Azur. Mas sim, fiquei feliz mesmo. A Itália tem um sei-lá-o-que nela mais simples e mais expontâneo. O italiano não é do tipo que guarda pra si o que pensa, e se irrita facilmente para daqui cinco minutos estar tudo bem. Enfim, eu confirmei os esteriótipos típicos, como falar com as mãos, alto, serem emotivos, passionais, etc. E minha conclusão disso tudo? Eu adorei, e estou adorando.

Quem nasce em Gênova é genovês, certo? Poisé... casa de um dos mais ilustres: Cristovão Colombo. Vi o túmulo dele em Sevilha, e agora a casa dele em Gênova. Mission Acomplished, capitano.

Quem nasce em Gênova é genovês, certo? Poisé... casa de um dos mais ilustres: Cristovão Colombo. Vi o túmulo dele em Sevilha, e agora a casa dele em Gênova. Mission accomplished, capitano.

Coloquei Gênova e Milão juntos, porque foram duas cidades que estive bem pouco, apenas para conhecer mesmo e ver os pontos principais. A idéia não era parar mesmo, como fiz em Florença (próximo post). Por isso, nada de grandes estudos, apenas alguma elocubrações de janela do carro e alguns comentário au passant, com os quais espero mesmo assim trazer algumas informações.

Simplicidade e beleza: por isso eu gosto tanto do renascentismo italiano.

Simplicidade e beleza: por isso eu gosto tanto do renascentismo italiano.

Gênova até hoje tem o jeito que imagino tinha quando seus senhores cruzavam o mediterrâneo e forçavam os reis de Portugal, Espanha, e demais engraçadinhos europeus, a procurarem contornar a África para fazerem comércio. Cidade costeira, clima de cidade costeira e mediterrânea, com gente acostumada a lidar com estrangeiros. Isso, pra dizer a verdade, é no geral das cidades grandes italianas: como bons ex-romanos que são, adoram fazer comércio, e em nome dele, toleram as diferenças que por ventura apareçam. Mas fora isso, para mim foi bom sair do livro e andar pelas ruas daquela que foi uma das cidades onde o capitalismo primeiramente atracou. De lembrar das minhas aulas de História Econômica Geral, do século XIV e XV, e de imaginar pessoas de roupas de veludo, chapéu com pena, passando apressadas rumo ao porto da cidade, que agora abriga enormes navios de cruzeiro e demais embarcações turísticas. De descer as ruas da cidade e notar a arquitetura renascentista florentina e sua influência que deve ter chegado pelo mesmo mar que chegava o dinheiro que alimentava e fazia de Gênova, juntamente com Veneza e Napoles, uma das pérolas comerciais do mediterrâneo.

Um óasis cultural no meio de tanta loja.

Um oásis cultural no meio de tanta loja.

E aí eu deixo Gênova para ir pra Milão. Deixo uma cidade tipicamente italiana, na verdade, muito responsável por nos informar pelo jeito de ser italiano pós-imperial e vou para a cidade que é considerada “a menos italiana de toda Itália”. Sim, Milão realmente não parece Itália. Pólo de moda, na verdade tinha momentos que eu andava por lá e ficava me perguntando se não estava em Picadilly Circus, ou em Oxford St. É uma cidade cara, que eu particularmente não vi tantos atrativos, porque eu estou aqui em busca de história. Quero enfiar a mão debaixo de pedra e perguntar para seu-escorpião que mora embaixo qual era a cor do cavalo branco do corso tinhoso. Não fiquei 2 dias lá, apenas pro tempo de chegar e dormir, dá check-out e ir no Castello Sforza e no Duomo, naquilo que foi uma tentativa de  justamente resgatar a história da vitrine da Dolce&Gabana, ou de dentro da bolsa da Victor-Hugo.

Não é a toa que levava mais de século pra ficar pronta cada empreitada dessa.

Não é a toa que levava mais de século pra ficar pronta cada empreitada dessa.

De qualquer maneira, eu estava feliz de já estar dentro deste país. Depois dos passeios rápidos, mirei o carro rumo a Firenze. Fui cheio de expectativas, que não só se confirmaram como foram extrapoladas: a cidade que imortalizou Leonardo (que na verdade era de “Vinci”, uma cidadezinha perto de Florença) e deu berço para outro imortal, Michelângelo, abriu suas portas e portais para mim e me convidou a mergulhar de corpo e alma no Renascentismo. Tão intensa foi esse conúbio entre mim e a cidade, que saí de lá com temas que vou incorporar em minha futura tese de doutorado….

Falando no homem: Pietá Rondanini, de Michelângelo Buonarroi.

Falando no homem: Pietá Rondanini, de Michelângelo Buonarroi. Museu do Castelo Sforza, Milão.

Mas isso é coisa do próximo post, não é mesmo?

Amém

Amém.

Baccios!

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ZTCT2009: Monaco.

September 13, 2009 · 4 Comments

Principado de "Minha Nega"? (AHAHAHAHAHAH, ÓTIMA ESSA HEM!)

Principado de "Meu Nego"? (AHAHAHAHAHAH, ÓTIMA ESSA HEM!)

Vou falar de Monaco separadamente, porque logo depois entrei na Itália e uma nova etapa da viagem começou. Monaco é uma espécie de portal entre os dois mundos, o francês e o italiano. Agora que conheço ambos os países com mais propriedade, posso afirmar isso. E por ter essa função de médium entre-países, que eu preferi falar separadamente.

Panorâmica da Bahia de Monte Carlo. À esquerda, do lado da piscina, é onde começa o GP de Monaco (Vide próxima foto). Mais pra cima é o túnel (vou colocar foto de dentro daqui a pouco). Do lado, a explicação porque não fui de yatch pra lá: não tinha onde estacionar papai.

Panorâmica da Bahia de Monte Carlo. À esquerda, do lado da piscina, é onde começa o GP de Monaco (Vide próxima foto). Mais pra cima é o túnel (vou colocar foto de dentro daqui a pouco). Do lado, a explicação porque não fui de yatch pra lá: não tinha onde estacionar papai.

A passada por lá foi rápida, passei um dia, mas não dormi lá. Cheguei, almocei, perambulei, comprei camiseta de fórmula um, chaveirinho, etc. Fui no castelo, vi a estátua do tal do Príncipe Albert, que nunca foi uma figura de muito peso na minha vida, tirei fotos da vista. Depois disso, peguei o carro, e claro, fui fazer o circuito de fórmula um. Essa parte foi djóia, afinal, eu cresci nos 80, acordando cedo no domingo pra ver corrida com meu pai. Sou do tempo do Piquet, nunca fui muito fã do Senna, tirando o campeonato de 1992 e o GP do Brasil que ele ganhou com a segunda e a sexta marcha só, com o Prost tirando 1, 2 segundos por volta no final. Quando ele levantou o troféu cansado, com uma mão, quase caindo, eu lembro até hoje da expressão contrariada mais respeitosa de fã do Piquet do meu pai dizendo “É…”

Essas marcas brancas no chão, são do grid de largada.

Essas marcas brancas no chão são do grid de largada.

Mas voltando à cidade em si, como eu disse, ela é meio caminho andado pra França e pra Itália. Tem aquele ar esnobe de francês-Chamonix-em-Março/Abril e um jeito mais solto e incauto italiano de Ferrari sem capota. Ao mesmo tempo que você vê esse dinheiro todo, e por estar lá, acaba sendo bem tratado. Fui comer e um restaurante, e estava com uma camisa da Inglaterra, e o dono do restaurante acenou pra mim, me ofereceu ler a carta. Eu fui, li, gostei e sentei pra comer. O garçon chegou falando um inglês impecável, perguntando-me se eu era inglês. Eu disse que não, e quando disse que era brasileiro ele se espantou “nossa” eu perguntei o porque do espanto, e ele me disse “é raro ver brasileiros por aqui”. E eu fiquei sem saber o que dizer, mas vi que o comentário não foi maldoso, foi de certificação de um fato. Logicamente ele adivinhou que eu não atravessei o atlântico e entrei por Gilbraltar de barco caro, mas me tratou muitíssimo bem. Era francês, falamos de futebol claro, e ele polidamente elogiou o time brasileiro, lembrando de 1998 sutilmente. E eu sutilmente lembrei ele das 5 estrelas no peito da nossa camisa, 4 a mais que a deles, e ele riu e foi anotar meu pedido. Tá pensando o que cumpadi? Que cruzei mais de 10.000 km pra ouvir vagabundo de Monaco falar mal do BRASIL? Se liga. Ao menos ele não cuspiu no meu peixe, porque ele preparou o prato na minha frente (especialidade de lá, vide a próxima foto).

Uma das melhores refeições que fiz na viagem. Detalhe é que ele prepara tudo isso na tua frente, num passe de mágica tira as espinhas do peixe, prepara os vegetais, tudo. Teve até tempo pra provocar o garçom do estabelecimento do lado, que eu ia comer lá, tava olhando o cardápio, quando o dono desse lugar que eu comi me chamou pra comer lá. E você pensando que esse tipo de malandragem nunca ia acontecer na Zooropa, não é mesmo?

Uma das melhores refeições que fiz na viagem. Detalhe é que ele prepara tudo isso na tua frente, num passe de mágica tira as espinhas do peixe, prepara os vegetais, tudo. Teve até tempo pra provocar o garçom do estabelecimento do lado, que eu ia comer lá, tava olhando o cardápio, quando o dono desse lugar que eu comi me chamou pra comer no restaurante dele. E você pensando que esse tipo de malandragem nunca ia acontecer na Zooropa, não é mesmo?

Enfim, fora isso, não tem muito mais que eu possa falar, e mesmo que eu acha que vá se ver lá. A não ser que você tenha chegado em um yatch,  pode dar uma esticada no Cassino de Monte Carlo, perder um milhão, e voltar pro barco e se consolar na siliconada bronze-côte d’azur que tá contigo.

Castelo de neguinho príncipe vagabundo. Achei de um mal gosto tremendo. Fico imaginando o o Arnolfo Di Cambio diria.

Castelo de neguinho príncipe vagabundo. Achei de um mal gosto tremendo. Fico imaginando o que o Arnolfo Di Cambio diria.

Sim, o ponto alto de lá, sociologicamente falando, é que eu pude observar RIQUEZA. Sim, com maiúscula. Eu vinha de Côte d’Azur, Riviera, Cannes, Hotel Carlton, Praias Privadas, e pensava que tinha visto tudo. E aí você chega em Monaco, e lá de cima vê os apartamentos esquema asa sul que o pessoal paga zilhões para ter. Olha pro porto, só yatch… os carros? Loja da Ferrari e da Porsche, e inúmeros passeando pela rua. Vi uma F40 amarela, e um modelo novo vermelho, um do lado do outro. Vi 5 amigos, dois porsches e 3 ferraris parados no trânsito, conversando. Você olha as lojas, restaurantes, e aí você entende o que é ser rico. Aí no Brasil o sujeito ganha uns trocos no comércio dele, no escritório, ou passa num concurso, compra um carro importado, e aí pensa “tô rico”, e com esse pouco que tem se perde. Aqui se vê riqueza de bilhão. Mostraram pra mim um BILIONÁRIO, tão rico que tinha loja dele que tinha fechado e ele não sabia. Tipo rico incauto, pelo o que me disseram. Gente que estaciona na frente de loja na champs-elysée e pede pelaamordeDeus pra comprar mais de uma bolsa Victor Hugo por dia, e quando recebe não de resposta, paga pra estranhos entrarem na loja e comprar (uma oriental-sei-lá-de-onde comprou 11).

O famoso túnel de Monte Carlo!

O famoso túnel de Monte Carlo!

Monaco é o ápice disso tudo. Muito dinheiro mesmo. Rico simples, rico nariz em pé, rico que não fala com ninguém, rico o que seja, mas tudo rico. E aí você tem a oportunidade de pensar tanto no valor do dinheiro como no valor daquilo que já tem. Pensa se vale a pena ser enjoado tendo pouco ou muito, ou se vale mais a pena dividir o que tem e espalhar alegria. Se é bacana sentir o ronco da ferrari fazer eco no coração vazio, ou se é melhor escutar a voz de alguém querido falando atrás de ti no banco da lambreta.

oi princesa, quer tc?

oi princesa, quer tc?

Dinheiro, money ou $$$. Chame como quiser, eu posso te afirmar pelas pessoas que conversei com milhões de cifras no bolso, que nenhuma delas era um pouco mais ou menos feliz por conta dele. Pelo que percebi, não é o tanto que você tem, mas o que você faz dele. Se duvida de mim, pergunte para a parede de um apartamento de verão vazio de Monte Carlo se ele não preferia a casa cheia de criança barulhenta ao ruído tímido de poeira deitada uma sobre a outra.

Juro que não entendi a estátua, nem a gratidão. Mas ok...

Juro que não entendi a estátua, nem a gratidão, mas ok. Acho que é mania de príncipe-menor com vontade de Carlos Magno. Deve ser isso.

Até mai$

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